Infocracia: reflexões sobre liberdade, dataísmo e a ilusão da escolha

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Infocracia: digitalização e a crise da democracia, de Byung-Chul Han, publicado no Brasil pela Editora Vozes em 2022, parte da transformação provocada pela digitalização para discutir algo maior: o modo como a informação, as redes sociais, os algoritmos e os dados estão modificando nossa maneira de viver, de pensar, de nos relacionar e de fazer política. Han entende que estamos diante de um novo regime de poder, no qual a informação se transforma em instrumento de controle e no qual a exploração já não depende apenas da repressão, mas da sensação de liberdade.

Existe, hoje, uma necessidade de saber de tudo. Queremos acompanhar todas as notícias, todas as discussões, todos os acontecimentos e todas as tendências. A infodemia não é apenas um excesso de informação: ela nos torna reféns. Somos constantemente chamados a olhar, responder, comentar, compartilhar, reagir e produzir. E fazemos isso acreditando que estamos escolhendo livremente.

Talvez uma das ideias mais incômodas de Infocracia seja a de que somos agentes da nossa própria exploração. Produzimos a nós mesmos porque queremos. Somos influenciados a produzir e, ao mesmo tempo, acreditamos que essa produção é uma escolha nossa. Produzimos em nome de uma liberdade ilusória, na qual enxergamos apenas nossa decisão e desconsideramos os agentes externos que participam da construção dessa escolha. A plataforma oferece o espaço, o algoritmo organiza o que aparece, os dados revelam nossos comportamentos e nós continuamos dizendo que somos livres.

A normalidade também é construída pela repetição de padrões habituais. Quanto mais vemos determinada ideia, determinada imagem, determinado comportamento, mais familiar aquilo se torna. Somos induzidos a achar que gostamos livremente de uma ideia que, muitas vezes, foi repetidamente colocada diante de nós. O que parece espontâneo pode ter sido cuidadosamente estimulado.

E existe uma razão humana para que isso funcione, o ser humano é social, e a busca pelo pertencimento não nasceu com as redes sociais digitais, pois a espécie humana anseia por conexões, por proteção, por afeto e pela sensação de fazer parte de algo. O problema é que estamos tentando satisfazer uma necessidade profundamente humana em ambientes que, muitas vezes, produzem justamente o contrário. Estamos sós.

A tela não tem olhos, não existe nela a troca concreta que existe entre pessoas, não existem os mesmos limites, as mesmas pausas, os mesmos constrangimentos e a mesma presença. As redes sociais são um contexto solitário, ainda que estejam cheias de pessoas. Existe interação, mas muitas dessas trocas são performáticas. Cada um apresenta a si mesmo, sua opinião, sua rotina, seu corpo, seu sucesso, sua indignação e sua felicidade.

Preza-se pelo narcisismo, muitas vezes por indução. Todos querem tudo para si, todos querem ser vistos, todos querem ser lembrados. E, nesse processo, a própria existência começa a depender da exposição. Ou você produz conteúdo e se vende como mercadoria nas redes, ou parece não existir. Ser visto passa a significar existir; ser ignorado passa a significar desaparecer. É uma espécie de lógica em que se prostituir passa a ser sinônimo de existir, mostrar-se, vender-se, disponibilizar-se e transformar a própria vida em conteúdo para continuar relevante.

Quanto mais interagimos com as redes sociais, mais difícil parece ficar viver a vida fora delas. Talvez isso também explique uma transformação mais ampla da experiência coletiva. Em uma sociedade cada vez mais atomizada, já não encontramos com facilidade narrativas coletivas e propósitos comuns. Grupos de trabalho são substituídos por indivíduos que precisam administrar a própria marca (“PJtização” que o diga), a própria produtividade e a própria sobrevivência. Estamos cada vez mais sozinhos, tentando construir individualmente aquilo que antes também era construído coletivamente.

E isso nos atinge porque os seres humanos codificam a vida por meio de histórias e narrativas. Organizamos nossas experiências em histórias para conseguir compreender quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo. Mas onde estão essas narrativas atualmente? Em fotos, vídeos, postagens, stories, tweets e conteúdos fragmentados. A vida vai sendo transformada em pequenas unidades de informação. O tempo só passa e, muitas vezes, todo dia parece igual.

Enquanto isso, o Big Data capta tudo. Nossos batimentos cardíacos, nossa voz, nossa localização, nossos hábitos, nossas preferências, nossos horários, nossos deslocamentos. Aceitamos entregar informações da nossa vida em troca de comodidade. Mas isso não é de graça. Para viver nas redes, damos nossos dados. As empresas captam essas informações e estudam nossos comportamentos. Por isso, muitas dessas redes parecem gratuitas, porque nós somos parte do produto. Nossos dados possuem valor. Eles permitem identificar padrões, prever comportamentos e compreender aquilo que desejamos.

E, quando é possível compreender nossos desejos, também se torna possível tentar manipulá-los. Nossos desejos podem ser trabalhados com base em nossas carências. Aquilo que buscamos, aquilo que tememos e aquilo que nos interessa pode ser utilizado para selecionar aquilo que chegará até nós. O hall de opções desses aplicativos é limitado àquilo que querem que vejamos. E, para cada pessoa, os resultados serão diferentes, assim não estamos todos vendo o mesmo mundo.

A emoção prende mais do que a racionalidade. Em muitos momentos, já não importa tanto se uma informação é verdadeira, mas o impacto emocional que aquele fragmento consegue produzir. Um vídeo curto, uma imagem, uma frase ou um tweet podem provocar uma reação imediata. Quanto mais chocante, indignante ou assustador for o conteúdo, maior a possibilidade de engajamento.

O compromisso com a verdade perde espaço para o compromisso com a repercussão, porque nessa lógica, não é necessário mais tempo para construir uma ideia. É necessário produzir impacto. Os debates contemporâneos se transformam em espetáculo. Tudo é corrido. O objetivo é o corte, o engajamento, a circulação, a repercussão. Mas o que é possível realmente discutir em um minuto? Que raciocínio é possível construir quando toda resposta precisa caber em um fragmento?

O excesso de informações também produz um efeito paradoxal, pois quanto mais temos acesso, menos as coisas parecem durar. Todas as notícias são apresentadas como relevantes. Todas parecem urgentes. Tudo acontece ao mesmo tempo. E, quando tudo é importante, nada consegue permanecer importante por muito tempo, e assim seguimos anestesiados.

Há tanta informação, tantos estímulos e tanta busca por prazeres rápidos que perdemos o hábito de permanecer diante de uma informação, de contemplá-la, de examiná-la e de construir uma compreensão mais profunda. Ficamos infoxicados. O mundo de hoje se tornou pornográfico no sentido de ser excessivamente explícito. Tudo precisa ser mostrado, revelado e exposto. Pouco permanece oculto, protegido ou reservado.

Essa transformação também altera aquilo que entendemos como realidade comum, principalmente porque antigamente, uma sociedade podia compartilhar uma mesma fonte de notícias. Havia, apesar das diferenças, um chão comum para as conversas, para a compreensão dos acontecimentos e para a própria construção da vida pública. Hoje, esse chão parece cada vez mais fragmentado.

Somos influenciados pelo que gostamos e  validamos o símbolo disso, muitas vezes representado por um líder. Quando alguém se torna representante de uma determinada visão de mundo, começamos a aceitar tudo aquilo que vem dele e rejeitar tudo aquilo que o contradiz. O senso crítico diminui porque a identidade passa a ser mais importante do que a análise, e a empatia também entra nessa ambivalência.

Se sou empático apenas com a minha tribo, posso me tornar antipático diante de toda dissonância a ela. A empatia deixa de ser uma abertura ao outro e passa a funcionar como uma confirmação de pertencimento. Gostamos daqueles que pensam como nós e rejeitamos aqueles que ameaçam nossas certezas e nesse cenário, a própria democracia sofre.

A sabedoria não se desenvolveu no mesmo ritmo que a tecnologia. Criamos ferramentas capazes de distribuir informação em escala gigantesca, mas não desenvolvemos, na mesma proporção, a capacidade de lidar criticamente com aquilo que recebemos. Há cada vez mais dicotomias, cada grupo possui sua própria realidade, não existe abertura para o diferente. O debate se transforma em disputa.

Na política, muitas vezes, quem lacra mais vence. O maior charlatão, aquele que melhor produz entretenimento, pode conquistar mais atenção do que aquele que possui maior capacidade de construir uma reflexão. E isso nos coloca diante de um problema ainda maior, quando não sabemos mais em quem acreditar ou no que acreditar, nos tornamos céticos e desconfiados.

A cooperação se torna difícil quando cada grupo opera a partir de uma noção própria de realidade. Fragmenta-se, então, a vida, fragmenta-se o Estado, fragmenta-se a democracia, fragmenta-se a fé em qualquer coisa que exista fora da própria bolha.

Esse processo também pode contribuir para a deslegitimação das instituições democráticas. Os pilares da democracia são constantemente criticados e questionados. É evidente que essas instituições não são infalíveis e que seus erros precisam ser analisados com a crítica. O problema está na maneira como cada falha pode ser amplificada, transformada em espetáculo e utilizada para produzir a impressão de que tudo está em caos. Nesse ambiente, discursos autoritários podem encontrar espaço ao prometer soluções radicais para uma realidade percebida como insustentável.

Talvez o grande problema da infocracia seja justamente o fato dela não precisar nos obrigar a nada, pois ela precisa apenas convencer-nos de que queremos. Na era da informação, a máxima parece ter se tornado “quantifica-se a si mesmo”. Nossos comportamentos, emoções, deslocamentos, preferências e relações transformam-se em números, e esses números podem voltar-se contra nós. Han chama atenção para esse movimento associado ao dataísmo, no qual os dados passam a ocupar um lugar central na compreensão e na organização da vida.

Mas dados não são neutros. Quando nossos desejos são tratados como estatística, perde-se a dimensão da complexidade humana. Uma pessoa deixa de ser uma história, uma narrativa e passa a ser um conjunto de informações. Deixa de ser compreendida em sua contradição, em sua subjetividade, em sua capacidade de mudar e de surpreender. É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas tecnológica. O que estamos perdendo? Talvez estejamos perdendo nossa humanidade.

Perdemos a capacidade de criar sem precisar performar, de refletir sem precisar publicar, de sentir sem precisar registrar, de conversar sem transformar a conversa em conteúdo. de permanecer em silêncio sem sentir que estamos desaparecendo. Seguimos o que é ditado porque parece mais fácil seguir aquilo que já está pronto. Mas talvez seja possível resistir ao dataísmo, não necessariamente abandonando a tecnologia ou tentando voltar a um passado que já não existe, mas realizando uma mudança cultural. Precisamos voltar a viver aquilo que torna o humano humano.

Precisamos de pessoas reais, de relações reais, de conversas que não precisam ser publicadas, de experiências que não precisam ser transformadas em dados. Precisamos recuperar a possibilidade de estar com o outro sem transformá-lo em audiência. O dataísmo é uma ideologia. E, como qualquer ideologia, pode ser questionado. Talvez a resistência comece justamente quando deixamos de perguntar apenas o que a tecnologia pode fazer e passamos a perguntar o que ela está fazendo conosco, porque o problema está no que estamos nos tornando enquanto permanecemos conectados. E para findar essa reflexão, finalizo com alguns questionamentos. Até onde vai a nossa liberdade? Ainda somos nós que usamos as redes ou já estamos vivendo para alimentá-las?

 

Referência:

HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

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Graduando em Psicologia pela ULBRA Palmas e integrante da equipe editorial do Portal (En)Cena - A Saúde Mental em Movimento

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