Introdução
Durante a disciplina Intervenção Psicossocial, sob orientação e supervisão da professora e psicóloga Mariana Miranda Borges, eu e as acadêmicas do curso de Psicologia Mariana Dias Maranhão Aguiar e Sônia Cecília Rocha realizamos um projeto no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Palmas, com o objetivo de fortalecer vínculos familiares e prevenir novas situações de violência intrafamiliar. O trabalho teve como foco a promoção da escuta, da empatia e da comunicação não violenta, por meio de sete encontros grupais com famílias acompanhadas pelo PAEFI (Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos).
O público participante foi composto por duas famílias encaminhadas pela Casa 18 de Maio, ambas com histórico de negligência e bullying infantil. As atividades tiveram caráter reflexivo e preventivo, alinhadas ao entendimento de que relações familiares seguras se constroem a partir da presença, do cuidado e da comunicação afetiva, aspectos essenciais nos processos de desenvolvimento emocional (BOWLBY, 1984).
Primeiro encontro – Acolhimento e vínculo
O primeiro encontro ocorreu em 26 de abril de 2023 e foi marcado por um clima acolhedor. Iniciamos com uma roda de apresentações e explicamos o contrato terapêutico, reforçando que o grupo seria um espaço de trocas, escuta e aprendizado coletivo. Essa etapa está alinhada ao que Winnicott (1983) descreve como ambiente facilitador, um contexto que sustenta o sujeito para que ele possa se expressar de forma autêntica. Para favorecer a aproximação, propusemos a atividade “O que me faz feliz?”, em que cada participante preencheu um coração com palavras e desenhos representando momentos de alegria. A partir dessa partilha, surgiram conversas espontâneas sobre convivência, cuidado e apoio mútuo. Encerramos com uma reflexão sobre a importância de conhecer e confiar no outro, destacando que o primeiro passo para o fortalecimento familiar é o reconhecimento das próprias emoções. A alegria das crianças e o envolvimento dos pais confirmaram que estávamos trilhando um caminho promissor.
Segundo encontro – Unidos somos mais fortes
No segundo encontro, em 3 de maio, utilizamos a dinâmica dos palitos, mostrando que “sozinhos, quebramos com facilidade, mas, juntos, somos mais fortes”. A atividade simbolizou a importância da cooperação e da união familiar, a metáfora dialoga com a perspectiva sistêmica de família, segundo a qual cada membro influencia e é influenciado pelo sistema familiar (MINUCHIN; FISHMAN, 2018). Posteriormente, abordamos o tema da proteção infantil, enfatizando que a família é o primeiro e mais importante agente protetor do desenvolvimento da criança. Discutimos os fatores de risco e de proteção, e os pais demonstraram grande interesse em refletir sobre como poderiam promover um ambiente mais seguro e afetuoso em casa. Com as crianças, realizamos desenhos sobre a família, que revelaram aspectos emocionais significativos, como figuras parentais rígidas e a casa como símbolo de segurança. A atividade permitiu compreender melhor os sentimentos e as percepções das crianças sobre o lar.
Terceiro encontro – Escuta e empatia
Em 10 de maio, o grupo mostrou-se mais entrosado. As mães participaram de uma conversa sobre autoconhecimento e papel protetivo, retomando temas do encontro anterior. Observamos amadurecimento nas reflexões e disposição para ressignificar comportamentos. Com as crianças, trabalhamos a temática da proteção e dos sentimentos por meio de leituras e desenhos. A escuta sensível revelou experiências de medo e insegurança, o que reforçou a necessidade de acompanhamento contínuo e acolhimento emocional.
Quarto encontro – Valores e convivência
No dia 17 de maio, o foco foi o resgate dos valores familiares. Propusemos uma dinâmica em que cada pai escolheu, entre 24 valores, os dois mais importantes para si e três que gostaria de transmitir aos filhos. O exercício gerou reflexões profundas sobre responsabilidade, respeito e afeto, levando os participantes a reconhecerem o quanto certos valores passam despercebidos na rotina. As crianças realizaram atividades sobre amizade e fraternidade entre irmãos, refletindo sobre companheirismo, empatia e cuidado. O grupo compreendeu que a união familiar fortalece laços e previne conflitos.
Quinto encontro – Raízes e histórias familiares
Em 24 de maio, trabalhamos na construção do genograma familiar. Essa atividade permitiu que os participantes revissem suas histórias, identificassem padrões intergeracionais e refletissem sobre repetições de comportamentos. Houve momentos de emoção e reconhecimento de vínculos rompidos e restabelecidos. Apesar de algumas dificuldades, especialmente por parte das crianças, a atividade foi significativa, proporcionando autoconhecimento e pertencimento.
Sexto encontro – Sonhos e encerramento
O último encontro, realizado em 31 de maio, marcou o encerramento da intervenção com a atividade “Árvore dos Sonhos”. Cada participante escreveu seus sonhos e desejos, amarrando-os em um galho seco decorado, símbolo de esperança e renovação. Atividades simbólicas como essa dialogam com a perspectiva junguiana de que os símbolos favorecem a expressão emocional e a integração de desejos e significados (JUNG, 1981). As falas foram emocionantes, pais e filhos expressaram vontade de manter a harmonia, praticar o diálogo e continuar cultivando o amor e o respeito em suas relações. Finalizamos com um café coletivo, celebrando a caminhada e os vínculos construídos.
Considerações finais
A experiência no CREAS foi profundamente transformadora. Enfrentamos desafios, como a baixa adesão inicial e limitações estruturais do serviço, mas cada encontro reafirmou o poder das intervenções psicossociais como instrumento de mudança e prevenção da violência. Pudemos observar o fortalecimento dos laços familiares, a abertura para o diálogo e o despertar da empatia. Como estagiárias, crescemos não apenas profissionalmente, mas também humanamente, ao compreender que a escuta e o acolhimento são atos potentes de transformação e reafirmando a importância do trabalho em rede e da atuação do CREAS como espaço de proteção e reconstrução de vínculos. Como destaca Paulo Freire (2005), é por meio da prática da liberdade que processos educativos e transformadores se tornam possíveis, e foi nesse entendimento que construímos, junto às famílias, uma experiência marcada por aprendizado mútuo, afeto e esperança.
Referências
BOWLBY, John. Apego e perda: apego. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
MINUCHIN, Salvador; FISHMAN, Charles H. Técnicas de terapia familiar. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
