Entre dois mundos: aprender um novo idioma e os impactos na identidade

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Aprender um novo idioma vai muito além da aquisição de vocabulário ou da capacidade de se comunicar em outra língua. O contato com um novo idioma também envolve experiências emocionais, sociais e culturais que podem impactar diretamente a forma como o sujeito se percebe e se posiciona no mundo. Ao aprender uma nova língua, o indivíduo passa a acessar diferentes formas de pensamento, comportamento e expressão, entrando em contato com novas referências culturais e identitárias.

Além disso, o processo de aprendizagem pode mobilizar sentimentos como insegurança, ansiedade, frustração e medo do julgamento, especialmente em situações que exigem exposição e comunicação oral. Ao mesmo tempo, aprender um idioma também pode fortalecer a autoestima, ampliar o senso de pertencimento e contribuir para o desenvolvimento pessoal.

A relação entre linguagem, identidade e subjetividade é amplamente discutida pela psicologia e pelas ciências humanas. Estudos apontam que a linguagem participa ativamente da construção da identidade e da forma como os sujeitos se relacionam consigo mesmos e com o outro, tornando o aprendizado de um novo idioma uma experiência que atravessa aspectos emocionais, sociais e culturais.

Considerando esses aspectos, o Portal (En)Cena realizou uma entrevista com Lysa Andrielly Rodrigues de Macedo, professora de coreano há cinco anos, aprovada no teste de proficiência TOPIK I – nível 2. A entrevista foi realizada no dia 16 de maio de 2026 e teve como objetivo refletir sobre os impactos emocionais e subjetivos presentes no processo de aprendizagem de um novo idioma, especialmente no contexto do ensino da língua coreana.

Entrevista

(En)Cena – Como você percebe que o aprendizado de um novo idioma impacta a forma como os alunos se expressam e se percebem?

Lysa –   Percebo que muitos alunos começam a se expressar de formas diferentes, porque o idioma abre espaço para novas formas de pensar e se comunicar. Alguns ficam mais confiantes e participativos com o tempo.

(En)Cena – Você acredita que aprender uma nova língua pode influenciar a construção da identidade do aluno? De que forma isso aparece na prática?

Lysa –  Sim. Aprender uma nova língua pode influenciar bastante a identidade, porque o aluno passa a ter contato com outra cultura e novas formas de ver o mundo. Isso aparece nos interesses e até no jeito de falar.

(En)Cena – Durante o processo de aprendizagem, é comum que os alunos sintam insegurança ou vergonha ao se comunicar? Como isso se manifesta?

Lysa –  Sim, é muito comum. Muitos têm medo de errar a pronúncia, esquecer palavras ou serem julgados. Isso aparece na timidez para falar ou na insegurança durante atividades orais.

(En)Cena – O contato com uma nova cultura, como a coreana, pode gerar identificação ou até comparação com a própria realidade. Você observa isso nos alunos?

Lysa –  Sim. Muitos alunos acabam se identificando com aspectos da cultura coreana e comparando com a própria realidade, principalmente em relação aos estudos, rotina e comportamento social.

(En)Cena – Alguns alunos relatam se sentirem “diferentes” quando começam a aprender outro idioma. Você já percebeu mudanças na forma como eles pensam, se comportam ou se posicionam?

Lysa –  Já percebi mudanças principalmente na confiança e na forma de pensar. Alguns alunos ficam mais abertos a novas culturas e mais motivados a estudar e se desenvolver.

(En)Cena – Existe uma relação entre aprender um idioma e a sensação de pertencimento? Os alunos buscam isso de alguma forma?

Lysa –  Sim. Muitos procuram aprender o idioma para se sentirem parte de uma comunidade, conseguir conversar com outras pessoas ou se aproximar mais da cultura que gostam.

(En)Cena – O erro faz parte do processo de aprendizagem, mas pode gerar frustração. Como você observa os alunos lidando com isso emocionalmente?

Lysa –  Alguns lidam bem, mas outros ficam frustrados quando não conseguem evoluir rápido. Muitos se cobram bastante e acabam se comparando com outros estudantes.

(En)Cena – Na sua experiência, o ambiente de ensino pode influenciar na segurança emocional dos alunos? O que faz diferença nesse processo?

Lysa –  Com certeza. Um ambiente acolhedor faz muita diferença. Quando o aluno sente que pode errar sem julgamento, ele participa mais e aprende com mais segurança.

(En)Cena – Você já percebeu casos em que o aprendizado do idioma contribuiu positivamente para a autoestima ou confiança dos alunos?

Lysa –  Sim. Já vi alunos ficarem muito mais confiantes depois de perceberem que conseguiam ler, escrever ou conversar em outro idioma, mesmo que no básico.

(En)Cena – Por outro lado, esse processo também pode gerar ansiedade ou pressão? Em que situações isso costuma acontecer?

Lysa –  Sim. Isso acontece principalmente quando o aluno se compara com outras pessoas, sente pressão para evoluir rápido ou acha que precisa ser perfeito para falar.

(En)Cena – Qual você acredita que é o papel do professor diante dessas questões emocionais que surgem no processo de aprendizagem?

Lysa –  O professor tem um papel importante em acolher, incentivar e mostrar que o erro faz parte do aprendizado. Também é importante respeitar o ritmo de cada aluno.

(En)Cena – Para você, aprender um idioma vai além da comunicação? O que esse processo pode representar na vida de uma pessoa?

Lysa –  Sim, vai muito além da comunicação. Aprender um idioma pode representar crescimento pessoal, novas oportunidades, conexão cultural e até uma forma de autoestima e pertencimento.

O relato da entrevistada evidencia que aprender um novo idioma não envolve apenas aspectos técnicos da comunicação, mas também processos emocionais e subjetivos importantes. A insegurança diante do erro, o medo do julgamento e a comparação constante aparecem como fatores que podem gerar ansiedade e frustração durante o processo de aprendizagem.

Ao mesmo tempo, a entrevista também demonstra como o contato com outra língua e cultura pode favorecer o desenvolvimento da autoestima, da autoconfiança e do senso de pertencimento. Nesse contexto, o ambiente de ensino e a postura do professor tornam-se elementos fundamentais para a construção de uma experiência emocionalmente segura e acolhedora.

Mais do que aprender palavras e regras gramaticais, aprender um idioma também significa entrar em contato com novas possibilidades de existir, se comunicar e se perceber no mundo.

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[2] BENASSI, Angélica. Linguagem, identidade e desenvolvimento humano: reflexões sobre a aprendizagem de línguas ao longo da vida. International Integralize Scientific, v. 5, n. 54, 2026.

[3] FALASCA, Patrícia. Aquisição/aprendizagem de LE: subjetividade e deslocamentos identitários. 2012. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Araraquara, 2012.

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[6] NORTON, Bonny. Identity and language learning: extending the conversation. 2. ed. Bristol: Multilingual Matters, 2020.

[7] RIBEIRO, K. M. O papel da maturidade emocional no ensino de língua inglesa: impacto na proficiência e desenvolvimento emocional de estudantes. Monografia (Graduação) – Universidade Estadual do Piauí, 2025.

[8] VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

 

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