Este relato pertence a Luana Rodrigues Reis Lim Yan e apresenta sua experiência desde os primeiros questionamentos até o processo de compreensão e aceitação do diagnóstico de autismo. Para preservar a privacidade das pessoas envolvidas, os nomes da filha, de familiares e de profissionais mencionados foram omitidos. A captação e a organização do relato foram realizadas por Mariah, acadêmica de Psicologia e estagiária do Portal (En)Cena, preservando a essência, a perspectiva e os sentidos atribuídos por Luana à própria experiência.
Em 2019, nasceu minha primeira filha. Desde o primeiro momento, ela foi meu grude, meu primeiro grande amor. Eu tinha 22 anos e estava vivendo a maternidade pela primeira vez, descobrindo tudo junto com ela.
Quando ela tinha aproximadamente um ano e meio, uma pessoa da família esteve em nossa casa e comentou que achava que ela poderia ser autista, porque, quando era chamada, muitas vezes não olhava. Naquele momento, meu mundo desabou. Senti raiva, fiquei muito assustada e não conseguia aceitar aquela possibilidade. Dentro da minha cabeça, aquilo não fazia sentido. Eu pensava: “Não pode ser com a minha filha”. Hoje consigo olhar para aquele momento de outra forma e entendo que aquela pessoa não falou aquilo por mal. Naquele dia, porém, eu só conseguia sentir medo.
Levei minha filha para Goiânia, onde ela foi avaliada por um neurologista. Depois da consulta, ele disse que estava tudo bem e voltamos para casa. Mesmo assim, algo dentro de mim dizia que eu precisava continuar investigando. Por iniciativa própria, procurei a fonoaudiologia para minha filha. Depois de algumas sessões, a fonoaudióloga conversou comigo e disse que percebia nela algumas características compatíveis com o autismo.
Eu chorei muito.
Naquela época, eu já estava grávida da minha segunda filha, com quatro meses de gestação. Enquanto tentava compreender o que estava acontecendo com minha primeira filha, também carregava o medo de que a segunda pudesse nascer com alguma condição semelhante. O medo começou a acompanhar muitos dos meus pensamentos sobre a gravidez e sobre o futuro das minhas filhas.
Voltamos para Goiânia para uma nova consulta. Foi uma experiência muito difícil para mim. Ouvi coisas que me deixaram ainda mais angustiada e passei praticamente toda a gestação preocupada, imaginando como seria o futuro das minhas duas filhas.
Depois disso, começamos as terapias. No início, eu não sabia exatamente o que procurar, onde levar minha filha, em quem confiar ou qual caminho seguir. Tudo aquilo era completamente novo para mim. Eu precisava tomar decisões importantes, mas ainda estava tentando entender o que estava acontecendo.
Também tivemos experiências que não foram boas. Por isso, retirei minha filha daquele lugar. Foi mais uma fase de muita insegurança, porque eu não sabia para onde ir depois nem como encontrar um atendimento em que pudesse confiar.
Foi então que coloquei tudo nas mãos de Deus e pedi que Ele nos ajudasse.
Acredito que Ele colocou pessoas muito importantes em nosso caminho.
Conhecemos uma profissional que apareceu em um momento em que eu estava desesperada. Mais tarde, conhecemos também uma acompanhante terapêutica que se tornou muito importante na nossa história. Ela é uma profissional muito dedicada, responsável e admirável. Fez, e continua fazendo parte da vida da minha filha, e sou muito grata por tudo o que representa nesse processo.
Quando minha segunda filha nasceu, passei a observar tudo com muito mais atenção. Depois de tudo o que havia vivido, qualquer comportamento diferente despertava em mim algum medo. Eu temia passar novamente por um caminho de dúvidas, consultas e incertezas. Com o tempo, porém, fui entendendo que cada criança tem seu jeito, seu tempo e sua própria história.
Minha segunda filha veio para somar ainda mais à nossa família. As duas são muito unidas, grudadas e têm uma relação muito bonita. Ela também ajuda muito a irmã, principalmente na comunicação e em vários momentos da rotina. A convivência entre as duas me ensinou que o desenvolvimento de cada criança acontece de maneira singular e que não é possível compreender uma filha apenas a partir dos medos da mãe.
Meu processo de aceitação também foi longo. Precisei aprender que aceitar não significa deixar de ter medo, nem achar que tudo é fácil. Para mim, aceitar significa compreender a realidade, conhecer minha filha profundamente e aprender a caminhar junto com ela. Ser mãe atípica não é fácil.
Há dias em que não sei o que fazer. Existem momentos de desespero, choro, preocupação com o futuro e medo de não estar fazendo o suficiente. Também existem momentos em que me sinto cansada. Às vezes, tenho vontade de simplesmente parar e respirar.
Mas, ao mesmo tempo, essa experiência me ensinou muito. Aprendi a observar mais, a ter paciência e a respeitar o tempo da minha filha. Aprendi, principalmente, a enxergá-la antes de enxergar o diagnóstico. Ela não é apenas uma criança autista. Ela é minha filha: uma menina com personalidade, sentimentos, vontades, sonhos e muitas capacidades.
Hoje tento ser uma mãe mais tranquila e viver um dia de cada vez. Ainda tenho medos, mas já não sou aquela mãe desesperada que não sabia para onde ir. Aprendi que não preciso ter todas as respostas. Preciso estar presente, procurar ajuda quando necessário, confiar nos profissionais que caminham conosco e fazer o melhor que posso.
Também compreendi que cuidar de uma criança exige uma rede de apoio. Essa rede é formada por profissionais, familiares e pessoas que sabem acolher sem julgar. Quando encontramos pessoas comprometidas e sensíveis, o caminho continua sendo desafiador, mas deixa de ser percorrido completamente sozinha.
Acima de tudo, continuo colocando a vida da minha filha nas mãos de Deus. Peço todos os dias que Ele abençoe sua caminhada, seu desenvolvimento e suas conquistas, e que coloque sempre pessoas boas em seu caminho.
Quando olho para trás, vejo o quanto nós duas crescemos. Eu aprendi a ser mãe junto com ela.
Talvez essa seja uma das maiores coisas que a maternidade atípica me ensinou: nem sempre conseguimos escolher o caminho, mas podemos escolher como vamos caminhar por ele.
E eu escolho caminhar ao lado dela, com amor, fé, coragem e esperança.
