A Ghost Story – uma história sobre a enormidade do tempo e a preciosidade de pequenos gestos

Nas buscas por respostas para a questão da vida, experimentei exatamente o mesmo sentimento que um homem experimenta na floresta.

Saí numa clareira, subi numa árvore e vi claramente o espaço infinito, mas vi que lá não há nenhuma casa, nem pode haver; fui para a mata fechada, para a escuridão, e vi a escuridão, e lá também não havia nenhuma casa.

Desse modo, vaguei pela floresta dos saberes humanos, entre os raios de luz dos saberes matemáticos e experimentais, que desvelavam para mim horizontes claros, mas em cuja direção não podia haver nenhuma casa, e vaguei entre a escuridão dos saberes especulativos, na qual, quanto mais eu avançava, mais afundava, até que por fim me convenci de que não havia saída nem podia haver.

Uma Confissão, Liev Tolstói [1]

 

É possível que cada um de nós, à sua maneira, já tenha pensado sobre a brevidade da vida, a complexidade do tempo e, especialmente, sobre a nossa relevância em meio a tudo isso. A cada geração, várias coisas mudam, mas essa angústia perante a morte ou ao desconhecido é perene, constante. A Ghost Story é um filme originalmente diferente,  mas que fala sobre coisas que são tão comuns, especialmente essa busca por um sentido que nos liberte do ciclo de perguntas que se formam quando oscilamos entre o medo de ser esquecido e o peso da enormidade de existir para sempre.

O filme conta a história de um casal, protagonizado por Rooney Mara e Casey Affleck, e não há nenhum grande esquema no roteiro sobre isso, ou seja, o casal faz aquilo que as pessoas costumam fazer, dormem juntos, discutem sobre a divergência de pensamentos, se assustam, ouvem música, riem. Mas, para que fazer um filme que tem como base questões tão complexas a partir de algo tão comum? Talvez porque o sentido que buscamos no infinito, no cosmo, na religião, nos livros, na loucura, na fé, esteja estranhamente nas pequenas coisas que compõem o nosso dia a dia.

A vida rotineira e feliz do casal é interrompida pela morte do jovem marido. Assim, quando sua esposa vai ao necrotério reconhecer o corpo e o cobre com o lençol, e depois sai, deixando-o sozinho, tem-se o início de uma nova jornada. Um fantasma, como aqueles que construíamos na infância com um enorme lençol e dois furos para representar os olhos, passa a ser a personagem principal da história. Sua figura melancólica, quase estática, nos conduz nos infinitos quadros que compõem a vida que o cerca. Como o fantasma, nos tornamos observadores da vida das pessoas que viveram e viverão naquela casa, onde o jovem marido morto vivenciou seus melhores dias e cuja necessidade de entender um pequeno gesto é tão pungente que o prende ali por séculos.

Como um personagem fala em um dado ponto do filme, parece que sempre fazemos questão de criar um contexto que nos permita ser lembrados, mesmo quando já não existirmos. Seja Beethoven com sua sinfonia, um escritor com sua grande obra, os pais por meio das lembranças de seus filhos.  Porque parece que ser esquecido é a maior constatação da finitude. Mas há alguma chance, considerando a ínfima parte que representa nossa existência no tempo e no espaço, disso em um dado momento não acontecer?

O filme não traz respostas, mas reforçam alguns questionamentos, traz à tona uma estranha sensação de que alguém conseguiu enxergar nossas inquietações e representá-las tão bem e uma forte constatação de que nos apegamos, de fato, a poucas coisas nessa vida. Por isso, que a explicação inicial que a esposa dá ao marido sobre o motivo que a leva a deixar pequenos bilhetes escondidos pelas casas que passa é tão reveladora, ainda que tão íntima.

– Eu escrevia bilhetes e os dobrava bem pequeno, então os escondia.

– O que eles diziam?

– Eram só coisas que eu gostaria de lembrar para o caso de que se eu quisesse voltar, haveria um pedaço de mim esperando.

E ela parte… A casa fica só com o fantasma e sua busca, que é a de conseguir resgatar aquele pequeno pedaço de papel, a última motivação consciente de alguém que não tem mais uma existência, mas tem um propósito. O luto geralmente é apresentado nos filmes através da visão de quem fica. Nesse filme, em particular, acompanhamos, no silêncio e na ausência de expressão, o luto de um fantasma que só tem uma casa e um desejo: descobrir o que alguém que partiu gostaria de lembrar. Segundo Elisabeth Kubler-Ross [2], há cinco fases do luto: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação, e vimos todas elas em um lençol com dois buracos em forma de olhos. O que mostra a direção espetacular de David Lowery.

E nada é mais solitário do que o diálogo silencioso entre duas almas, cada uma em sua casa. Uma delas (o fantasma da casa vizinha) espera alguém chegar, mas sem conseguir mais lembrar quem é esse alguém. Talvez ser esquecido seja mesmo inevitável. Quando a alma esquecida tem a sua casa destruída, finalmente a sua imagem de fantasma desaparece.

Mas o nosso fantasma em particular fica na casa, mesmo quando no lugar não há mais casa, nem paredes, nem nada. Mesmo quando ele está em um tempo anterior à sua própria existência, um tempo que ainda não existe a mulher que amou, o bilhete que quis alcançar, ainda que o propósito de alcançá-lo permaneça vivo.

O tempo…. Ah, o tempo…. Já assisti inúmeros filmes de ficção científica que tem como foco essa temática, mas nenhum me tocou tão profundamente quanto esse. Não há máquinas mirabolantes, nem teorias cientificamente plausíveis, há apenas o tempo em sua forma mais brutal nos mostrando que sabemos tão pouco sobre as coisas, sobre o mundo e, especialmente, sobre a nossa existência.

O tempo (anos, décadas, séculos) passa diante da figura contemplativa do fantasma e do seu olhar melancólico, mostrando-nos que, talvez, as escalas que compõem nossa saudade, nossa esperança, nossas dores, nossos sonhos, sejam apenas variações em um dado tempo x espaço, mas não podem responder as perguntas que temos ou explicar aquelas que nem mesmo conseguimos formular, já que a linguagem também não é suficiente. Em uma escala maior, por exemplo, o universo, em qualquer contexto que observamos, o ser humano parece sempre tão pequeno, tão insignificante. O que importa ao final? Essa resposta não está no filme. Talvez esteja em nós, mas ainda não seja plenamente compreendida.

Referências:

[1] TOLSTÓI, Liev. Uma Confissão / Liev Tolstói; tradução Rubens Figueiredo. 1ª. Edição – São Paulo, 2017.

[2] KUBLER- Ross, E. “Sobre a morte e o morrer”: 8ª Ed., Martins Fontes. São Paulo, 1998.

FICHA TÉCNICA DO FILME

Roteiro e Direção: David Lowery
Música: Daniel Hart
Elenco: Casey Affleck e Rooney Mara
Ano: 2017

Parcilene Fernandes
Doutora em Psicologia (PUC/GO). Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.