Morte, indiferença e Meursault: a alexitimia como barreira ao luto em O Estrangeiro

Compartilhe este conteúdo:

Publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, O Estrangeiro, de Albert Camus, narra a trajetória de Meursault, um funcionário de escritório comum que, após o falecimento da mãe e uma sucessão de eventos casuais, comete um homicídio sob o sol escaldante de uma praia. Por meio de uma linguagem seca, simultaneamente direta e distante, o autor revela uma personalidade que habita na zona cinzenta entre a filosofia do absurdo e um quadro psicológico de profunda desconexão emocional. Contudo, ao observarmos a escrita sutil de Camus, percebemos que a aparente indiferença do protagonista não constitui apenas uma escolha filosófica ou um comportamento aprendido, mas um sintoma de negação da autoconsciência.

Para a infelicidade de Meursault, a mente que se empenha em manter a neutralidade é traída por um corpo que reage involuntariamente. Até a metade da obra, o personagem relata apenas a vida daqueles que o cercam. Isso ocorre porque ele possui tão pouco autoconhecimento que as percepções alheias sobre seu estado são capazes de confundi-lo, como no momento em que Raymond afirma que ele parece entregue ou exausto após o sepultamento da mãe. É como se Meursault necessitasse de um espelho que o refletisse para compreender o próprio semblante, sem nunca saber ao certo se está feliz ou triste.

Podemos observar que o personagem descreve o mundo quase exclusivamente por sensações físicas, a exemplo do calor sufocante, da luz ofuscante e da fadiga extrema. Testemunhamos suas descrições sobre a existência, lemos seus relatos sobre as mudanças fisiológicas do corpo e ouvimos seus pensamentos; no entanto, Meursault permanece extremamente distante do leitor. Essa lacuna decorre da incapacidade de sentir e nomear afetos, uma falta que se torna evidente pois as emoções são o elo mais profundo de conexão entre os seres humanos. A inabilidade de traduzir estímulos corporais em sentimentos é o que a psicologia define como Alexitimia.

A Alexitimia não representa a ausência de emoção, mas a dificuldade em identificá-las. Para quem possui esse traço, um estado de ansiedade ou tristeza pode ser percebido apenas como um desconforto físico vago, marcado por suor excessivo ou um cansaço aparentemente inexplicável. No caso de Meursault, o não acesso ao campo emocional faz com que ele substitua o mundo interno pelo externo. O sol, mencionado como o mesmo presente no dia da morte de sua mãe, torna-se o responsável pelo assassinato do árabe, atuando como um propulsor sensorial para uma tensão interna que ele não possui recursos biológicos para processar.

Apesar de parecer um “analfabetismo emocional”, a Alexitimia não vem apenas da falta de conhecimento técnico e descritivo da definição de uma emoção. No caso de Meursault, não estamos dizendo que ele apenas não aprendeu o nome das emoções na escola, pois claramente é um homem instruído e que possui uma vida funcional. Sua estranheza resulta da ausência de integração entre a emoção e o pensamento. No tribunal, ele é punido justamente porque o júri interpreta essa limitação biopsicológica de processar o luto como uma falha moral ou maldade deliberada.

Meursault percebe o mundo como se estivesse assistindo a um filme sem trilha sonora onde ele vê a ação (a morte, o amor, o crime), mas a “música” que daria o tom da cena simplesmente não toca para ele. A expectativa inicial que temos é de que esse protagonista ordinário conquiste a nossa simpatia em algum momento, bem como muitos outros. Todavia, no decorrer dos fatos, o leitor deixa de se envolver emocionalmente e passa a observá-lo sob a ótica de um experimento racional. Terminamos por olhar para Meursault da mesma forma que ele olha para a vida e, ainda assim, negamos qualquer semelhança com ele.

Referências:

CAMUS, Albert. O estrangeiro. Tradução de Valérie Rumjanek. 45. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019. 126 p.

MELLO FILHO, Júlio de. Psicossomática hoje. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.

Compartilhe este conteúdo:
Estudante de psicologia. Escritora criativa e transcritora de pensamentos nas horas vagas.

Deixe um comentário