Neurose, Psicose e Perversão: um olhar psicanalítico

Teoria freudiana tem enorme contribuição para o entendimento acerca da personalidade humana

Segundo a Psicanálise há três possibilidades de constituir-se enquanto sujeito. O sujeito começa a se moldar ao nascer, através das experiências afetivas e depois no entorno de sua vida e através destas relações. Desta forma, o sujeito é neurótico, perverso ou psicótico. Ou seja, de acordo com a Psicanálise existem três modos de o sujeito se constituir e se relacionar com o mundo (Outro).

A perversão acabou sendo atribuída a sexualidade ou ao campo da moral, caracterizada por uma série de desvios em relação àquilo que é esperado e considerado aceitável. Logo é importante diferenciar perversão de perversidade. O termo “perversidade” é compreendido como “caráter de crueldade e malignidade” (ZIMERMAN, 2004, p. 267). Já a ´´perversão“ está diretamente ligada a estrutura psíquica de alguém que se organiza, se defendendo de angústias persecutórias, depressivas e de desamparo. Uma pessoa pode ser perversa, mas necessariamente não ter atitudes de perversidade. Ou seja, a estrutura perversa, não aponta uma conduta e/ou um desvio de caráter, pois trata-se de um modo de estabelecimento de laço com o Outro.

No perverso, o sintoma não causa sofrimento, mas sim satisfação. O sintoma funciona como uma defesa, mas quando o sentimento de ameaça é grande, efeitos indesejados podem surgir. Outro ponto a destacar são os mecanismos de defesa do perverso: a idealização e a recusa. Zimerman (2004) declara que o sujeito perverso apresenta uma ´´compulsão a idealizar“ e impõe aos outros estas ilusões. Já a recusa significa que parte do Eu reconhece a realidade e a outra parte faz de conta que não existe.

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A perversão pode ser classificada como social ou sexual. Na social se enquadra a psicopatia, toxicomania e o alcoolismo. Na sexual se enquadram o exibicionismo, voyeurismo, sadismo, masoquismo, sadomasoquismo, fetichismo e pedofilia. Em relação as características, é comum se apresentarem como o melhor em tudo que fizer, assim como práticas de manipulação, sedução, mentira, chantagem e transgressão de normas e regras. Além de não apresentarem sentimento de culpa e se auto agredirem através do uso e abuso de substâncias.

Psicose – De acordo com Zimerman (2004), o termo ´´psicose“ não tem uma definição clara. Portanto, com base clínica, se divide em três categorias: psicoses (propriamente ditas); estados psicóticos; e condições psicóticas. A psicose é um processo de degradação do ego, causando sérios prejuízos de contato com a realidade. Um exemplo disso são as esquizofrenias. Já o estado psicótico se refere a preservações de áreas do ego que atendam duas condições. Como exemplo têm-se os borderlines, que apesar de apresentarem psicoses, têm maior adaptação ao mundo exterior, comparados aos esquizofrênicos. Por fim, as condições psicóticas se referem a sujeitos bem adaptados ao mundo exterior, porém, são portadores de condições psíquicas que os caracterizam como psicóticos.

De acordo com Freud (1924), na estrutura da psicose o núcleo estrutural central tem como prevalência o princípio do prazer, ao invés do princípio da realidade. Ou seja, há um distanciamento do ego e uma aproximação do id. Desta forma, há um distanciamento do ego/realidade, e em seguida, com uma tentativa de reparar o dano provocado pelo distanciamento, o sujeito entra em contato com a realidade, mas por meio do id. O que explica os principais sintomas, como: delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento desorganizado, podendo passar períodos muito agitados ou muito lentos; mudanças bruscas de humor ficando muito feliz num momento e depressivo logo a seguir, confusão mental; etc. (SOARES e MIRÂNDOLA, 1998).

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Neurose – É na neurose em que a maior parte da população se enquadra. Dessa forma, os neuróticos são sujeitos que apresentam algum grau de sofrimento ou adaptação, porém conservam uma razoável integração do self, apresenta, boa capacidade de juízo crítico e de adaptação à realidade, “não obstante que, em algum grau, sempre existe em todo neurótico uma parte psicótica da personalidade” (ZIRMERMAN, 2004, apud BION, 1957).

A neurose apresenta várias classificações, como por exemplo, a ´´neurose de angústia“, ´´neurose atual“, ´´fobia“, ´´obsessivo-compulsiva“, ´´histerias“, e ´´depressivas“. De acordo com Zimerman (2004), é difícil encontrar um neurótico puro, ou seja, alguém que os sintomas sejam apenas de uma neurose. Já que é comum a predominância de neuroses mistas.

O neurótico é considerado a parte ´´normal“ da sociedade. No entanto, dependendo do grau de angústia, obsessão, fobia etc., o sujeito pode não conseguir se ajustar ao meio, romper com a realidade, e estar tão adoecido quanto o sujeito portador de psicose e/ou psicopatia. Sendo assim, diante do que foi apresentado, existe alguém “normal”? Fica a reflexão.

Referências
Freud, S. (1996). A dissolução do complexo de Édipo. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 19, pp. 189-199). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1924)

MARTINHO, M. H. Perversão: um fazer gozar. Tese (Doutorado em Psicologia) – Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

Zimerman, D. (2004), Manual de Técnica Psicanalítica, Editora Artmed, Porto Alegre.

Fernanda Karoline Bonfim
Psicóloga egressa do Ceulp/Ulbra. Pós-graduanda em Terapia de casal: abordagem psicanalítica (Unyleya). Colaboradora do Portal (En)cena.