Ética, compromisso e transformação na psicologia: (En)Cena entrevista Lilian Guimarães

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A Psicologia é uma profissão construída diariamente por meio do encontro com as pessoas, da escuta qualificada e do compromisso ético com a sociedade. Em diferentes contextos de atuação, psicólogas e psicólogos são chamados a compreender o sofrimento humano, promover saúde mental e contribuir para a construção de relações mais saudáveis. Nesse cenário, a formação contínua, o compromisso com a ética e a defesa das condições dignas de trabalho tornam-se aspectos fundamentais para o fortalecimento da profissão.

Nesta entrevista, conversamos com Lilian Guimarães, psicóloga (CRP-23/1388), vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP-23) e integrante da Comissão de Orientação e Fiscalização. Sua trajetória profissional iniciou-se ainda no estágio dentro do sistema Conselhos, experiência que posteriormente a levou à atuação como fiscal e, mais tarde, à ocupação de cargos de gestão no Conselho. Paralelamente, desenvolve atendimentos clínicos individuais, familiares e de casais, com enfoque na abordagem sistêmica e especialização em relacionamentos. Também é autora de um material voltado ao manejo da ansiedade, produzido com o objetivo de ampliar o acesso a informações sobre saúde mental.

Ao longo da conversa, Lilian compartilha reflexões sobre sua trajetória profissional, os desafios encontrados na fiscalização do exercício da Psicologia, a realidade dos profissionais em diferentes contextos do estado, a compreensão sistêmica dos relacionamentos e da ansiedade, além dos aprendizados que marcaram sua caminhada. A entrevista também traz importantes orientações para estudantes e profissionais que desejam construir uma atuação ética e significativa.

(En) Cena: Lilian, olhando para a sua trajetória, como foi o seu percurso desde a época de estágio até a atuação atual no CRP-23 e na clínica? Em que momento você percebeu que queria seguir nesses dois caminhos?

Lilian Guimarães – Quando estamos na graduação e iniciamos os estágios, geralmente idealizamos como será nossa trajetória profissional, mas nem sempre ela acontece da forma que imaginamos. No meu caso, a única continuidade que realmente se confirmou desde o estágio foi a atuação dentro do sistema Conselhos. Nos demais campos, fui me descobrindo ao longo do caminho. Sempre atuei na área da saúde, passei por hospitais de referência, trabalhei durante a pandemia da Covid-19, atuei também no sistema de justiça e fui ampliando minhas experiências profissionais. Paralelamente, mantive meu interesse pela clínica e pela avaliação psicológica, área pela qual sempre tive afinidade. Investi em formações, supervisões e capacitações que contribuíram significativamente para minha construção profissional.

(En) Cena: Durante sua atuação como fiscal e dentro do Conselho, você certamente lidou com situações delicadas que envolvem ética e prática profissional. Quais foram os principais desafios que você enfrentou nesse período?

Lilian Guimarães – Um dos maiores desafios está relacionado às questões legislativas. Muitas vezes existe uma visão de que a fiscalização possui um caráter punitivo, quando, na verdade, o sistema Conselhos tem uma função muito mais orientativa e educativa. Foi preciso compreender esses limites e também transmitir essa perspectiva aos profissionais. Em geral, encontramos boa receptividade dos psicólogos, que frequentemente se sentem amparados pelo trabalho de orientação realizado pelo Conselho. Também enfrentamos situações relacionadas à formação profissional, além de casos em que foi necessário recorrer a instâncias superiores devido às limitações jurídicas do próprio Conselho.

(En) Cena: Ao longo dessa caminhada, especialmente atuando dentro do Conselho, você deve ter se deparado com situações complexas que envolvem não só aspectos técnicos, mas também éticos e humanos da profissão. Quais experiências mais marcaram sua visão sobre o papel do psicólogo na sociedade?

Lilian Guimarães – Atuando em diferentes municípios do interior do Tocantins, tive contato com realidades bastante desafiadoras. Em muitos lugares, especialmente em cidades menores, as políticas públicas ainda estavam em processo de consolidação e os psicólogos enfrentavam condições de trabalho extremamente precárias. Encontramos profissionais atuando sem estrutura adequada, em espaços inadequados e, muitas vezes, ocupando funções incompatíveis com as atribuições da profissão. Essas experiências mostram como a Psicologia ainda é, em alguns contextos, tratada como algo secundário, quando deveria ser compreendida como investimento essencial para a população. Também aprendi que nem sempre os profissionais possuem liberdade para recusar determinadas condições de trabalho, especialmente quando se trata da primeira oportunidade de emprego. Essas vivências fortaleceram minha compreensão sobre a importância de defender melhores condições de atuação e maior valorização da categoria.

(En) Cena: Considerando o contexto atual, em que muitas pessoas enfrentam dificuldades nos vínculos afetivos e altos níveis de ansiedade, como você compreende essas demandas a partir da perspectiva sistêmica? E de que forma essa abordagem contribui para ampliar o olhar sobre o sofrimento psicológico?

Lilian Guimarães – A forma como nos relacionamos mudou muito ao longo do tempo. Hoje, grande parte dos vínculos ocorre também por meio da tecnologia, o que modifica a qualidade das interações e das interpretações que fazemos delas. A abordagem sistêmica compreende que as pessoas não existem isoladamente, mas fazem parte de sistemas relacionais compostos pela família, amigos, trabalho, cultura e contexto social. Dessa forma, buscamos entender como os vínculos foram construídos ao longo da história de vida e quais padrões relacionais estão sendo repetidos. O sofrimento não é visto apenas como um sintoma a ser eliminado, mas como um sinal de que algo precisa ser reorganizado dentro daquele sistema de relações. Em vez de perguntar apenas o que a pessoa tem, procuramos compreender o que aquele sofrimento está tentando comunicar.

(En) Cena: Você também desenvolveu um material voltado para o manejo da ansiedade. O que motivou essa iniciativa e quais orientações você considera mais importantes para ajudar as pessoas a lidarem melhor com a ansiedade no dia a dia?

Lilian Guimarães – A ideia surgiu a partir da percepção de que muitas pessoas chegam ao consultório apresentando dificuldades relacionadas à ansiedade, mas ainda encontram barreiras para iniciar um acompanhamento psicológico. O material foi pensado justamente para essas pessoas, deixando claro que ele não substitui a terapia, mas pode funcionar como um primeiro passo. Entre as orientações apresentadas, destaco a importância de reconhecer e nomear aquilo que estamos sentindo. Muitas vezes as pessoas não conseguem identificar suas emoções nem compreender a relação entre pensamentos, sentimentos e comportamentos. Além disso, é importante lembrar que as emoções possuem impactos biológicos reais no organismo. Quando aprendemos a reconhecer e compreender nossas emoções, desenvolvemos mais recursos para lidar com elas de maneira saudável.

(En) Cena: Se você pudesse olhar para toda essa trajetória, quais foram os aprendizados mais marcantes que moldaram a profissional que você é hoje?

Lilian Guimarães – Sem dúvida, os atendimentos foram as experiências que mais me transformaram. A pandemia foi um período especialmente marcante, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Vivenciar situações de perdas constantes, oferecer suporte às famílias e comunicar notícias difíceis deixou marcas profundas. Ao mesmo tempo, também foi um período que evidenciou a importância da Psicologia na vida das pessoas. Em diferentes contextos, percebi o quanto a escuta psicológica pode promover acolhimento, compreensão e transformação. Os momentos em que pacientes expressam gratidão, relatam melhora ou simplesmente reconhecem a importância daquele espaço de cuidado reforçam o sentido da profissão e fazem toda a caminhada valer a pena.

(En) Cena:  Para finalizar, que conselho você daria para estudantes de Psicologia e profissionais em início de carreira que desejam construir uma trajetória ética e significativa na profissão?

Lilian Guimarães – Meu principal conselho é que nunca parem de estudar. A Psicologia está em constante transformação, assim como a sociedade, as legislações e as demandas que chegam aos profissionais. Conhecer profundamente o Código de Ética, acompanhar as mudanças legislativas e compreender os limites técnicos da profissão são atitudes fundamentais para uma prática responsável. Também é importante compreender que a Psicologia está diretamente relacionada às transformações sociais e políticas. Não existe Psicologia sem pessoas, sem contexto e sem participação social. Um profissional eticamente preparado é respeitado em qualquer espaço de atuação, justamente porque conhece seus limites, suas responsabilidades e a importância do seu trabalho.

Ao longo desta entrevista, Lilian Guimarães compartilhou reflexões valiosas sobre a prática profissional, a ética, a formação continuada e os desafios enfrentados pela Psicologia nos diferentes contextos de atuação. Sua trajetória evidencia a importância de construir uma carreira pautada pelo compromisso com as pessoas, pelo aprimoramento constante e pela defesa das condições necessárias para um exercício profissional qualificado. As experiências relatadas reforçam o papel da Psicologia na promoção da saúde mental, no fortalecimento dos vínculos humanos e na transformação social. Agradecemos à Lilian pela disponibilidade, generosidade e contribuição ao compartilhar sua história, seus aprendizados e sua visão sobre a profissão. Que suas palavras possam inspirar estudantes e profissionais a construírem trajetórias éticas, responsáveis e comprometidas com o cuidado e a valorização da vida.

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