“Altered Carbon” e um sombrio futuro próximo

Uma elite de abastados têm agora a eternidade para perpetuarem a fortuna e o poder, se afastando da realidade mundana através de “capas” cada vez mais aprimoradas, morando em palácios acima das nuvens, no topo de arranha-céus.

O sonho tecnognóstico por séculos, desde a Teurgia e Alquimia, foi transcender a matéria – abandonar os nossos corpos como condição para a verdadeira evolução espiritual. Mas como Santo Irineu de Lyon alertou no século II, “O que não é assumido não pode ser redimido”. E o sonho milenar pode se transformar em pesadelo com uma tecnologia que promete a imortalidade: a consciência digitalizada em “pilhas cervicais” que podem, a qualquer momento, serem transferidas para qualquer corpo (ou “capa”). Mas isso acabou provocando uma sociedade tremendamente desigual e violenta. Essa é a série Netflix “Altered Carbon” (2018-), um cyberpunk-noir que suscita profundas reflexões teológicas: se pudermos ser ressuscitados após a morte em uma nova “capa”, a alma persistirá entre os códigos que transcreveram nossa consciência e memórias? Ou nos transformaremos em “capas” ocas manipuladas por uma elite amoral? Uma elite que alcançou a verdadeira imortalidade – fazer backups da própria consciência via satélite.

No clássico Blade Runner (1982) de Ridley Scott, a grande questão que se colocava ao final para os espectadores era: o policial Deckard (Harrison Ford), especialista em eliminar androides fugitivos, era sem saber também um replicante? Como distinguir um replicante de um ser humano nas gerações cada vez mais avançadas de androides? Estava colocado o sonho tecnognóstico cujas origens milenares estão na Teurgia, Alquimia e Cabala: imitar Deus criando Vida. Tentar retornar a Deus imitando o próprio ato da Criação.

Mas na série Netflix Altered Carbon (2018 -) descobrimos como o milenar sonho tecnognóstico pode se transformar em pesadelo: aproximamo-nos de Deus quando descobrimos o segredo da imortalidade – nossas consciências podem ser digitalizadas e “baixadas” em “pilhas cervicais” ou simplesmente “cartuchos” armazenados nas vértebras das pessoas. Há qualquer momento, com a eventual morte do corpo, o cartucho pode ser transferido para uma nova “capa” ou corpo, para viver uma nova “encarnação”.

O cartucho mantém memórias das muito frequentes múltiplas vidas anteriores em diferentes “re-capamentos”. Porém, outra incerteza, ainda mais sinistra, surge: os cartuchos digitalizaram memória e consciência. Mas será que a alma persiste entre os bytes desses discos rígidos? Todos os personagens de Altered Carbon ainda permanecem “humanos”, com uma alma e consciência? Ou se tornaram invólucros animados unicamente por sombras do passado, memórias transcritas digitalmente? Zumbis bio-químico-digitais?

Essa é a dúvida que perpassa toda a primeira temporada de Altered Carbon: a realização tecnognóstica da alma finalmente transcender a matéria poderia ter resultado numa bizarra paródia – tudo o que conseguimos foi a imortalidade dos códigos que transcrevem nossas consciências em um disco rígido. E não mais a alma.

Uma elite brutal

Nesse cenário em que qualquer um pode se tornar imortal (a não ser que seja destruído o próprio cartucho invólucro da consciência), conhecemos através da série uma sociedade futura brutalmente desigual que se alastra em megacidades de luz néon, carros voadores, arranha-céus que alcançam as nuvens, sob uma constante chuva ácida que cai sobre becos e ruas estreitas. Relembrando o cenário distópico de Blade Runner.

Uma elite de abastados têm agora a eternidade para perpetuarem a fortuna e o poder, se afastando da realidade mundana através de “capas” cada vez mais aprimoradas, morando em palácios acima das nuvens, no topo de arranha-céus. Viveram centenas de anos, tempo suficiente para acumularem riqueza, conhecimento e sensação de estar sempre acima da Lei.

Por milênios o Gnosticismo aspirou a transcendência sobre o corpo, dentro da dualidade radical espírito/matéria: o corpo nada mais era do que uma prisão para a evolução espiritual, em um mundo cuja Criação resultou numa forma de prisão cósmica para a humanidade. Teurgia, Alquimia, Cabala e demais conhecimentos herméticos foram as tecnologias iniciáticas de cada época mobilizadas para a libertação espiritual.

A revolução tecnognóstica figurada em Altered Carbon é a realização dos sonhos alquímicos e cabalísticos – e os simbolismo do ouroboros (a serpente que morde a própria cauda) e Caduceus (a serpente subindo o corpo de uma mulher como a descrição esotérica da evolução espiritual) estão presentes desde a abertura dos créditos dos episódios para representar isso.

Porém, de uma forma pervertida, como estratégia de perpetuação de uma elite que detém o poder e dinheiro para dominar a tecnologia. A questão é que o tecnognosticismo esqueceu a afirmação de Santo Irineu de Lyon (séc. II) segundo a qual “aquilo que não foi assumido, não foi redimido”. O corpo perdeu a totalidade do seu valor sagrado (foi reduzido a “capa”) enquanto os demiurgos mantêm a ordem material que, em última instância, permanece sendo a prisão espiritual.

A Série

Com o cancelamento da série Sense 8 das irmãs Wachowski, do fracasso de bilheteria de Blade Runner 2049 e o resultado nada entusiasmante de Mudo do diretor Duncan Jones, a Netflix fez uma aposta arriscada em insistir mais uma vez com o universo cyberpunk-noir de Altered Carbon.

Como a maioria das séries atuais, a narrativa já começa em plena ação deixando o espectador sem saber as motivações dos personagens. O que nos obriga a buscar aqui e ali, em cada flash back ou flashs de memórias do protagonista, pistas para reconstruir os eventos anteriores ao enredo atual.

A estória acompanha Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman), um ex-membro de uma facção de elite de rebeldes (os “emissários”) que foi morto em um confronto contra soldados do “Protetorado” (governo totalitário comandado pela elite imortal). Seu cartucho foi extraído da cervical e mantido “no gelo” (como denominam o estado de prisão sem corpo) por 250 anos até ser dado a ele um novo corpo para ser “re-encapado”.

Takeshi descobre que sua nova “capa” foi uma liberdade condicional concedida pelo oligarca imortal Laurens Bancroft – James Purefoy. Ele foi recentemente assassinado antes de o backup feito a cada 10 minutos (sua consciência e memórias são transmitidos por satélite para bancos de dados para garantir a imortalidade, mesmo com a destruição da sua pilha cervical) ser feito. O que o impossibilitou de gravar em sua memória quem cometeu o atentado com a reinicialização subsequente em um novo corpo.

Sem a memória da própria morte, Bancroft acredita que as habilidades lendárias de um antigo rebelde “emissário” ajudará a descobrir quem foi o assassino. Aqui temos o início de todos os elementos dos clássicos filmes noir de investigação policial: um investigador estoico, uma detetive policial que nutre uma relação de suspeita com o investigador (Kristin Ortega – Martha Higareda), mulher fatal (esposa de Bancroft, Miriam – Kristin Leheman) e inúmeros vilões que aparecerão para tentar tirá-lo do caminho. Na medida em que a narrativa se expande, passamos a conhecer as regras e uma série de peculiaridades do universo de Altered Carbon.

Desprezo ao corpo

Em um mundo definido pela “imortalidade da alma” (e nisso que acreditam) o corpo foi rebaixado de identidade central a mera ferramenta. Pelo fato de os corpos poderem ser facilmente substituídos, prostituição, violência e agressões (principalmente contra as mulheres) se torna uma normativa. Enquanto consciências podem ser torturadas por dias e até anos em simulações de realidade virtual – o grande problema para alguém é despertar dentro do seu limbo sem corpo, no interior de um dos “cartuchos”. Mas essa imortalidade só é mesmo garantida para a elite de poderosos como Bancroft.

Os pobres podem geralmente trabalhar recebendo como cheque de pagamento um novo corpo (ou “capa”). Porém, esses novos invólucros são de baixa qualidade, provenientes de mercados negros. Mas apenas a oligarquia tem o privilégio dos backups via satélite que garantem a imortalidade sem o risco da perda da pilha cervical.

Mas há grupos de oposição como os chamados “Neo-cristãos” que se recusam a receber novas “capas”: acreditam que após a morte a alma abandonou o corpo e que os novos re-capamentos são sacrilégios aos olhos de Deus.

Os perigos do tecnognosticismo

O que não é assumido, não pode ser redimido”, com isso Santo Irineu quis dizer que Jesus não veio para esse mundo com uma pilha cervical, foi crucificado e o conteúdo do “cartucho” retornou ao seu Pai. Ele levou também as cicatrizes do sofrimento corporal.

As consequências do fato do tecnognosticismo não considerar a advertência de Santo Irineu estão representados em toda a primeira temporada de Altered Carbon. A finitude, temporalidade e senso de fragilidade não são meros limitadores da evolução espiritual.

Como observa Michael Heim, sem essas espécies de âncoras corporais para o Eu temos o crescimento da amoralidade a partir do momento que os limites físicos com o Outro desaparecem. O corpo é a base cinestésica de toda ética e moralidade – leia HEIM, Michael. The Metaphysics of Virtual Reality.

O resultado é o mundo de abusos, violência e desigualdade sem limites. O tecnognosticismo, a gnose sem ascese como uma espécie de atalho para o Satori. Em um mundo que não foi redimido, de nada adianta a evolução espiritual. Principalmente quando ela é pensada como simples negação da matéria.

Wilson Roberto Vieira Ferreira
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.