A sexualidade é uma dimensão constitutiva do sujeito. Ela atravessa o corpo, o desejo, a linguagem, os vínculos e a própria construção de identidade. No entanto, apesar de sua centralidade na experiência humana, ainda ocupa um lugar delicado e, muitas vezes, silenciado dentro da clínica psicológica. O tema costuma chegar de forma indireta, enviesada, carregada de vergonha, mitos ou medos — e exige do profissional sensibilidade técnica, ética e teórica.
Na prática clínica, falar sobre sexualidade não se resume a discutir práticas sexuais, mas a compreender como o sujeito vive sua expressão sexual, seus limites, seus conflitos, seus traumas, sua história corporal e afetiva. Questões como autoestima, vivências traumáticas, padrões relacionais, educação sexual pobre, interdições familiares e até influências socioculturais emergem como elementos fundamentais na compreensão das queixas.
Muitos pacientes chegam com dificuldades explícitas, como anorgasmia, vaginismo, disfunção erétil, queda ou aumento do desejo. Outros trazem sofrimento emocional mais amplo: culpa ligada à sexualidade, medo do julgamento, ansiedade de performance, inseguranças corporais, dependência afetiva ou relacionamentos marcados por coerção e violência. Em todos esses casos, a sexualidade é o eixo que organiza o sofrimento, mesmo quando não aparece no primeiro plano do discurso.
O papel do psicólogo é criar um espaço seguro e ético para que essas questões sejam exploradas sem tabus e sem patologização indevida. A escuta clínica deve reconhecer a dimensão subjetiva da sexualidade, evitando reduções moralistas ou puramente biomédicas. A sexualidade, quando bem acolhida, torna-se terreno fértil para ressignificações, fortalecimento de vínculos, autonomia e autoconhecimento.
Além disso, é preciso compreender que trabalhar sexualidade na clínica também implica enfrentar silêncios sociais — a falta de educação sexual adequada, a cultura da vergonha, os discursos moralizantes, o machismo, a superexposição midiática e as expectativas irreais sobre corpos e desempenho. Esses elementos, muitas vezes invisíveis, organizam sintomas e produzem sofrimento.
Tratar de sexualidade na clínica é, portanto, tratar humanidade. É reconhecer que o sujeito não é só razão, mas corpo; não é só corpo, mas história; não é só desejo, mas também marcas, limites e construções coletivas. A sexualidade é um campo complexo, mas essencial, e sua abordagem responsável na clínica contribui para saúde emocional, relacional e subjetiva.
Referências
FOUCAULT, M. A História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 2019.
ROHDEN, F. Sexualidade, gênero e subjetividade. São Paulo: Unesp, 2018.
AYRES, L. Psicologia e sexualidade: clínica, corpo e subjetividade. Porto Alegre: Artmed, 2020.
