Estou vivenciando um processo de luto no qual gostaria de compartilhar as respostas encontradas, objeto do aprofundamento neste contexto, buscando saciar meu questionamento interior…e mergulhando na literatura, li o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, escrito pela médica Ana Claudia Quintana Arantes, é uma mistura de conceitos relacionados a cuidados paliativos e reflexões sobre a vida diante da perspectiva da morte.
Para algumas pessoas pode ser estranho o interesse em um livro sobre a morte. A maioria de nós não gosta de pensar nela, a não ser quando temos de confrontá-la, afinal, ela será uma realidade para todos nós. Tenho meditado sobre a vida tendo a morte sob os holofotes. A consciência da finitude é angustiante, mas nos oferece uma perspectiva mais apurada sobre como deveríamos viver esta vida.
Além da escritora da obra, seria importante que mais pessoas lessem este livro, principalmente aqueles que atuam com paciente hospitalizados em estado grave, para que procurassem proporcionar a kalotanásia, a bela morte. Meu companheiro de 25 anos sempre falava sobre isso (sem usar esse termo, é claro). Ele pedia a Deus uma boa morte. Infelizmente, não tenho certeza de que ele a teve.
Alguns termos usados por Ana Claudia vão demorar para sair da minha mente. Ela fala sobre “zumbis existenciais”, pessoas que vivem sem viverem, que estão ausentes de suas próprias vidas, sem conexão consigo e com os outros; para essas pessoas, só falta morrer fisicamente. “Muita gente não está viva de fato, mesmo com o corpo funcionando bem. É uma coisa terrível. Pessoas que enterraram suas dimensões emocional, familiar, social e espiritual.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes.
Ana Claudia também usa a metáfora do muro para falar sobre a morte (imagem emprestada de William Breitbart, psiquiatra). De acordo com a ilustração, estamos vivendo, caminhando pelo mundo até que nos deparamos com um muro. Ao chegarmos ali, não há como voltar ou escalar. Só podemos olhar para trás. “O que norteia nosso caminho e nos impele a fazer boas escolhas é a certeza de que, quaisquer que sejam nossos caminhos e escolhas, o muro nos aguarda.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes.
Ao abordar a dimensão espiritual diante da morte, Ana Claudia é feliz em chamar a atenção para a diferença entre acreditar e ter fé. Quando se acredita, existe um tipo de relação de troca em que a frustração de não receber a cura ou mais vida faz a pessoas desmoronar quando a morte se aproxima. Quando se tem fé, o moribundo se entrega aos cuidados de Deus, “aquele que pode nos levar ao nosso destino. (…) Ao verdadeiro sentido de dizer: ‘Seja feita a vossa vontade.”.
Na parte final do livro, Ana Claudia retoma e comenta os cinco tipos de arrependimento mais comuns entre pacientes no final da vida, originalmente citados pela enfermeira Bronnie Ware. Essa é uma das partes mais propícias à reflexão sobre a vida. São cinco capítulos muito enriquecedores. “Dizemos que depois do trabalho vamos viver, mas esquecemos que a opção ‘vida’ não é um botão ‘on/off’ que a gente liga e desliga conforme o clima ou o prazer de viver.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes.
Para a Psicologia, esse livro é uma mina de ouro, pois ele toca em feridas que a nossa cultura tenta esconder: o luto, a finitude e a busca por sentido. Podemos enfatizar os seguintes pilares:
1. O Tabu da Morte e a Angústia Existencial
Pela perspectiva da psicologia existencial, a morte é o maior gerador de angústia. A Dra. Ana Claudia propõe que a negação da morte adoece a psique. Ao evitarmos falar da morte, evitamos viver com autenticidade. A psicologia vê nessa “fuga” um terreno fértil para transtornos de ansiedade e depressão, onde a pessoa vive uma vida “automática” para não enfrentar o vazio.
2. A Teoria das Perdas e o Luto Antecipatório
A autora fala muito sobre o tempo que resta. Na psicologia, trabalhamos o Luto Antecipatório — o processo de sofrimento que ocorre antes mesmo da perda real (em casos de doenças terminais). O livro sugere que esse tempo pode ser usado para “fechar ciclos”. Psicologicamente, isso ajuda na elaboração de um luto menos traumático para quem fica, pois permite o perdão e a expressão de afetos que seriam calados.
3. Logoterapia: O Sentido da Vida
Há uma conexão direta com Viktor Frankl. O título já entrega: se a morte dá valor à vida, o sofrimento e a finitude são fontes de sentido. A psicologia foca aqui na transição do “por que eu?” (vitimização) para o “para quê?” (propósito). A Dra. Ana Claudia mostra que o paciente paliativo ainda pode encontrar sentido em pequenas conexões, o que é fundamental para a saúde mental no fim da vida.
4. As Dimensões do Sofrimento (Dor Total)
A psicologia contribui muito no conceito de Dor Total (física, emocional, social e espiritual) citado no livro. O psicólogo atua onde a morfina não chega. O livro ressalta que a dor emocional (culpa, medo, solidão) pode amplificar a dor física. Uma análise psicológica deve destacar como o acolhimento dessas dores invisíveis é tão vital quanto o cuidado médico.
5. Empatia e a Escuta Ativa
A autora critica a “surdez” dos profissionais de saúde. Para a psicologia humanista (como a de Carl Rogers), a escuta empática é a ferramenta de cura. Analise como o livro defende que “estar presente” é uma intervenção terapêutica. A validação do sentimento do paciente é o que permite que ele morra (e viva) em paz.
Aprofundando em outros autores podemos destacar alguns outros específicos da psicologia (como Freud, Jung ou Frankl) que tratavam melhor sua análise. Portanto, Viktor Frankl e a Logoterapia (O Sentido da Vida), Este é o autor que mais se harmoniza com o livro. Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, argumenta que o ser humano é movido pela vontade de sentido.
Já em conexão com o livro: A Dra. Ana Claudia mostra que pacientes em cuidados paliativos não morrem de “tristeza”, mas sim de falta de propósito ou de pendências emocionais. Você pode argumentar que o “dia que vale a pena viver” é aquele em que o sujeito encontra um sentido na finitude. Mesmo na dor extrema, se houver um “para quem” ou um “porquê” (um neto que vai nascer, uma carta de perdão a escrever), a psique encontra resiliência. “Quem tem um ‘porquê’ para viver suporta quase qualquer ‘como’.”
Sigmund Freud escreve em seu ensaio “Sobre a Transitoriedade” (1915), que o valor das coisas que acabam. Freud caminha com um amigo que não consegue apreciar a beleza da natureza porque sabe que ela murchará no inverno. Freud rebate dizendo que a limitação da possibilidade de prazer aumenta o seu valor e que a negação da morte (mecanismo de defesa) impede o indivíduo de investir sua libido (energia vital) no presente. A Dra. Ana Claudia propõe que aceitar a transitoriedade é o que nos permite “desfrutar do jardim” enquanto ele existe.
Para Irvin Yalom na Psicoterapia Existencial, sendo ele talvez o maior psicólogo vivo a tratar da “ansiedade da morte”. Ele propõe que a morte é uma “experiência de despertar”.Yalom afirma que, embora a morte física nos destrua, a ideia da morte pode nos salvar.
Ele defende o conceito de “Efeito Ondulação” (Rippling), onde a ideia de que deixamos partes de nós mesmos (ideias, afetos, exemplos) nos outros. A Dra. Ana Claudia foca muito no legado emocional e no cuidado com quem fica, o que ajuda a mitigar a angústia da aniquilação total do “eu”.
1. O Conceito Central: A Morte como Professora
A tese principal da autora, que é médica geriatra e especialista em Cuidados Paliativos, é que a consciência da nossa finitude é o que dá valor ao tempo. Se fôssemos imortais, poderíamos adiar tudo para sempre. Como vamos morrer, cada escolha e cada momento ganham um peso real.
2. Cuidados Paliativos vs. Eutanásia
A Dra. Ana Claudia desmistifica os cuidados paliativos. Ela explica que não é sobre “desistir” do paciente, mas sim cuidar do sofrimento (físico, emocional, social e espiritual) quando a cura não é mais possível. O foco é a qualidade de vida e a dignidade até o último suspiro, permitindo que o paciente seja protagonista da sua própria história.
3. A Arte de Perder
O livro aborda que passamos a vida tentando “ganhar”, mas raramente aprendemos a perder. Ela argumenta que saber perder é a arte de quem conseguiu viver plenamente o que ganhou. O sofrimento muitas vezes vem da negação da perda e da resistência em aceitar que ciclos terminam.
4. Os Maiores Arrependimentos
Baseando-se no trabalho de Bronnie Ware (enfermeira de cuidados paliativos), a autora reflete sobre o que as pessoas mais lamentam no leito de morte:
- Não ter tido a coragem de viver uma vida fiel a si mesmas (e não a dos outros).
- Ter trabalhado demais.
- Não ter tido coragem de expressar seus sentimentos.
- Não ter mantido contato com os amigos.
- Não ter se permitido ser mais feliz.
5. “O Tempo não é Dinheiro, o Tempo é Vida”
Ela critica a correria moderna onde “estamos” nos lugares mas não “estamos presentes”. A autora usa a metáfora do metrô: muitas pessoas vivem de olhos vendados, sem saber onde vão descer e sem aproveitar a viagem.
Podemos resumir que a morte não deve ser um tabu a ser evitado, mas um horizonte que nos impulsiona a construir uma vida da qual não precisemos nos arrepender no final. É uma reflexão sobre a necessidade de viver de forma autêntica e corajosa, tornando a jornada até a morte uma experiência significativa e plena.
Importante entendermos que há Vida antes da Morte. O livro foca mais na qualidade da vida do que na morte em si, incentivando o cultivo de relações saudáveis e o cuidado pessoal. Necessário estamos atento a gestão do nosso tempo.
O tempo é o bem mais precioso e não renovável; desperdiçá-lo com coisas irrelevantes é o maior risco, não a morte.
Dentre os arrependimentos possíveis, a autora aborda alguns bem comuns de pacientes terminais, como trabalhar excessivamente, não expressar sentimentos, não dedicar tempo aos amigos e não se permitir ser feliz.
A autora reforça sempre sobre os cuidados paliativos. Definidos como amor em ação, visam garantir conforto e dignidade, aliviando o sofrimento físico, emocional, social e espiritual. Por fim, nos orienta a viver o presente. A obra alerta contra a espera por um futuro ideal para ser feliz, destacando que a rotina muitas vezes impede a valorização das pequenas coisas.
Conclusão
A partir da análise psicológica da obra “A morte é um dia que vale a pena viver”, compreende-se que o luto e a consciência da finitude não devem ser encarados como estados patológicos, mas como processos inerentes à condição humana que convocam o sujeito à autenticidade. Sob a ótica da Psicologia Existencial e da Logoterapia, a morte deixa de ser apenas o fim biológico para se tornar uma “professora” que questiona o sentido da jornada percorrida.
O sofrimento, quando iluminado pelos cuidados paliativos e pela escuta empática, permite a transição da dor paralisante para a construção de um legado emocional. Ao confrontar o “muro” mencionado por Ana Claudia Quintana Arantes, o indivíduo é provocado a abandonar a condição de “zumbi existencial” e a investir sua energia vital no que realmente importa: os afetos, a reconciliação e a presença plena. Conclui-se, portanto, que a saúde psicológica no final da vida — ou diante da perda — reside na capacidade de encontrar um “porquê” que sustente o “como”, transformando o tempo restante não em uma contagem regressiva, mas em uma experiência de profunda dignidade e significado.
Referências Bibliográficas
ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. São Paulo: Vozes, 2015.
FREUD, Sigmund. Sobre a transitoriedade (1915). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
WARE, Bronnie. Antes de partir: os cinco principais arrependimentos antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.
YALOM, Irvin D. Psicoterapia Existencial. Belo Horizonte: Artesã Editora, 2021.
YALOM, Irvin D. Olhar para o sol: como enfrentar o terror da morte. Rio de Janeiro: Ediouro, 2008.
