Em julho de 2021, ao comentar o caso de violência praticado pelo respondeu de forma direta: “Não é força de expressão, é xenofobia”. O episódio ultrapassou uma discussão entre celebridades porque expôs como expressões aparentemente banais podem carregar preconceitos históricos contra nordestinos e transformar uma origem regional em sinônimo de atraso, ignorância ou violência (Jovem Pan, 2021).
Esse tipo de associação não surgiu nas redes sociais. Albuquerque Júnior (2011) mostra que a imagem do Nordeste foi construída historicamente por meio de discursos que destacam seca, pobreza e atraso, enquanto o Sudeste era apresentado como espaço de modernidade e progresso. É nesse processo que palavras como “paraíba” e “baiano” passaram a ser usadas de forma pejorativa para nomear, de maneira genérica, trabalhadores nordestinos. Assim, o que parece apenas um hábito de linguagem reproduz uma antiga hierarquia regional.
A explicação de que determinada expressão foi usada “sem maldade” não elimina seu efeito. Bourdieu (1996) lembra que a linguagem não é neutra: ela carrega relações de poder e classificações sociais que se fortalecem quando são repetidas como naturais. Quando um termo regional é usado para caracterizar uma conduta negativa, não se ofende somente uma pessoa; transforma-se todo um grupo em alvo de inferiorização. A resposta de Juliette desloca o debate da intenção de quem fala para o impacto da fala sobre quem a recebe: pode ter sido apresentada como brincadeira, mas continua machucando e reproduzindo preconceito.
O caso também articulou xenofobia regional e machismo. Ao relacionar a violência contra a mulher a uma suposta característica dos “paraíbas”, a fala regionalizou um problema estrutural que atravessa todas as partes do país. Em vez de discutir a violência de gênero como questão nacional, atribuiu-se o comportamento do agressor a uma identidade coletiva. Juliette rompeu essa associação ao afirmar que não se devem tolerar atitudes machistas ou xenofóbicas “de lugar algum”.
Sua resposta ganhou força porque foi pronunciada por uma mulher paraibana com grande visibilidade pública. Para Hall (2006), as identidades culturais não são fixas: elas são construídas e discutidas socialmente. Quando pessoas nordestinas ocupam espaços de grande audiência e afirmam publicamente sua origem, desafiam representações antigas e ampliam a possibilidade de denunciar preconceitos antes tratados como normais. As redes sociais, nesse sentido, podem tanto espalhar discursos de ódio quanto criar condições para contestá-los.
No campo jurídico, práticas discriminatórias relacionadas à origem e à procedência podem alcançar normas de combate ao preconceito, a depender das circunstâncias do caso, entre elas a Lei nº 7.716/1989 (Brasil, 1989). Mais do que a classificação jurídica isolada, porém, o episódio revela uma disputa pelo direito de nomear a violência. Chamar a ofensa de “força de expressão” tenta preservá-la como costume; chamá-la de xenofobia rompe essa normalização.
A publicação analisada, portanto, não registra apenas um conflito pontual. Ela mostra um Brasil em que palavras continuam organizando desigualdades, mas também podem ser questionadas por quem historicamente foi silenciado. Reconhecer o preconceito presente na linguagem não significa proibir toda brincadeira: significa compreender que nenhuma expressão é inocente quando transforma a identidade de milhões de pessoas em insulto. O primeiro passo para mudar esse cenário é parar de justificar a ofensa e começar a escutar quem é atingido por ela.
Referências Bibliográficas
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1996.
BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jan. 1989.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
JOVEM PAN. “Não é força de expressão, é xenofobia”, diz Juliette após declaração de Antônia Fontenelle. Jovem Pan, 12 jul. 2021.
