Em um cenário social frequentemente marcado por desigualdades de gênero e sobrecarga feminina, a construção e o fortalecimento de redes de apoio entre mulheres emergem como um pilar fundamental de resistência, cuidado e empoderamento. Longe de ser um fenômeno recente, a solidariedade feminina tem se manifestado historicamente, mas ganha novas configurações e reconhecimento teórico em conceitos como sororidade, dororidade e economia do cuidado, demonstrando como mulheres estão ativamente “salvando” umas às outras em diversas esferas da vida.
A sororidade, entendida como a solidariedade e o apoio mútuo entre mulheres, transcende a mera amizade para se configurar como um princípio ético e político que desmantela a lógica da rivalidade feminina imposta por estruturas patriarcais (LAGARDE, 2006). Ao fomentar espaços de escuta, empatia e reconhecimento de experiências compartilhadas, a sororidade permite a criação de redes que empoderam mulheres em suas jornadas pessoais, profissionais e emocionais, combatendo o isolamento e fortalecendo a autoestima (ORIENTE-ME, 2024).
No entanto, a sororidade, em sua concepção original, por vezes não abarca as especificidades das experiências de mulheres negras. É nesse contexto que surge o conceito de dororidade, cunhado pela escritora Vilma Piedade (2017). A dororidade reconhece que, para além da violência do machismo, mulheres negras enfrentam a dor adicional do racismo, o que gera uma experiência de sofrimento localizada e compartilhada. Esse conceito não anula a sororidade, mas dialoga com ela, ampliando a compreensão das redes de apoio ao incluir o recorte racial e aprofundar a solidariedade a partir da vivência da dor comum (PIEDADE, 2017; UOL, 2022).
As redes de apoio feminino são particularmente, visíveis e cruciais na economia do cuidado. Historicamente, o trabalho de cuidado – que inclui tarefas domésticas, criação de filhos e assistência a idosos – tem sido invisibilizado e recai majoritariamente sobre as mulheres (FEDERICI, 2019; HIRATA, 2022). Em comunidades periféricas e em contextos de vulnerabilidade, a ausência de políticas públicas eficazes para o cuidado é frequentemente suprida por redes informais de mulheres. Essas redes de reciprocidade permitem que mães e cuidadoras compartilhem responsabilidades, possibilitando que outras mulheres possam trabalhar, estudar ou ter momentos de descanso, configurando uma verdadeira estratégia de sobrevivência coletiva (UFMG, 2023).
O impacto dessas redes se estende à saúde mental das mulheres, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade, como o puerpério. Estudos indicam que mulheres com Depressão Pós-Parto (DPP) frequentemente relatam uma rede de apoio social e afetiva menos robusta (SILVA MOREIRA et al., 2025). Em contrapartida, a participação em grupos de mães, sejam eles presenciais ou virtuais, atua como um fator protetivo, oferecendo validação emocional, compartilhamento de saberes práticos e redução do isolamento, elementos cruciais para a recuperação e o bem-estar mental (MANENTE; RODRIGUES, 2016; USP, 2024).
Além do apoio emocional e prático, as redes femininas desempenham funções vitais de guia cognitivo, regulação social e acesso a novos contatos, conforme categorizado por Sluzki (1997). Em situações de violência conjugal, por exemplo, a rede de apoio social e afetiva pode ser um recurso determinante para o rompimento do ciclo de violência, oferecendo desde a companhia social até a ajuda material e o acesso a informações e serviços de proteção (ROCHA et al., 2019). A percepção de apoio é fundamental para que a rede seja eficaz, influenciando o significado e a qualidade do suporte recebido.
Em momentos de crise, como a pandemia de COVID-19, a força dessas redes foi ainda mais evidenciada. Com o isolamento social e a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado, muitas mulheres se viram em situações de extrema vulnerabilidade. As redes informais de mulheres, especialmente em periferias, foram essenciais para a distribuição de alimentos, informações de saúde e apoio mútuo, preenchendo lacunas deixadas pelo Estado e demonstrando a potência política do coletivo feminino em territórios precários (UFRN, 2022; UFU, 2023).
Em suma, a força da rede de apoio feminina é um testemunho da capacidade das mulheres de transformar desafios individuais em soluções coletivas. Seja através da sororidade que une em um plano mais amplo, da dororidade que reconhece e acolhe as dores específicas de mulheres negras, ou das redes informais de cuidado que sustentam a vida em contextos de precariedade, as mulheres estão constantemente se salvando umas às outras. Reconhecer e valorizar essas redes é fundamental não apenas para o bem-estar individual, mas para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, onde o cuidado seja uma responsabilidade compartilhada e não um fardo solitário.
Referências
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.
GUIGINSKI, Janaína; WAJNMAN, Simone. A penalidade pela maternidade: participação e qualidade da inserção no mercado de trabalho das mulheres com filhos. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 36, 2019.
HIRATA, Helena. O cuidado e suas formas de provisão. São Paulo: Editora Unesp, 2022.
LAGARDE, Marcela. La política de la sororidad. Cidade do México: Horas y Horas, 2006.
MANENTE, Milena Viana; RODRIGUES, Olga Maria Piazentin Rolim. Maternidade e trabalho: associação entre depressão pós-parto, apoio social e satisfação conjugal. Pensando Famílias, v. 20, n. 1, p. 89-103, 2016.
ORIENTE-ME. Sororidade: união e transformação feminina. 2024. Disponível em: https://orienteme.com.br/blog/sororidade/. Acesso em: 06 mar. 2026.
PIEDADE, Vilma. Dororidade. Rio de Janeiro: Nós, 2017.
ROCHA, Roberta Zanini da et al. Rede de apoio social e afetiva de mulheres que vivenciaram violência conjugal. Contextos Clínicos, v. 12, n. 1, p. 143-157, 2019.
SILVA MOREIRA, S. G. B. da; BARACHO, M. N. L.; LIMA, M. R. O impacto das redes de apoio no pós-parto: uma análise de sua influência na saúde mental da mulher. Revista Acadêmica de Ciências da Saúde, v. 2, n. 1, p. 1-10, 2025.
SLUZKI, Carlos E. A rede social na prática sistêmica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
UFU – Universidade Federal de Uberlândia. O impacto da pandemia COVID-19 em um grupo com mulheres que…. 2023. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/perspectivasempsicologia/article/view/65573. Acesso em: 06 mar. 2026.
UOL. Dororidade: conheça conceito feminista que une mulheres negras. Universa, 02 jul. 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/azmina/2022/07/02/o-que-e-dororidade-conheca-conceito-feminista-que-une-mulheres-negras.htm. Acesso em: 06 mar. 2026.
UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Metamorfoses” do trabalho formal e informal pós-pandemia no Brasil: uma análise das novas dinâmicas do mercado de trabalho. 2022. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstreams/52de9fb9-d810-4acd-9d3d-747fb9d0b2e1/download. Acesso em: 06 mar. 2026.
USP – Universidade de São Paulo. Grupos virtuais de mulheres-mães: Um fator protetivo para a saúde…. 2024.Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6143/tde-12122024-095518/?&lang=en. Acesso em: 06 mar. 2026.
