Análise crítica do filme Parasita (2019)

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O filme sul-coreano Parasita (originalmente Gisaengchung), dirigido por Bong Joon-ho e lançado em 2019, emergiu como um fenômeno global, conquistando a Palma de Ouro no Festival de Cannes e quatro estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. A obra transcende o entretenimento ao oferecer uma crítica social contundente sobre a desigualdade de classes, o capitalismo e as complexas relações humanas que surgem nesse contexto. Este ensaio busca analisar os principais elementos narrativos e simbólicos do filme, à luz de conceitos sociológicos, e discutir sua relevância na contemporaneidade, aprofundando-se nas metáforas visuais e nas implicações sociais da trama.

No cerne da narrativa de Parasita encontra-se a arquitetura, que funciona não apenas como cenário, mas como um personagem em si, uma poderosa metáfora da estratificação social. A residência da família Park, caracterizada por seu luxo minimalista, design moderno e localização em um bairro elevado, contrasta drasticamente com o semi-subterrâneo e apertado apartamento da família Kim, situado em uma área de baixa renda e propenso a inundações. Essa dicotomia espacial representa a divisão abissal entre ricos e pobres, onde a ascensão social é retratada como uma jornada física e simbólica para cima, enquanto a queda é sempre para baixo (FIRMIANO; NÓBREGA; LIMA, 2021). 

As escadas, elementos recorrentes na arquitetura das casas e na topografia da cidade, não são apenas meios de locomoção, mas símbolos da dificuldade e da raridade da mobilidade social. A cada degrau que os Kim sobem, a esperança de uma vida melhor parece mais próxima, mas a descida é sempre mais rápida e brutal, culminando na revelação do porão da casa dos Park. Este espaço, inicialmente oculto, revela uma camada ainda mais profunda de marginalização, onde um ex-empregado vive secretamente. Este porão simboliza a invisibilidade dos desfavorecidos e a forma como a estrutura social os empurra para as sombras, mantendo-os fora da vista da elite, que prefere ignorar a existência daqueles que sustentam seu privilégio.

Um dos elementos mais marcantes e perturbadores do filme é a obsessão da Sra. Park com o “cheiro” peculiar que ela percebe nos membros da família Kim. Este “cheiro” é uma metáfora para a marca indelével da pobreza, uma barreira invisível e intransponível que separa as classes sociais. Ele representa não apenas a falta de recursos materiais e a dificuldade de acesso a condições básicas de higiene, mas também a estigmatização e o preconceito que acompanham a condição de pobreza (SANTOS; SILVA, 2020). Para a família Park, o cheiro é um lembrete constante da “outridade” dos Kim, uma característica que, para eles, é intrínseca e inaceitável, independentemente de quão bem os Kim se esforcem para se integrar. Essa percepção revela a falta de empatia e a distância social que a elite mantém em relação aos menos afortunados, reforçando a ideia de que a pobreza é uma condição que “contamina” e que deve ser evitada a todo custo. O cheiro, portanto, transcende o sentido físico, tornando-se um símbolo da barreira psicológica e social que impede a verdadeira conexão entre as classes, perpetuando a segregação e o estranhamento.

A “pedra de estudioso” que o amigo de Ki-woo presenteia à família Kim é um objeto de múltiplos significados, que evolui ao longo da narrativa. Inicialmente, ela representa a esperança de sucesso e prosperidade, um amuleto que promete riqueza e um futuro acadêmico para Ki-woo. No entanto, ao longo do filme, a pedra se torna um símbolo da futilidade das aspirações e da violência inerente à luta por sobrevivência. A crença no “plano” da família Kim, meticulosamente elaborado para se infiltrar na casa dos Park, contrasta com a realidade caótica e imprevisível da vida. Enquanto os ricos podem se dar ao luxo de planejar e ter um futuro garantido, os pobres são forçados a improvisar e a reagir às circunstâncias, sem a segurança de um futuro estável. Essa dinâmica expõe a ilusão da meritocracia, onde o esforço individual dos Kim é constantemente sabotado pelas estruturas sociais e pela falta de oportunidades genuínas. A pedra, que deveria trazer sorte, acaba sendo usada como arma, simbolizando a transformação da esperança em desespero e violência, e a quebra da ilusão de que o mérito individual pode superar as barreiras sistêmicas da desigualdade.

A questão central que o filme levanta é: quem são os verdadeiros parasitas? À primeira vista, a família Kim, que se infiltra na casa dos Park e vive às suas custas, parece ser a resposta óbvia. No entanto, o filme subverte essa percepção ao sugerir que a família Park, com sua dependência de serviços e sua incapacidade de realizar tarefas básicas, também pode ser vista como parasita. Eles dependem da mão de obra e do trabalho dos outros para manter seu estilo de vida luxuoso, sem sequer reconhecer a humanidade daqueles que os servem. Essa inversão de papéis provoca uma reflexão profunda sobre as dinâmicas de poder e exploração presentes nas relações de classe (FIRMIANO; NÓBREGA; LIMA, 2021). A violência que irrompe no clímax do filme não é apenas um ato individual, mas uma manifestação da violência estrutural que permeia a sociedade, onde a opressão e a invisibilidade dos marginalizados culminam em explosões de desespero. A “geopolítica do espaço urbano” em Seul, com suas colinas e vales, reforça essa segregação, onde os ricos vivem no alto, protegidos, enquanto os pobres lutam para sobreviver nas áreas baixas, vulneráveis a desastres naturais e sociais. A “estética da violência” no filme não é gratuita; ela serve para chocar o espectador e sublinhar as consequências extremas da desigualdade, mostrando que a tensão social, quando ignorada, pode explodir de forma incontrolável.

Parasita é um filme que, através de sua narrativa envolvente e simbolismo rico, expõe as feridas da desigualdade social e as complexidades do sistema capitalista. A obra de Bong Joon-ho não oferece respostas fáceis, mas provoca o espectador a questionar as estruturas sociais e a refletir sobre a própria posição dentro delas. A tragédia que se desenrola no final do filme serve como um lembrete sombrio de que a desigualdade, quando ignorada, pode levar a consequências devastadoras para todas as camadas da sociedade. A universalidade de sua mensagem ressoa em diferentes culturas, tornando Parasita uma obra atemporal e essencial para a compreensão das tensões sociais contemporâneas, um espelho que reflete as contradições e injustiças de um mundo cada vez mais polarizado.

Referências

FIRMIANO, Frederico Daia; NÓBREGA, Joyce Perissinotto; LIMA, Lucas Francisco Maia de. Parasita e a luta de classes. Revista Livre de Cinema, v. 8, n. 2, p. 103-133, abr.-jun. 2021. Disponível em: https://www.relici.org.br/index.php/relici/article/view/307/380. Acesso em: 9 mar. 2026.

PARASITA. Direção: Bong Joon-ho. Produção: Kwak Sin-ae, Moon Yang-kwon. Seul: CJ Entertainment, 2019. 1 DVD (132 min ), son., color.

SANTOS, Cristiano de Jesus; SILVA, Marcelo de Jesus. Uma análise sociológica do filme “Parasita”. Café com Sociologia, v. 9, n. 2, p. 1267-1282, 2020. Disponível em: https://revistacafecomsociologia.com/revista/index.php/revista/article/view/1267/537. Acesso em: 9 mar. 2026.

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