O meu pré-operatório começou oficialmente em Abril, mas eu sinto que a verdadeira mudança começou no momento em que ouvi do médico: “você tem indicação e te oriento à fazer a cirurgia por questões de saúde”. Mas, mesmo sabendo que já vinha enfrentando dificuldades há algum tempo, ouvir essa frase com clareza me colocou diante de uma realidade que eu evitava encarar: meu corpo já estava me pedindo ajuda fazia tempo demais.
Recebi o diagnóstico de Obesidade Grau II, junto com o levantamento das comorbidades que eu já conhecia, mas não queria admitir o quanto estavam me afetando. Para completar, descobri a hérnia hiatal, que fazia com que comer — algo tão básico e vital — se tornasse uma experiência sempre desconfortável. Eu me alimentava pouco, mas continuava ganhando peso, e isso criava uma sensação constante de “tem alguma coisa errada”, de que algo não fazia sentido. Quando a hérnia foi identificada, finalmente consegui compreender por que meu corpo parecia reagir de um jeito tão desordenado. Ele estava fora de ordem.
A partir daí, o processo virou uma corrida. Por conta do plano de saúde e da rotina do último semestre da faculdade, eu precisava fazer tudo rápido: todos os exames, todos os laudos, todas as avaliações. Tracei uma meta quase rígida: finalizar tudo até meados de julho para conseguir operar ainda naquele mês e passar agosto inteiro afastada, sem comprometer o estágio ou minha formação. Essa pressão temporal me acompanhou do início ao fim.
O pré-operatório, então, teve menos espaço para contemplações e mais para agendamentos, deslocamentos e respostas rápidas. Ainda assim, foi um período de muitos pensamentos silenciosos. Eu sabia que a cirurgia não seria uma solução mágica, mas uma chance concreta de recuperar minha saúde. Ao mesmo tempo, me perguntava se eu estaria realmente pronta. A verdade é que ninguém avisa que, antes da cirurgia, você passa por um luto silencioso da vida que você levava — uma vida que não funcionava, mas que era familiar.
Foi uma fase de aceitar ajuda, confiar nos profissionais e, principalmente, admitir para mim mesma que eu precisava dessa intervenção. Mesmo com toda a pressa, esse tempo acabou me preparando emocionalmente, ainda que de forma indireta. Quando chegou o momento, eu estava cansada, ansiosa, mas também decidida. O pré-operatório abriu espaço para o entendimento de que cuidar de mim exigiria coragem, organização e uma postura ativa frente ao meu próprio processo de saúde.
