Vivemos em uma sociedade que insiste em nos vender a ideia de que estar bem significa estar feliz o tempo todo. Essa narrativa cria a falsa impressão de que qualquer emoção desconfortável, como tristeza, raiva, frustração, medo, é sinal de fracasso pessoal ou de que algo está fundamentalmente errado. No entanto, a psicologia moderna nos oferece uma visão muito mais humana e realista: estar bem não é a ausência de sofrimento, mas a capacidade de vivenciar esse sofrimento de maneira saudável.
É completamente possível estar bem e, ao mesmo tempo, sentir dor. Podemos chorar e ainda assim estar bem. Podemos experimentar a solidão e continuar emocionalmente estáveis. Podemos sentir raiva sem que isso represente algum desequilíbrio. Isso acontece porque o verdadeiro bem-estar está relacionado à flexibilidade emocional, a habilidade de reconhecer as próprias emoções, aceitá-las sem culpa e permitir que elas existam sem precisar reprimi-las ou mascará-las. Quando somos capazes de sentir profundamente sem nos afastarmos dos nossos valores e daquilo que é importante para nós, estamos exercitando saúde emocional.
O sinal de alerta não aparece quando sentimos tristeza ou angústia, mas quando essas emoções começam a comprometer significativamente o nosso funcionamento. É importante prestar atenção quando a intensidade ou a duração do sofrimento nos impede de realizar atividades básicas, quando utilizamos comportamentos destrutivos como forma de escapar da dor, quando o isolamento se torna a única alternativa ou quando surgem mudanças drásticas no sono, no apetite, na energia ou no humor. Pensamentos persistentes de desesperança, autodepreciação ou ideação suicida também são indicativos de que o apoio profissional é necessário.
Ao mesmo tempo, é importante compreender que nem sempre a presença de alegria significa bem-estar. Muitas pessoas utilizam a euforia, o excesso de produtividade ou o humor constante como defesa psicológica para evitar enfrentar feridas internas. Nesse caso, o sorriso é uma armadura e a alegria funciona como fuga, não como expressão genuína de equilíbrio. A pessoa parece bem, mas vive desconectada das próprias vulnerabilidades.
Por isso, estar bem não tem relação direta com estar feliz. Estar bem é ser inteiro. É aceitar nossa natureza emocional completa, com luzes e sombras, vitórias e perdas, força e fragilidade. É permitir que as emoções nos atravessem, mas não nos aprisionem. É reconhecer quando conseguimos caminhar sozinhos e quando precisamos de ajuda. É viver alinhado aos nossos valores, mesmo quando o caminho exige coragem para lidar com a dor.
O bem-estar emocional não é um destino, mas um processo contínuo de autocompreensão, aceitação e cuidado. Quando entendemos isso, libertamo-nos da pressão da felicidade perfeita e nos aproximamos de uma vida mais autêntica, humana e possível.
