Além das baleias: o autismo para além do estereótipo da genialidade

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A série sul-coreana Uma Advogada Extraordinária ganhou popularidade ao apresentar a trajetória de uma advogada autista com habilidades excepcionais. A produção chama atenção não apenas por sua narrativa, mas também pela forma como traz à tona discussões sobre inclusão, relações sociais e reconhecimento das diferenças. No entanto, ao mesmo tempo em que amplia a visibilidade do autismo, também provoca uma reflexão necessária: até que ponto essas representações realmente refletem a diversidade do espectro?

A protagonista, Woo Young-woo, é uma advogada de 27 anos recém-contratada por um dos maiores escritórios de advocacia de Seul. Diagnosticada na infância com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela apresenta um QI elevado, memória excepcional e uma capacidade de raciocínio criativo que a permite resolver casos complexos de maneiras pouco convencionais, utilizando seu hiperfoco por baleias. Por outro lado, enfrenta desafios importantes nas interações sociais, dificuldades na compreensão de emoções alheias e comportamentos repetitivos, como ecolalia e estereotipias motoras.

Embora a construção da personagem se baseie em características reais do TEA, sua representação evidencia uma tendência recorrente na mídia: a associação entre autismo e genialidade. A imagem de pessoas com Transtorno do Espectro autista, frequentemente vinculada a habilidades extraordinárias, tornou-se um recurso narrativo atrativo. No entanto, ao enfatizar esse perfil, corre-se o risco de invisibilizar a maioria das pessoas autistas, cujas vivências não envolvem talentos excepcionais. Mas, na prática, quantas pessoas dentro do espectro se reconhecem nesse tipo de representação?

Quando o autismo é retratado como uma espécie de genialidade que compensa dificuldades sociais, constrói-se uma visão distorcida da realidade. Essa lógica cria uma expectativa implícita de que o valor da pessoa autista esteja condicionado à sua “utilidade” ou desempenho extraordinário. Na série, as habilidades de Young-woo frequentemente ganham destaque, enquanto suas necessidades de suporte acabam ficando em segundo plano.

Ainda assim, a própria série oferece momentos importantes de contraponto. No episódio 3, por exemplo, surge o personagem Kim Jeong-hun, um jovem autista acusado de assassinato que não apresenta as mesmas habilidades cognitivas da protagonista. Sua presença amplia a narrativa ao evidenciar que o espectro autista é diverso e não se limita ao estereótipo do “gênio”. Esse contraste contribui para uma compreensão mais ampla, ainda que pontual, da complexidade do autismo.

Os impactos desses estereótipos vão além da ficção e alcançam a vida cotidiana de pessoas autistas e suas famílias. A ideia de que todo autista possui um talento oculto pode gerar expectativas irreais, frustrações e comparações injustas. Pais e educadores, por vezes, passam a buscar incessantemente uma “habilidade especial”, enquanto deixam de reconhecer outras formas legítimas de desenvolvimento. Além disso, representações centradas em perfis de alto funcionamento dificultam a identificação e o diagnóstico de indivíduos que não se encaixam nesse padrão, contribuindo para sua invisibilidade.

A representação do autismo na mídia, como observada em Uma Advogada Extraordinária, cumpre um papel ambivalente: ao mesmo tempo em que promove visibilidade, pode reforçar estereótipos limitantes. Nem todo autista possui habilidades extraordinárias e isso não diminui suas necessidades, potencialidades ou direito à inclusão. A verdadeira riqueza do espectro não está na excepcionalidade, mas na diversidade de formas de existir.

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