As interpretações bíblicas que fundamentam a condenação de identidades LGBTQIAPN+ no Cristianismo contemporâneo não surgiram de forma espontânea ou natural. Ao contrário, são resultado de um longo processo histórico marcado por traduções distorcidas, inserções anacrônicas e escolhas semânticas que modificaram o sentido de textos originalmente escritos em hebraico, aramaico e grego. Esse conjunto de alterações influenciou profundamente a moral sexual cristã, moldando crenças, discursos e práticas que ainda hoje fortalecem a rejeição da diversidade sexual em muitas tradições religiosas.
Um dos elementos centrais dessa discussão é a diferença entre exegese: interpretação bíblica contextual e fiel aos idiomas originais e eisegese: processo no qual o leitor projeta sobre o texto suas próprias crenças, preconceitos e interesses. Como explica Feitosa (2018), grande parte das condenações modernas à homossexualidade decorre de eisegeses acumuladas ao longo de séculos, muitas delas influenciadas pela cultura europeia medieval e moderna, e não pelo conteúdo original dos textos sagrados. Em passagens frequentemente utilizadas para justificar discursos de ódio, como Levítico, Romanos e narrativas sobre Sodoma, encontram-se camadas de tradução e interpretação que alteraram conceitos inteiros, transformando debates sobre idolatria, violência e práticas de dominação sexual em aparentes proibições da homoafetividade.
A história das traduções mostra que diversos termos foram introduzidos sem respaldo linguístico nas línguas originais da Bíblia. Em particular, Feitosa (2018) demonstra que versões modernas, como as King James e algumas traduções brasileiras, incorporaram palavras e sentidos que não existiam no manuscrito hebraico. O exemplo mais emblemático é a transformação do episódio de Sodoma em uma narrativa sobre “luxúria homossexual”. Nos textos originais, a palavra “sodomia” não aparece com esse sentido; o episódio descreve uma tentativa de violência sexual coletiva como expressão de humilhação e poder, e não uma condenação da orientação sexual entre pessoas adultas e consentidas. A associação entre Sodoma e homossexualidade é uma construção tardia, surgida de leituras moralizantes posteriores.
Outro caso relevante envolve o termo grego arsenokoitai, encontrado em listas morais do Novo Testamento. Embora algumas traduções modernas tenham escolhido termos como “homossexuais”, não há consenso linguístico ou histórico que justifique essa equivalência. Estudos linguísticos mostram que arsenokoitai provavelmente se refere a práticas de exploração sexual, prostituição cultual ou relações abusivas, e não à homoafetividade como identidade. A decisão de traduzir o termo como “homossexual” não apenas distorce o texto, mas também insere um conceito moderno, identidade sexual, em uma época em que tal noção sequer existia.
Essas distorções têm impacto profundo, pois passam a ser tratadas como verdades espirituais e, desde então, moldam práticas religiosas, relações familiares e políticas públicas. Quando líderes religiosos reproduzem traduções equivocadas, reforçam um imaginário social que associa a homoafetividade ao pecado, criando um ciclo de condenação que se perpetua por séculos. Em muitos casos, trata-se de decisões linguísticas carregadas de valores culturais específicos, especialmente daqueles que traduziam os textos, e não decisões inspiradas por conteúdos originais da Escritura.
Esse processo de construção da condenação revela como tradições religiosas podem ser influenciadas por interesses históricos e políticos. Tradutores europeus dos séculos XVI ao XIX operavam a partir de contextos marcados por moralidade sexual rígida, patriarcalismo e controle estatal sobre comportamentos considerados desviantes. Nesse cenário, palavras foram escolhidas de modo a reforçar normas sociais e justificar tratamentos repressivos. A moral sexual cristã contemporânea, portanto, não é uma herança direta dos primeiros textos bíblicos, mas resultado de sedimentações históricas acumuladas em diferentes culturas e períodos.
A consequência dessa construção teológica é sentida especialmente por pessoas LGBTQIAPN+, que crescem ouvindo que sua existência contraria a vontade divina. Essas narrativas, baseadas em traduções distorcidas, geram conflitos internos profundos, sentimentos de culpa espiritual e a falsa crença de que a diversidade sexual seria incompatível com a fé cristã. A religiosidade passa a se transformar em fonte de sofrimento, e muitos indivíduos vivem entre a tentativa de se manterem fiéis à tradição religiosa e o medo constante de estarem espiritualmente condenados.
Ao mesmo tempo, o reconhecimento dessas distorções históricas permite abrir caminhos para novas interpretações. Comunidades inclusivas, estudiosos progressistas e líderes religiosos afirmativos têm promovido revisões rigorosas das traduções, resgatando o contexto histórico e linguístico original das passagens bíblicas. Esse processo não busca alterar a fé cristã, mas restaurar sua integridade, desfazendo equívocos que o tempo cristalizou como dogma. Ao compreender que a condenação da diversidade sexual surgiu de traduções falhas e leituras enviesadas, torna-se possível reconstruir uma relação saudável entre fé e identidade, devolvendo às pessoas LGBTQIAPN+ o direito de viver sua espiritualidade sem carregar culpas indevidas.
Assim, a crítica às traduções bíblicas não é um ataque à fé, mas uma forma de restituir sua autenticidade. Questionar distorções históricas é recuperar a profundidade ética e espiritual dos textos sagrados, permitindo que a fé cristã seja vivida de maneira integral e digna, sem exclusões ou violências que jamais pertenceram ao propósito original das Escrituras.
REFERÊNCIAS
FEITOSA, Alexandre. Quem está manipulando a Bíblia? 2018.
CAIRNS, Earle E. Cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2008.
