The Society: A reconstrução e vivência das atrocidades humanas

A trama ocorre a partir das relações interpessoais entre os personagens, que tiveram de se desenrolar para a sobrevivência uns dos outros.

The Society é uma série que traz à tona nossa organização enquanto indivíduos, levantando reflexões sobre as relações de poder que rodeiam nosso cotidiano, a necessidade de regras para manter um bom convívio, revelando nossas dificuldades morais, limitações e dependência da cooperação mútua para sobrevivência humana. Seríamos capazes de nos manter, caso tivéssemos que organizar uma sociedade do zero? A cada episódio dessa trama, a pergunta fica cada vez mais fixa, pois demonstra que os seres têm sérios problemas de manter-se unidos, pois, a luta pelo poder, a desconfiança que a ambição gera, tudo isso se reflete e põe em xeque cada membro que é célula indispensável para o organismo social.

Tudo inicia com uma excursão entre os jovens de um colégio, que durante a trajetória, acabam parando no mesmo local que haviam partido, com a explicação do motorista de que eles tiveram de voltar. Sem entender o motivo, ao descerem do ônibus percebem que não tinha sinal de celular, e aparentemente toda a cidade estava vazia. Decidem então aproveitar tal liberdade para fazerem uma festa na igreja. Logo no outro dia, a preocupação já era mais evidente, nenhuma mensagem, e nenhuma pessoa além dos alunos estava ali. Todos se perguntam o que havia acontecido, sem nenhuma resposta decidem ir até a entrada da cidade, e averiguam que tudo foi tomado por uma floresta densa. 

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Após alguns dias, a ansiedade já era evidente, muitas perguntas emergiram. Todos ali procuravam o entendimento do ocorrido, e foi possível ver que os personagens passaram no decorrer dos episódios pelas fases do luto, de acordo com as teses de  Elisabeth Kubler; em primeira instância,  negavam o fato de que estavam sozinhos, e de que ninguém poderia voltar para buscá-los. A raiva, a barganha, depressão e aceitação também foram verificadas. Em momentos de desespero, deixavam recados na caixa de mensagens que não poderiam ser ouvidas pelos pais, barganhando, desejando sua volta. Em outros momentos, alguns ficavam extremamente apáticos e depressivos, imersos em uma tristeza profunda. 

No decorrer da história foi visto a aceitação na fala de personagem Kelly, que dizia com mais tranquilidade que talvez realmente ninguém nunca voltasse. Cria teorias reconfortantes, como a possibilidade de seus pais estarem vivos em outra dimensão, e que aquela poderia ser uma oportunidade de uma construção de uma sociedade melhor, pagando pelos pecados anteriormente cometidos pelos seus pais. 

A placa da entrada da cidade chamava-se “West Ham”, entretanto, logo depois da saída do ônibus, pôde-se perceber que na verdade a placa foi pichada, e o resultado foi “West SHam”, (tradução Sham= Farsa/falso), dando a entender que aquele lugar era sujo e mentiroso, assim como as pessoas que ali moravam.

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Várias teorias durante a história foram levantadas, a partir da observação do céu, principalmente por Gordie, o menino que entre eles mostrava-se com muitas habilidades intelectuais; notaram que um eclipse que deveria ser registrado apenas daqui 4 anos, foi avistado. A partir disso, também foi averiguado que não havia nenhum satélite em órbita, o que os fizeram pensar que talvez estivessem em um mundo paralelo.

Um cheiro forte mencionado no início da série também desapareceu, depois que foram levados de volta à cidade que agora estava rodeada pelo mistério. O motorista que os levaram no ônibus, foi um homem chamado Pfeiffer, a quem segundo Kelly foi contratado pelo seu pai para acabar com o cheiro que perturbava todos os moradores, entretanto, o custo era muito alto, então foi recusado tal serviço. 

Pfeiffer (nome de origem germânica, tendo o significado de flauta medieval), segundo as teorias de Gabriel Herdy, nos remete a um conto da Alemanha, chamado o “Flautista de Hamelin”. Aborda que a cidade de Hamelin estava sofrendo por conta da infestação de ratos, então ele se apresentou como a solução dos problemas, pois com sua flauta conseguia hipnotizar os bichos, e assim poderia matá-los, foi então prometido uma moeda por cada cabeça de rato. 

O flautista levou todos os ratos embora, afogando-os sobre o rio da cidade, entretanto por não ter apresentado as cabeças, o povo decidiu não o pagar. Voltou depois de alguns dias na cidade, hipnotizou as crianças da vila, e os afogou sobre o mesmo rio como lição. A história se repete de forma muito similar ao conto, sendo uma boa teoria de explicação para o enredo da série. O cheiro pode ser interpretado como uma peste metafórica, e todos os filhos tiveram de pagar pelos pais a “sujeira” de suas ações. 

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A trama ocorre a partir das relações interpessoais entre os personagens, que tiveram de se desenrolar para a sobrevivência uns dos outros. Alguns problemas já enraizados na sociedade vieram à tona, entretanto, modificar questões sociais não era para um bem comum distante, mas sim para que houvesse de fato uma relação de sobrevivência emergente, no qual a decisão de um, atingia todos. A reaproximação era necessária; como se estivesse regredindo na história humana, as relações afastadas do mundo contemporâneo não era mais uma realidade, deveriam aprender por si só questões já desvendadas, por meio do aprendizado e cooperação. 

As garotas  do filme, apesar de terem muitas diferenças entre si, tiveram de se unir por questões em comum. Compartilhavam o “medo da testosterona” , o que quer dizer, que estando em um lugar fechado com outros homens, elas deveriam cuidar-se para que não houvessem estupros, violência, pois já que elas eram as únicas ali, temiam que o desejo desenfreado, e a ideia dominadora que herdara da sociedade patriarcal e machista, pudesse ser desastroso a elas. 

Alguns personagens como Sam, devem ser mencionados pois se trata de uma caracterização de pessoas marginalizadas socialmente, se trata de alguém observador, carinhoso, e a representação de uma pessoa surda, que apesar de portar essa deficiência, em nenhum momento foi um empecilho para comunicar-se. Quase todos os personagens sabiam a linguagem de sinais, mostrando inclusão e representatividade, pois além disso, ele se afirma como homossexual, e sua melhor amiga Becca, estava grávida dele, sendo essa uma gravidez indesejada, difícil e temida por ela. Entretanto, apesar das inúmeras dificuldades conjugais de Sam, já que na melhor das hipóteses poderia existir um heteronormativo que escondesse sua homossexualidade por repressão, Sam começou a se envolver com Gareth que suprimia seus desejos, mas que dessa vez, tentou aprender linguagem dos sinais, e se aproximar de Sam.

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Além de tudo, a vida de Sam foi permeada de medo, pois seu irmão mais velho chamado Campbell, é psicopata, e agora sua nova companheira Elle estava em apuros, pois aquela relação era permeada pelo controle, ideal de posse, além da inconstância sobre atitudes de Campbell pudesse vir a ter. Relações abusivas também foram retratadas como nos personagens de Kelly e Harry, onde ele tinha status, popularidade e poder sobre a anterior vida no colegial. As relações aos poucos mudavam, deveriam agora racionar comida, pensar em formas de plantio, maneiras de manter todos ali seguros, e além de tudo, manter as regras a partir da democracia e unanimidade de escolha de todos. 

Entretanto, tudo isso era bem mais difícil na prática. A luta pelo poder, o machismo, e a dificuldade de seguir e manter regras tornaram-se não só complexas como letais, levando a morte de alguns personagens. Cujo o dualismo político, a luta para ascensão e controle das totalidades, por vezes, eram vistas como prioridade por alguns ao invés do bem comum. Cada vez mais era possível averiguar a frase de Maquiavel “Dê poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é”. A Lei de talião tornou-se vigente, a morte de alguém representava a morte do culpado, e nessa disputa muitos se corromperam, tornando as relações cada vez mais difíceis e injustas.  

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Dessa forma, a série nos traz a possibilidade de reflexão sobre nós mesmos, sobre o empecilho de nossas desvirtudes morais, a partir de uma pequena parcela de pessoas que constituíam essa nova sociedade. A série termina sem uma explicação sobre o motivo ao qual eles estavam presos, mas algo é certo, eles deveriam lutar para construir um lugar que possibilitasse a sobrevivência. A trama mostra, que muito pelo contrário, quando o poder está em jogo, muito cabeças viram degraus. Relações abusivas, machismo, homofobia, depressão, abuso de drogas, religiosidades, deficiência física e mental são temas que permeiam a série “The Society”. 

Novos episódios já estão previstos, pois os fãs da série ficaram inquietos pois desejam desfechos, e um entendimento melhor do que houve com os jovens daquele colégio. Estariam mortos, em um mundo paralelo, ou em outra dimensão? Muitas teorias foram formuladas a partir dessas dúvidas, estamos como os próprios personagens, imersos nessas realidades, e buscando possibilidades de modificar nossa sociedade em um lugar melhor para si viver. Alguns interpretam como bênção ou como castigo, mas algo que não se pode negar é que eles receberam de alguma maneira a chance de reconstruir uma nova forma de organização. 

No último episódio da primeira temporada Gareth recebe um livro de Sam, chamado “A vida nos bosques” de Thoreau, leu um trecho em voz alta enquanto alguns colegas explorava o matagal que rodeava a cidade, sendo a seguinte frase: “Fui viver no bosque, porque quis viver deliberadamente, para enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se eu aprenderia o que ele tinha a me ensinar, em vez de, na hora da minha morte, descobrir que não vivi”.

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Estariam eles então vivendo uma sorte, uma nova oportunidade de gozar sobre fatores essenciais, de renovação psíquica sobre o que geralmente interpretamos como importante ou essencial, ou vivendo um castigo? Na redoma de nossas ignorâncias, nós também vivemos presos a nossas ideias, inconclusões e medos, e sobre prioridades que por vezes nos adoecem, tentando encontrar a fuga de nossas próprias mazelas ao invés de modificá-las. The society é uma parcela de nós mesmos, é reflexão de nossas vidas e nossa potencialidade de mudança e desfecho na história de nossas vidas, e a de todos que nos rodeiam. 

Referências: 

ALMEIDA, Bruno. As 5 fases do luto de Elisabeth Kubler-Ross (2014). Disponível em: https://www.psicologiamsn.com/2014/09/as-5-fases-do-luto-ou-sobre-a-morte-de-elisabeth-kubler-ross.html . Acessado em: 26 de junho de 2019.

HERDY, Gabriel, O que aconteceu com os jovens de The Society (2019). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SLn7DfDaJTU&t=265s Acessado em: 20 de junho de 2019.

Ficha Técnica

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Título original: The Society

Direção: Marc Webb

Elenco: Kathryn Newton, Gideon Adlon, Sean Berdy, Natasha Liu Bordizzo, Jacques Colimon, Olivia DeJonge, Alex Fitzalan, Kristine Froseth, Jose Julian, Alexander, MacNicoll, Toby Wallace, Rachel Keller

Local:  USA

Ano: 2019

Gênero:  Drama adolescente, Mistério

Maria Eduarda Oliveira
Acadêmica de Psicologia na instituição de ensino CEULP/ULBRA, bolsista no programa de extensão (EN)cena - Saúde Mental em Movimento. Equipe de produção textual.