Uma reflexão psicológica sobre Construção, de Chico Buarque

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Grande parte da vida adulta acontece em ciclos, repetições. Acordar, trabalhar, cumprir horários, voltar para casa, dormir. Em muitas ocasiões, esse ciclo não é vivido como escolha, mas como necessidade. É nesse ponto que o cotidiano deixa de ser apenas cansativo e passa a ser psicologicamente anestesiante. Construção, de Chico Buarque, fala exatamente desse tipo de existência: quando o ser humano vai sendo reduzido à função que exerce, e não à vida que sente.

Lançada em 1971, a música narra o dia de um trabalhador comum. Não um herói, nem um vilão, mas apenas alguém que cumpre sua rotina. A força da canção não está em acontecimentos extraordinários, mas na forma como o ordinário é retratado. Tudo acontece como deveria acontecer. E, justamente por isso, algo soa profundamente errado.

Do ponto de vista da Psicologia, a música expõe um processo silencioso de despersonalização. O indivíduo existe, mas sua experiência interna não aparece. Ele ama, trabalha, cai, morre, mas nunca fala. Sua subjetividade é substituída por ações, horários e funções. Ele não é ouvido; ele é descrito.

A repetição estrutural da música reforça essa sensação. As frases se organizam novamente, mas dizem quase a mesma coisa. Para a Psicologia, isso se aproxima da sensação de viver no automático, os dias mudam, mas a experiência interna permanece a mesma. O tempo passa, mas não se transforma em sentido.

Há também na música, uma crítica profunda à maneira como a sociedade lida com o sofrimento. A morte do trabalhador não é tratada como uma tragédia humana, mas como um incômodo urbano, algo que atrapalha o fluxo da cidade. O indivíduo desaparece, enquanto as engrenagens continuam funcionando.

Esse tipo de narrativa toca em uma questão central da psicologia contemporânea: o que acontece com o sujeito quando ele deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser visto apenas como peça funcional? A resposta não vem em forma de conceito, mas de sensação. Um desconforto crescente. Uma tristeza sem nome.

A música Construção não acusa diretamente, não moraliza, não oferece soluções. Ela apenas mostra. E, ao mostrar, obriga o ouvinte a se perguntar até que ponto também participa desse mecanismo, seja como quem vive a rotina sem questionar, seja como quem se acostuma a não ver o outro.

No fim, a música não fala apenas sobre um trabalhador que cai de um prédio. Fala sobre pequenas quedas diárias: a perda de sentido, a falta de escuta, a normalização do esvaziamento humano. Construção nos confronta com uma pergunta incômoda, mas necessária: em que momento a vida deixou de ser vivida e passou apenas a ser executada?

Ficha técnica

  • Música: Construção
    Artista: Chico Buarque
  • Álbum: Construção
  • Ano de lançamento: 1971
  • Gênero: MPB

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