O TDAH em adultos e o impacto do diagnóstico tardio: reflexões sobre identidade, trabalho e saúde mental

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O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) foi, por décadas, compreendido quase exclusivamente como um transtorno do neurodesenvolvimento restrito à infância. No entanto, a contemporaneidade assiste a um fenômeno clínico marcante: o aumento exponencial de diagnósticos em adultos que atravessaram décadas sem o suporte adequado. Este cenário não reflete apenas um aumento na conscientização diagnóstica, mas revela uma geração de indivíduos que, sob o peso de um funcionamento neuroatípico não identificado, internalizaram rótulos de “preguiça”, “incapacidade” ou “falta de caráter”. Para a psicologia, o diagnóstico tardio em adultos não é apenas a atribuição de um CID (Classificação Internacional de Doenças), mas um processo profundo de ressignificação biográfica. A fundamentação teórica de Russell Barkley (2020), uma das maiores autoridades no tema, postula que o TDAH é, essencialmente, um transtorno da autorregulação e das funções executivas. Quando essas dificuldades não são compreendidas como um fenômeno neurobiológico, o sujeito desenvolve mecanismos de compensação exaustivos, o chamado masking, que frequentemente culminam em comorbidades como depressão e ansiedade generalizada.

Sob a ótica da psicologia clínica e existencial, receber o diagnóstico de TDAH na vida adulta provoca uma dualidade de sentimentos: o alívio de finalmente nomear o invisível e o luto pelas perdas acumuladas ao longo dos anos. A reflexão psicológica aqui deve focar na desconstrução da culpa. De acordo com a teoria da subjetividade de González Rey (2017), os sentidos subjetivos que o indivíduo atribui às suas dificuldades moldam sua personalidade. No caso do adulto não diagnosticado, esses sentidos são frequentemente carregados de autocrítica destrutiva. O ambiente de trabalho moderno, caracterizado pela hiperestimulação, cobrança por multitarefa e notificações ininterruptas, atua como um catalisador de sintomas. Para o neurotípico, o excesso de informação é um desafio; para o adulto com TDAH, é um fator de desorganização psíquica que pode levar ao esgotamento profissional precoce. O diagnóstico, portanto, serve como a chave para a reconstrução de um autoconceito mais gentil e funcional, permitindo que o indivíduo pare de lutar contra o próprio cérebro e comece a trabalhar a favor de suas potências.

As intervenções para o TDAH em adultos devem transcender a farmacologia, focando na reabilitação neuropsicológica e na psicoterapia de base cognitivo-comportamental ou humanista. É necessário auxiliar o paciente a organizar seu ambiente e suas rotinas, mas, acima de tudo, a processar o impacto emocional de ter vivido sob uma lente de inadequação. Conclui-se que o diagnóstico tardio de TDAH é um ato de justiça terapêutica. Ele permite que o sujeito recupere sua agência e desenvolva estratégias adaptativas que respeitem sua neurodiversidade. O papel do psicólogo no EnCena, diante deste tema, é o de desmistificar o transtorno e promover uma cultura de saúde mental que acolha a diversidade dos funcionamentos cognitivos, entendendo que a padronização do comportamento humano é uma forma de violência simbólica que o diagnóstico correto pode ajudar a mitigar.

Referências

BARKLEY, R. A. TDAH em adultos: o que todos precisam saber. Porto Alegre: Artmed, 2020.

GONZÁLEZ REY, F. Subjetividade: teoria, epistemologia e método. Campinas: Alínea, 2017.

MATTOS, P. No mundo da lua: perguntas e respostas sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos. Rio de Janeiro: ABDA, 2015.

SAPORITO, A. TDAH na vida adulta: diagnóstico, manejo e o impacto na autoestima. Revista Brasileira de Psicoterapia, v. 22, n. 1, 2021.

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