A vulgarização da análise psicológica e a banalização dos laudos para cirurgia bariátrica: um alerta necessário

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Nos últimos anos, especialmente com a ampliação do acesso aos procedimentos bariátricos e a maior conscientização pública sobre a obesidade como condição de saúde, a demanda por laudos psicológicos para autorização cirúrgica cresceu significativamente. Contudo, junto com essa procura legítima, emergiu um fenômeno preocupante: a vulgarização da análise psicológica e a banalização do laudo como mero requisito burocrático. Em muitos contextos, o laudo deixou de ser compreendido como um instrumento técnico e ético e passou a ser tratado como uma simples “folha de liberação”.

Esse movimento revela uma distorção grave sobre o papel da Psicologia no processo cirúrgico. A avaliação psicológica não existe para impedir alguém de operar, muito menos para “agradar” planos de saúde ou cumprir checklists médicos. Seu objetivo central é compreender a história emocional, comportamental e social do paciente; identificar fatores de risco; avaliar condições de adesão ao pós-operatório; e garantir que a decisão pela cirurgia esteja embasada em consciência, responsabilidade e suporte adequado.

Entretanto, a crescente procura por avaliações rápidas, superficiais e, por vezes, encomendadas, vem esvaziando o sentido desse processo. Não são raros os relatos de pacientes que recebem laudos em poucos minutos, sem entrevista aprofundada, sem instrumentos psicológicos válidos e sem análise das condições subjetivas necessárias para lidar com as mudanças que a bariátrica exige. Laudos assim reduzem a prática psicológica a um ato performático e ferem diretamente princípios éticos fundamentais da profissão.

A cirurgia bariátrica não é um procedimento simples, nem reversível, e envolve transformações intensas na relação do sujeito com seu corpo, sua alimentação, suas emoções e seu modo de existir no mundo. Um laudo malfeito coloca o paciente em risco clínico, emocional e social. Quando o psicólogo se limita a assinar documentos sem análise, reforça a ideia errada de que o papel da Psicologia é burocrático — e não clínico, preventivo e protetivo.

Além disso, a banalização do laudo alimenta uma lógica perigosa de responsabilização individual: se o paciente não se adapta, não adere ao pós-operatório ou desenvolve sintomas depressivos e ansiosos após a cirurgia, atribui-se o fracasso a ele — quando, muitas vezes, a falha está justamente na ausência de uma avaliação bem conduzida.

É preciso resgatar a seriedade do processo avaliativo. A avaliação psicológica pré-bariátrica deve incluir entrevista clínica, histórico de saúde mental, análise da relação com a comida, investigação de expectativas, avaliação de suporte social, identificação de fatores emocionais e comportamentais que possam interferir no pós-operatório e discussão transparente sobre riscos, limites e responsabilidades. Essa é a essência da atuação ética e técnica.

O debate sobre a vulgarização dos laudos não é apenas uma crítica sobre práticas irresponsáveis, mas um convite para que profissionais e instituições reforcem a importância da Psicologia como ciência e profissão comprometida com o cuidado integral. Em um cenário em que a cirurgia bariátrica se torna mais acessível e, muitas vezes, romantizada, a avaliação psicológica é uma das principais ferramentas para garantir que o processo seja vivido de forma consciente, segura e sustentada.

Portanto, lutar contra a banalização desses documentos é, acima de tudo, lutar pela saúde mental dos pacientes e pela dignidade da prática psicológica.

Referências 

CFP – Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP n.º 009/2018: Diretrizes para a elaboração de documentos psicológicos. Brasília, 2018. SBCBM – Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Diretrizes de cuidado à pessoa candidata à cirurgia bariátrica. 2021.

CORDÁS, T. A.; APPOLINÁRIO, J. C. Transtornos Alimentares e Obesidade. Porto Alegre: Artmed, 2020.

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