Do verso ao vínculo: análise do poema Camões

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

-Luís Vaz de Camões

 No soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Luís Vaz de Camões nos convida a refletir sobre a essência transitória da vida. O poeta recorda que nada permanece imutável: sentimentos, esperanças e certezas se transformam, assim como o próprio modo de experimentar o tempo. O tempo, figurado pela natureza que “ora se cobre de neve, ora se reveste de verde”, revela a alternância inevitável entre começos e fins, alegrias e perdas. Assim, o poema evidencia tanto a beleza quanto a melancolia do viver: estamos sempre diante de um fluxo que nos escapa das mãos.

 Mais do que um lamento, o poema pode ser lido como um chamado à aceitação da vida em sua instabilidade, reconhecendo que é nesse movimento que também se constrói a experiência humana.

Vivemos em constante interação com contextos que se transformam, exigindo de nós enfrentamentos e adaptações. O tempo, que ora traz dor, ora saudade, mostra que nenhuma experiência é isolada: cada vivência ressoa em múltiplas dimensões e se entrelaça com o que já foi e com o que ainda pode vir.

A ideia de mudança também alcança a esfera da intersubjetividade. Nossas emoções, expectativas e lembranças não nascem de modo individual, mas se constituem no encontro com o outro, nos vínculos. O que se transforma em nós reflete igualmente o que se transforma ao redor, nas relações, nos papéis sociais, nos modos de existir em comunidade.

No entanto, é justamente nessa impermanência e imprevisibilidade que se abre espaço para novas possibilidades. Se tudo se move, também nós somos convidados a nos mover, a reinventar nossas formas de existir e de nos relacionar. A maior mudança, como Camões sugere, talvez seja perceber que até mesmo a mudança já não é a mesma, e isso nos desafia a viver com abertura, consciência e flexibilidade. 

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