Os transtornos alimentares são influenciados pelas redes sociais?

Os fatores envolvidos nessa relação se associam com fenômenos comparação social,  idealização do corpo e difusão de informações falsas nas redes sociais 

Glaub Santos – glaubsantos@rede.ulbra.br 

Transtornos alimentares são condições psicológicas e físicas que afetam a relação de uma pessoa com a alimentação, resultando em comportamentos alimentares prejudiciais e disfuncionais. Esses transtornos são caracterizados por uma preocupação excessiva com o peso corporal, a imagem corporal e a alimentação. Eles podem ter graves consequências para a saúde física e emocional dos indivíduos afetados.

De acordo com a American Psychiatric Association (APA), os principais tipos de transtornos alimentares incluem a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP). A anorexia nervosa é caracterizada pela restrição alimentar extrema e uma percepção desassociada da realidade do peso corporal. A bulimia nervosa envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos auto induzidos ou uso abusivo de laxantes. O TCAP é marcado por episódios regulares de compulsão alimentar, sem os comportamentos compensatórios decorrentes da bulimia nervosa (APA, 2014). 

A relação entre transtornos alimentares e gênero é significativa, (mas não causal, devemos assinalar), como destacado por estudos. A prevalência é maior entre as mulheres, como mencionado por De Andrade (2006), que aponta que os transtornos alimentares são mais comuns em mulheres do que em homens. Além disso, no caso específico dos adolescentes, como ressalta Le Grange (2018), “os transtornos alimentares têm uma taxa de incidência alarmante, atingindo até 10% da população jovem”.

Conforme informações fornecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 4,7% da população do Brasil enfrenta transtornos alimentares. Há uma maior prevalência desse problema entre as mulheres, com uma proporção de sete a oito mulheres para cada homem diagnosticado com algum tipo de distúrbio alimentar. Entre os adolescentes, o índice é ainda maior, chegando a 10%. (GUIMARÃES, 2022)

Pessoas conectadas por aparelhos eletrônicos
Fonte: Imagem de Pikisuperstar no Freepik

As redes sociais são plataformas online que permitem que indivíduos interajam e compartilhem informações, ideias, interesses e conteúdo digital de várias formas. Elas têm se tornado uma parte integral da vida cotidiana e têm um impacto significativo nas comunicações, relações sociais, negócios e até mesmo na política.

Segundo Boyd e Ellison (2007), as redes sociais são definidas como serviços baseados na Internet que permitem que os indivíduos construam um perfil público ou semipúblico dentro de um sistema limitado, articulem uma lista de outros usuários com os quais compartilham uma conexão e visualizem e percorrem sua lista de conexões e aquelas feitas por outros no sistema. 

Assim as redes sociais têm recursos que permitem aos usuários criarem um perfil pessoal, adicionar amigos ou seguidores, compartilhar postagens, fotos, vídeos e participar de comunidades virtuais. As redes sociais mais populares são Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin, etc. Essas plataformas têm transformado a maneira como as pessoas se conectam, se comunicam e interagem umas com as outras. Elas permitem que indivíduos se conectem com amigos, familiares e colegas, mas também oferecem oportunidades para conhecer novas pessoas e estabelecer relacionamentos virtuais.

Além disso, as redes sociais têm se tornado ferramentas importantes para empresas e profissionais de marketing, blogueiros, permitindo que eles alcancem públicos-alvo específicos, promovam produtos e serviços e interajam diretamente com os consumidores.

Embora as redes sociais ofereçam diversos benefícios, também apresentam desafios relacionados à privacidade, segurança online, vício e impacto na saúde mental.
Fonte: Imagem de Upklyak Freepik

As redes sociais têm sido objeto de discussões e pesquisas relacionadas aos transtornos alimentares devido ao seu impacto na percepção de imagem corporal, comparação social e influência de padrões de beleza irrealistas.

Em estudos realizados fora explorado a relação entre o uso de redes sociais e transtornos alimentares, destacando algumas preocupações potenciais. Por exemplo, um estudo realizado por Fardouly et al. (2015) descobriu que o uso frequente de redes sociais estava associado a maior insatisfação com a imagem corporal e maior probabilidade de adotar comportamentos de controle alimentar inadequados.

Além disso, um estudo de Perloff et al. (2014) observou que o uso de redes sociais pode levar à comparação social, resultando em sentimentos negativos em relação à aparência e ao corpo. Essas comparações podem levar a uma maior pressão para se adequar a padrões de beleza inatingíveis, o que, por sua vez, pode contribuir para a ocorrência de transtornos alimentares.

Muitas vezes o corpo idealizado como sendo o “corpo perfeito”, que grande parte da população deseja ter  é, na verdade, uma meta inalcançável, e ao mesmo tempo, as pessoas que são tidas como modelos, podem não dispor de saúde para manter aquele corpo, uma vez que podem estar expostas à estilos de alimentação que vulnerabilizam a saúde física e mental. Por fim, é importante destacar que os fragmentos de realidade amplamente compartilhados e com alto alcance nas redes sociais, podem ser absolutamente dissonantes da realidade de quem está do outro lado da tela consumindo o conteúdo. 

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BOYD, Danah M.; ELLISON, Nicole B. Sites de redes sociais: definição, história e bolsa de estudos. Journal of Computer-mediated Communication , v. 13, n. 1, pág. 210-230, 2007. 

DE ANDRADE, Laura Helena SG; VIANA, Maria Carmen; SILVEIRA, Camila Magalhães. Epidemiologia dos transtornos psiquiátricos na mulher. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), v. 33, p. 43-54, 2006.

FARDOULY, Jasmine et al. Comparações sociais nas mídias sociais: o impacto do Facebook nas preocupações com a imagem corporal e no humor de mulheres jovens. Imagem corporal , v. 13, p. 38-45, 2015.

GUIMARÃES, Tays. Da anorexia à compulsão, por que a incidência de transtornos alimentares nas adolescentes nunca foi tão alta. OGlobo, 25 de março de 2022. Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/bem-estar/da-anorexia-compulsao-por-que-incidencia-de-transtornos-alimentares-nas-adolescentes-nunca-foi-tao-alta-25488072. Acesso em: 16 de maio de 2023.

LE GRANGE, D. (2018). Eating disorders in adolescence: Keys to diagnosis and treatment. The Medical Clinics, 102(5), 855-871.

PERLOFF, Richard M. Efeitos da mídia social nas preocupações com a imagem corporal de mulheres jovens: perspectivas teóricas e uma agenda para pesquisa. Papéis sexuais , v. 71, n. 11-12, p. 363-377, 2014.