“The Circle” e a vida em virtualidade

The Circle Brasil é um reality show da Netflix que simula o ambiente virtual. Os competidores se comunicam utilizando somente seus perfis, e o objetivo do jogo é tornarem-se os maiores influenciadores, para assim ganharem o prêmio do programa. É claro que, diante desse o objetivo, vale tudo para se tornar influenciador, inclusive mentir sobre quem você é para ganhar o carinho e simpatia dos demais participantes.

O formato do programa é uma clara analogia a era da internet em que vivemos. As redes sociais são o nosso palco, e nós somos os protagonistas performando nele. Desta forma, construímos um espetáculo ao redor da vida cotidiana. E assim como os participantes do reality, nós também buscamos transmitir a “melhor versão” (lê-se a imagem mais agradável) de nós mesmos nas redes sociais, assim como exibir de forma online somente aquilo que nos é conveniente do nosso dia a dia. Carvalho, Magalhães e Samico (2018) ao propor um olhar psicanalítico sobre a exposição da autoimagem no mundo virtual, colocam que:

“No ciberespaço, pode-se ser quem quiser, obter a identidade que desejar. Causa, mesmo que de maneira inconsciente, uma vontade de se obter a mesma admiração e aprovação que quem está sempre postando uma vida fantástica obtém. Ao nos depararmos com uma “vida perfeita”, passamos a comparar a nossa própria vida com aquela exibida à nossa frente” (p. 48).

Fonte: encurtador.com.br/kvMY2

Assim, entende-se que essa de construir uma imagem polida e atraente de nós mesmos surge de uma necessidade que habita a grande maioria de nós: a ânsia pelo olhar do outro. Queremos que o outro nos observe e nos aprove. É claro que essa busca por validação vem de outras épocas da nossa vida, como por exemplo, na relação que tínhamos com nossos pais, as figuras que mais importantes da nossa vida, na infância; algo que desde então provoca tensões dentro de nós.

Diante da realidade na qual nos encontramos, repleta não só de aparatos disponíveis, mas também de novas figuras e modelos sociais representativos (por exemplo, o surgimento dos influencers digitais), o nosso desamparo encontra “acalento” no contexto virtual. E para conseguir esse olhar do outro, criamos personagens, parecidos conosco, mas que não são exatamente fiéis. Construímos esse personagem querendo ser o objeto de desejo do outro. E como recebemos essas aprovações? Através das múltiplas ações virtuais existentes como curtidas, comentários, visualizações, e tantas outras formas de sentir que o outro está nos validando com o seu click.

 Assim como para os participantes do reality The Circle Brasil, um like passa a ser muito mais que um like. É um alimento para o nosso ego. É algo que nos dá a sensação de que fizemos “algo certo” e vibramos, tal como os participantes quando percebem a aceitação dos demais. Essa situação cria em nós um ciclo vicioso de hábitos na nossa vida online, que visam sempre o outro. Carvalho, Magalhães e Samico (2018) constatam essa ideia ao dizer que:

“A maçante apresentação da autoimagem nesses veículos de mídia de certa forma tampona uma ferida narcísica instaurada no sujeito que muitas vezes olha o outro da forma que gostaria de ser. Por desejar mostrar-se ao outro, deseja ao mesmo tempo ser o objeto do desejo alheio a fim de suprir esse desamparo recorrente. Ainda que momentaneamente ele viva o prazer quando recebe o tão esperado “like” em sua foto, é algo efêmero. Algo que é rapidamente superado, criando assim a ânsia de se produzir mais situações onde esse ser possa realizar-se novamente.”

Fonte: encurtador.com.br/kmw27

E é por isso que a “rejeição online” torna-se tão dolorosa quanto a offline, pois ela representa a desaprovação, a rejeição, a falta. Diante disso, muitas vezes até abrimos mão da nossa singularidade em busca dessa validação. Sobre esse ciclo, Garzia-Roza faz uma indagação interessante em na obra Freud e o Inconsciente (1984):

“A grande questão que circunda esta forma de se expressar talvez seja: se esta aprovação da vida é completamente suficiente para que o sujeito obtenha a realização que anseia, por qual motivo ele não se sente em plenitude?” (p. 144).

Essa pergunta nos proporciona a uma série de reflexões sobre quem somos e para onde vamos, mas nos atendo aos fatos observados no reality show, percebe-se que ele nos ensina algo sobre isso tudo logo no início. Quando a votação para decidir quem seriam os influenciadores da vez era “limpa”, ou seja, não existiam estratégias e armadilhas que surgem mais adiante no jogo, e de fato se levava em consideração apenas o carisma dos participantes, as pessoas no “topo” eram de fato as mais autênticas e que não mentiam sobre quem eram. Em contrapartida, os “fakes” não tinham o desempenho que acreditavam que teriam. Isso serve como lição para nós. A melhor versão de nós é a versão verdadeira!

Referências:

GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. 2. ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 1984

CARVALHO, JPST; de Magalhães, PMLS; Samico, FC. Instagram, narcisismo e desamparo: um olhar psicanalítico sobre a exposição da autoimagem no mundo virtual. Revista Mosaico – 2019 Jul/Dez.; 10 (2): 87-93

FICHA TÉCNICA

Nome do programa: The Circle Brasil

Temporada: 1
Episódios: 12
Gênero: Competição
País de origem: Brasil
Produção: Studio Lambert e Motion Content Group
Emissora original: Netflix
Apresentadora: Giovanna Ewbank

Marina Clara
Acadêmica de Psicologia do Centro Universitário Luterano de Palmas CEULP/ULBRA e criadora de conteúdo da página no Instagram @dosediariadepsico.