A nossa geração carrega uma sensação difícil de explicar: a de ter crescido rápido demais. Parece que saímos da infância direto para a vida adulta, como quem pula dentro de um ônibus em movimento, sem aviso, sem preparo, sem tempo para entender o caminho. Somos empurrados para o “agora”, enquanto, ao mesmo tempo, surge uma vontade silenciosa de voltar. É como se a pressa de seguir e o desejo de retornar convivessem dentro de nós.
A vida acelerada demais
Hoje, o tempo virou medida de valor. Ser produtivo virou identidade. Vivemos em um mundo que cobra resultado o tempo todo, e isso faz muita gente se sentir atrasada, insuficiente ou sobrecarregada. Não por acaso tantos jovens adultos se veem exaustos, enfrentando responsabilidades emocionais, financeiras e sociais para as quais nunca tiveram espaço de preparação. Crescer deixou de ser um caminho e virou um salto rápido, solitário e cansativo.
A vontade de retornar
Essa vontade de voltar não é exatamente saudade da infância, mas da leveza que ela representava. A leveza de poder errar. De existir sem cobrança. De respirar sem culpa. O que buscamos não é reviver o passado, mas reencontrar partes nossas que se perderam na pressa de corresponder às expectativas, tanto as dos outros quanto as nossas.
Entre expectativas e exaustões
Somos uma geração que aprendeu cedo demais que sucesso é obrigação e que falhar é proibido. Crescemos acreditando que tudo depende do nosso desempenho. Mas o corpo sente. A mente cansa. E descobrimos, na prática, que a maturidade emocional não acompanha a velocidade do mundo. Somos adultos nos papéis, mas ainda aprendizes nos afetos, nos limites, no cuidado consigo.
Um retorno que é ainda possível
O retorno que buscamos não é cronológico, é interno. Queremos voltar para:
- uma versão nossa sem medo constante de não dar conta;
- um cotidiano menos atravessado por cobranças;
- um ritmo que respeite o corpo;
- um cuidado que não seja visto como fraqueza.
E é justamente aqui que a Psicologia se torna um espaço de pausa, reflexão e reorganização. Um lugar onde é possível se reconstruir sem a pressão do mundo lá fora e sem a urgência de provar nada para ninguém. Talvez, crescer, hoje, seja isso: acolher a vontade de voltar para seguir adiante com mais verdade e menos peso.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Adolescent mental health. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health. Acesso em: 25 nov. 2025.
