Há despedidas que não nascem do fim do amor, mas da necessidade de não se perder por inteiro. Dizer adeus não apaga o vínculo. A vida continua acontecendo, os dias seguem, as ruas são atravessadas, mas tudo parece girar em torno de alguém que já não está. Como na canção de Cícero, quando ele canta: “Tudo gira em torno dela” (Cícero, Ensaio sobre Ela).
Depois da separação, instala-se um luto cotidiano. Não um luto que paralisa, mas um que acompanha cada gesto. Vive-se, trabalha-se, respira-se, enquanto a ausência ocupa o centro da experiência. A vida segue, mas em modo de ensaio. Nada parece definitivo, tudo soa provisório, como se ainda fosse uma tentativa. “Isso tudo é um ensaio sobre ela” — não como repetição vazia, mas como constatação de que o amor continua organizando o mundo interno.
Os objetos permanecem. Um anel guardado, flores que insistem em ficar, pequenos restos de uma história que já não acontece. Eles se tornam âncoras da memória, porque, enquanto a perda não encontra palavra, ela se aloja nas coisas. Como diz a música, “cada detalhe acaba falando dela”. O cotidiano vira linguagem da ausência.
O corpo lembra antes que a mente acompanhe. Um cheiro atravessa, uma música toca sem aviso, um nome aparece no pensamento. Há dias em que parece possível seguir. Em outros, tudo retorna. “E tudo lembra ela”. O apego não respeita a lógica do tempo; ele reaparece quando menos se espera, mostrando que amar deixa marcas que não se apagam por decisão.
Há reencontros que não reatam histórias. Apenas confirmam que o vínculo ainda existe, mesmo sem lugar. Um sorriso breve, um abraço contido, um silêncio que diz mais do que qualquer palavra. Amar, então, deixa de ser presença e passa a ser repetição. Um ensaio contínuo, nunca concluído.
Existe também a dor pelo que nunca aconteceu. A casa imaginada, as cenas simples do cotidiano, o futuro que parecia possível. Esse luto é discreto, mas profundo. Perde-se alguém e perde-se, junto, uma forma de existir. Como se o amanhã tivesse sido escrito, mas nunca vivido.
Costuma-se acreditar que quem vai embora não sente. A experiência mostra o contrário. Ir também dói. Às vezes, ir é o único gesto possível para não desaparecer dentro do amor. A vida segue, mesmo quando tudo ainda gira em torno dela. Seguir, aqui, não é superar. É continuar vivendo enquanto o afeto ainda organiza o mundo interno.
Com o tempo, o luto não desaparece. Ele se desloca. A ausência deixa de ocupar o centro absoluto e passa a coexistir com o movimento da vida. Ainda é sobre ela, mas já não é só sobre ela. O ensaio continua, até que, sem perceber, outros sentidos começam a se escrever.
