Desenvolver na atualidade: o desafio do contexto

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No texto anterior, discutimos que o desenvolvimento humano não acontece em partes isoladas. O corpo, a cognição, as emoções e as relações se organizam de modo integrado, ainda que muitas vezes sejam estudados separadamente para fins de análise. Se essa compreensão é importante, ela também exige uma pergunta sobre o tempo em que a criança se desenvolve: que tipo de ambiente tem atravessado hoje a construção do corpo, do pensamento e dos vínculos? Na contemporaneidade, a tecnologia passou a compor de forma intensa o cotidiano infantil, não apenas como ferramenta de lazer ou aprendizagem, mas como parte do modo como as crianças brincam, esperam, comunicam-se, regulam emoções e entram em contato com o mundo. Por isso, discutir desenvolvimento infantil hoje exige olhar para a tecnologia não como um elemento externo à infância, mas como um contexto que participa da forma como essa infância é vivida. 

Esse debate precisa escapar de duas leituras simplificadoras: a de que a tecnologia é, por si só, prejudicial, e a de que todo acesso tecnológico representa avanço no desenvolvimento. O desenvolvimento tecnológico ampliou possibilidades de comunicação, acesso à informação, participação cultural e aprendizagem, mas também reorganizou o tempo da infância, muitas vezes tornando a experiência mais rápida, visual, fragmentada e imediata. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, ao investigar o uso da internet por crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, mostra que a participação online já é parte concreta da vida infantojuvenil brasileira, envolvendo oportunidades, riscos e diferentes formas de mediação familiar (Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2025). Assim, o ponto central não é perguntar apenas se a criança usa ou não usa tecnologia, mas em que idade usa, por quanto tempo, com que conteúdo, com qual mediação e, principalmente, quais experiências esse uso substitui ou empobrece. 

No desenvolvimento físico, os impactos da tecnologia aparecem menos como efeito direto da tela e mais como consequência da reorganização da rotina corporal da criança. Uma infância muito marcada por longos períodos sentados, por vídeos em sequência ou por jogos digitais pode reduzir o tempo destinado ao brincar corporal, à exploração do espaço, à coordenação motora, ao equilíbrio, à experimentação de força, ritmo e movimento. Estudos sobre tempo de tela na infância têm indicado associação entre uso excessivo de telas e fatores como sedentarismo, alterações na rotina de sono e menor envolvimento em atividades corporais, embora esses efeitos dependam do contexto familiar, da idade, do tempo de exposição e da presença de outras experiências no cotidiano (Nobre et al., 2021). Isso significa que o problema não está apenas na tela, mas no que deixa de acontecer quando o corpo perde espaço na experiência diária da criança. 

Na dimensão cognitiva, a tecnologia também produz efeitos ambivalentes. Por um lado, pode ampliar o acesso a informações, imagens, narrativas, jogos e recursos de aprendizagem. Por outro, quando ocupa grande parte da rotina infantil em formatos muito rápidos e pouco mediados, pode dificultar experiências fundamentais para a construção do pensamento, como a espera, a atenção sustentada, a escuta, a brincadeira simbólica, a resolução de problemas e a elaboração do que foi vivido. Piaget ajuda a compreender que a criança não aprende apenas porque recebe estímulos; ela precisa agir sobre o mundo, organizar experiências e transformar progressivamente sua forma de pensar (Piaget, 1976). Nesse sentido, o excesso de estímulos não equivale a mais desenvolvimento. Uma criança pode estar cercada de sons, imagens e informações e, ainda assim, ter pouco tempo para construir sentido sobre aquilo que vê, escuta e experimenta. 

No desenvolvimento psicossocial, a tecnologia interfere nas formas de vínculo, pertencimento, comparação e regulação emocional. As relações mediadas por telas podem aproximar pessoas, criar espaços de comunicação e ampliar repertórios culturais, mas também podem expor crianças e adolescentes a conteúdos inadequados, interações agressivas, consumo constante, comparação social e busca intensa por aprovação. A atualização do documento “#Menos Telas #Mais Saúde”, da Sociedade Brasileira de Pediatria, reforça a necessidade de participação ativa de famílias, escolas e profissionais na mediação do uso digital, especialmente porque crianças e adolescentes ainda estão em processo de construção de autocontrole, julgamento crítico e regulação emocional (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2024). 

Desenvolver-se na contemporaneidade, portanto, não significa viver fora da tecnologia, mas aprender a habitá-la sem perder experiências fundamentais: o corpo em movimento, o brincar, a conversa, o vínculo presencial, a frustração possível, o tempo de espera e a elaboração do que se vive. Ao longo desta série, defendemos que o desenvolvimento humano não pode ser compreendido como uma sequência rígida de etapas nem como a soma separada de áreas físicas, cognitivas e psicossociais. Ele acontece de modo integrado, nas relações entre sujeito, corpo, pensamento, emoção, cultura e ambiente. Por isso, pensar a infância hoje exige mais do que perguntar se há estímulos suficientes ou recursos disponíveis; exige perguntar que tipo de experiências estão sendo oferecidas, que vínculos estão sustentando essas experiências e que condições temos criado para que a criança possa, de fato, desenvolver-se em seu tempo sem ser reduzida às exigências dele. 

 

Referências:

NÚCLEO DE INFORMAÇÃO E COORDENAÇÃO DO PONTO BR. Pesquisa sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil: TIC Kids Online Brasil 2024. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2025.

NOBRE, Juliana Nogueira Pontes; SANTOS, Juliana Nunes; SANTOS, Lívia Rodrigues; GUEDES, Sabrina da Conceição; PEREIRA, Leiziane; COSTA, Josiane Martins; MORAIS, Rosane Luzia de Souza. Fatores determinantes no tempo de tela de crianças na primeira infância. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 3, p. 1127-1136, 2021. DOI: 10.1590/1413-81232021263.00602019.

PIAGET, Jean. A equilibração das estruturas cognitivas: problema central do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. #Menos Telas #Mais Saúde: atualização 2024. Manual de Orientação, n. 163. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2024. 

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. 

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Pedagoa, Neupsicopedagoga e acadêmica de Psicologia.

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