A franquia Jogos Vorazes, baseada em uma trilogia de livros de mesmo nome, se tornou um sucesso mundial. Para além da narrativa ficcional, a história distópica se passa em um mundo em que a população é dividida em 12 (doze) distritos, cada um responsável por uma área de produção de matéria e alimentos que mantém a sede governamental que lidera tudo, a Capital. Apesar desse plot já ser algo que apresenta muitas camadas por si só, ainda existem várias outras características e acontecimentos na história que deixam tudo ainda mais intrigante.
A Capital lidera os distritos com mãos de ferro; apesar de os mantimentos precisarem ser produzidos nos distritos, as populações são tratadas com violência, abuso de poder e muita precariedade. Antes dos eventos do primeiro filme da trilogia original, é mencionada uma guerra que ocorreu aproximadamente há 74 (setenta e quatro) anos, quando houve uma rebelião dos distritos, que na época eram 13 (treze), pelos abusos cometidos pela Capital. Como toda guerra, houve muitas perdas e sofrimentos para ambos os lados; a Capital saiu vitoriosa, e o Distrito 13 (treze), que foi o responsável por dar início à rebelião, foi completamente dizimado e deixou de existir, sendo proibido até mesmo de ser mencionado, como se nunca houvesse existido.
A partir daí, se inicia a história contada na franquia. Como punição pela revolta, todos os anos, cada um dos 12 (doze) distritos deve providenciar um garoto e uma garota, com idade entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos, para lutarem até a morte no que foi chamado de Jogos Vorazes. Dessa forma, a Capital controla a população não só com seus abusos de poder, violência e precariedade, mas também com medo e desesperança. A violência cometida com esses jovens, que são obrigados a lutar até a morte em uma arena, se transforma em um espetáculo, assistido por todos de forma voluntária, e é aqui que entra um ponto-chave do controle exercido pela Capital sobre os distritos e seus próprios cidadãos: a alienação.
Nos filmes, é mostrado, a todo momento, que as câmeras e as TVs estão presentes em todos os lugares. Desde o momento da “colheita” dos participantes dos jogos, tudo é televisionado, e todos os habitantes de cada distrito são obrigados a estar presentes. A partir da seleção dos participantes, inicia-se um verdadeiro reality show: tudo o que fazem e o que vestem é televisionado, e os participantes também são obrigados a participar de entrevistas e demonstrações de habilidades, para que o público escolha os seus preferidos e faça suas apostas em quem acha que irá vencer. Dessa forma, a Capital mantém o controle não somente pela força e violência, mas principalmente anestesiando e distraindo a população de seu próprio sofrimento, fazendo tudo parecer um grande espetáculo e entretenimento, alienando a população.

Fonte: Jogos Vorazes: Em Chamas (2013).
Para além da distração, é importante entender que, ao transformar tanto sofrimento em espetáculo, a Capital não está somente distraindo as pessoas dos verdadeiros problemas, mas também exerce uma forma de opressão massante sobre as vítimas, causando cada vez mais desesperança e medo de ir contra as vontades da Capital, pois sabem que, como é mostrado, quem ousou fazer isso teve como destino a morte ou algo que pode até ser considerado pior. É uma forma de controle tão brutal e escancarada que causa um medo aterrorizante e paralisante nos habitantes dos distritos.
Ao transpor essa análise para a realidade contemporânea, ao analisar o controle midiático mostrado em Jogos Vorazes e fazer um paralelo com a sociedade atual, pode-se perceber algumas semelhanças, o que pode tornar tudo ainda mais assustador. Atualmente, as grandes massas são controladas por redes sociais e conteúdos que circulam pela internet. O sofrimento e a precariedade que muitos passam acabam se tornando apenas algo para consumo e entretenimento, em vez de despertar solidariedade e empatia. Os estilos de vida e palavras disseminadas por famosos e influenciadores acabam se tornando quase como uma febre entre os consumidores de conteúdo, ditando muito sobre a forma como pensam, como se comportam e como agem, e ganhando cada vez mais seguidores.
A franquia Jogos Vorazes atravessa o tempo. Em seus filmes, são abordados diversos temas extremamente importantes e comoventes, como: desigualdade social, violência física e psicológica, controle das massas por meio dos meios midiáticos, alienação da população, abuso de poder e corrupção. Assim, torna-se uma das maiores franquias cinematográficas ao entregar ao público uma história com tantas camadas sociais e políticas que, apesar de serem acontecimentos totalmente ficcionais, abordam temas que facilmente podem ser encontrados nas características da sociedade contemporânea atual, o que, infelizmente, ao analisá-las, causa preocupação e medo sobre o que a sociedade vem se tornando, e como comportamentos que deveriam ser considerados inaceitáveis vêm se tornando comuns entre as pessoas e vistos como tal.
Diante do exposto, Jogos Vorazes não só apresenta uma narrativa rica em acontecimentos que geram entretenimento para quem assiste às obras, mas também gera uma importante e necessária reflexão a respeito do papel da mídia na sociedade e das consequências geradas pelo consumo desenfreado de conteúdos que mostram desigualdades e sofrimento como entretenimento.
Ficha técnica

Título: Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Franquia cinematográfica baseada na trilogia literária de Suzanne Collins.
Produção: Lionsgate | País de origem: Estados Unidos
Direção: Gary Ross (2012); Francis Lawrence (2013–2015; 2023)
Produção: Nina Jacobson; Jon Kilik
Roteiro: Suzanne Collins e colaboradores
Elenco principal: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Woody Harrelson
Filmes da franquia:
Jogos Vorazes (2012)
Em Chamas (2013)
A Esperança – Parte 1 (2014)
A Esperança – Parte 2 (2015)
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (2023)
Gênero: Distopia; Ficção científica; Drama.
