Toy Story 4: A herança da amizade

O filme caminha de forma cômica para um fim doloroso, que mexe intimamente com nossas vidas. Uma comunidade de brinquedos nos ensina que com amizade não se brinca. 

“Amigo estou aqui”, icônica frase da música que marcou gerações. Desde o primeiro filme da saga, Toy Story fala de amizade, seus conflitos e vantagens. No quarto filme do longa-metragem lançado em junho de 2019, após os brinquedos se despedirem de Andy (antigo dono dos brinquedos) no terceiro filme, eles continuam juntos, mas agora são brinquedos de Bonnie.

O Xerife Woody (brinquedo cowboy e líder dos demais) já não é mais o brinquedo favorito, ele se sente desolado com o que podemos comparar a Síndrome do Ninho Vazio, processo de rompimento quando “seu humano” vai para a faculdade, e mesmo diante da possibilidade de ser esquecido no armário, Woody se mantêm leal a Bonnie na chegada do novo brinquedo: o Garfinho.

No primeiro dia de aula da escolinha, Bonnie cria um brinquedo com peças retiradas do lixo, sendo sua primeira criação e consolo por estar em um novo ambiente. Ela se apega muito ao Garfinho, em contrapartida, ele ainda se prende a sua antiga mentalidade de lixo. Woody, por amor a Bonnie e por acreditar que “nunca se deve deixar um brinquedo para trás”, tenta proteger e ajudar o Garfinho na sua jornada de autoconhecimento e tentativa de pertencimento, enquanto ele também está nessa mesma jornada. Seguindo o que Erich Fromm considera a tarefa principal do ser: dar luz a si mesmo para poder se transformar naquilo que realmente é.

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Albert Bandura conceitua a autoeficácia como, em suas palavras, “as crenças da pessoa em sua capacidade de exercer controle sobre seu próprio funcionamento e sobre os eventos que afetam suas vidas.” Caso a autoeficácia esteja baixa, sentimentos de inutilidade, desesperança e tendência a desistência são perceptíveis. A ideia que é descartável após um único uso faz com que Garfinho se jogue em toda lata de lixo que encontra; pessoalmente acho uma das partes mais engraçadas do filme, mas, num subcontexto, tal comportamento não é incomum em nossas vidas, já que  Como quando Woody mostra ao Garfinho o nome Bonnie escrito na sola dos seus sapatos, assim, com ajuda e insistência do Xerife, ele alcança uma autoeficácia saudável. Agora ele reconhece que merece ser amado, agora ele pertence.

No terceiro filme Andy relata: “Woody tem sido meu amigo desde sempre. É corajoso, como um cowboy deve ser. É gentil, inteligente, mas o que faz Woody especial é que ele nunca desiste de você. Nunca. Ele vai estar contigo para o que der e vier.” De acordo com Erich Fromm, a mais alta realização que justifica a existência é o amor; nele, duas pessoas se tornam uma ao mesmo tempo que continuam sendo dois indivíduos separados. Outro mecanismo para alcançar as respostas da vida é juntar-se a um grupo, com isso, o sentimento de isolamento é superado.

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O típico heroísmo do Xerife Woody também se mostra no antiquário (lugar onde brinquedos rejeitados esperam uma segunda chance) ao agir com empatia para Gabby Gabby, inicialmente a vilã principal, que traz um clima sombrio e tenso ao filme. Atitude que lembra a famosa frase de Fromm: “Somente a pessoa que tem fé em si mesma é capaz de ter fé nos outros. ”

Garfinho e Woody dividem o protagonismo nesse filme, os brinquedos que antes eram foco não ganharam tanto destaque, o que nos leva a pensar em um irremediável fim, ou quem sabe, um novo começo. Talvez, devido a isso esse filme traz certo grau de maturidade, sendo uma leve comédia para crianças, ao mesmo tempo que é um drama existencial para adultos.

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Mudanças são inerentes a vida. Woody, em um passo de ousadia e com a ajuda de Betty, agora a representação da mulher independente do século XXl, ressignifica sua vida e vai em direção ao desconhecido. O filme caminha de forma cômica para um fim doloroso, que mexe intimamente com nossas vidas. Uma comunidade de brinquedos nos ensina que com amizade não se brinca.

Mas o que fazer depois de entoar diversas vezes “O tempo vai passar, os anos vão confirmar as três palavras que proferi: Amigo, estou aqui!”, e você olha para o lado e o amigo não está mais lá? O que fazer com a esperança, as expectativas criadas que aquela pessoa seria para sempre seu amigo?

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Ser amigo é construir um lugar de consolo e descanso, prezando pelo outro, que também preza por você. Antoine de Saint-Exupéry, escritor do Best-seller O pequeno Príncipe, escreveu: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mais adiante ele complementa: “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.” As relações possuem seus prazeres e desprazeres, então, ás vezes, ser amigo também é deixar ir.

Como em todos os filmes da saga, os brinquedos estavam lá uns pelos outros, assim como as crianças costumam enxergar, e servindo de exemplo para nós. São laços que juntam, mas não prendem. Entre começos e términos, despedidas e reencontros, primeiras e últimas vezes, o que importa é a marca que deixam e a marca que fazemos. Como uma colcha de retalhos, pedaços de todos que já passaram em nossas vidas, retalhos costurados de saudades. Assim como as amizades, as lições aprendidas com Andy, Woody e Buzz lightyear certamente irão acompanhar gerações, ao infinito e além.

FICHA TÉCNICA DO FILME

TOY STORY 4

Diretor: Josh Cooley

Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Joan Cusack,

Wallace Shawn, John Ratzenberger

 Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia

País: Estados Unidos da América

Ano: 2019

REFERÊNCIAS

Erich Fromm – “O desejo de destruir é resultado de uma vida não vivida”. Disponível em: https://www.cultseraridades.com.br/erich-fromm-o-desejo-de-destruir-e-resultado-de-uma-vida-nao-vivida/. Acesso em: 6 set, 2019.

AZEVEDO, Tiago. A Autoeficácia (Bandura) e sua importância. Disponível em: https://psicoativo.com/2019/02/autoeficacia-bandura-importancia.html. Acesso em: 6 set, 2019.

Milena Negreiro
Acadêmica de Psicologia no Ceulp/Ulbra e Voluntária no Portal (En)cena: a Saúde Mental em Movimento.