A falha na base segura e a teoria do apego em As Virgens Suicidas

Compartilhe este conteúdo:

O clássico filme ambientado no subúrbio americano dos anos 70, As Virgens Suicidas, contra a breve e angustiante vida de cinco irmãs através do olhar fascinado dos meninos da vizinhança. Sob o verniz de uma família tradicional, a trama desnuda um ambiente doméstico marcado pela rigidez da mãe e pela passividade do pai, resultando em um progressivo isolamento que sufoca a juventude das garotas. No drama, o que testemunhamos não é necessariamente a ausência de amor, mas a presença de um amor que se inclina para o patológico. 

A Teoria do Apego de John Bowlby explica como os laços que formamos com nossos cuidadores ainda na infância funcionam como um manual para todos os relacionamentos futuros. Embora ele possa ser reelaborado ao longo da vida, possui uma importância ímpar, principalmente quando falamos de crianças e adolescentes que estão começando a compreender os vínculos afetivos. Do ponto de vista de uma criança, imagine que ela busque proximidade e segurança; se os pais respondem com carinho e consistência, a criança entende que semelhantemente também assim o mundo a receberá e se sentirá mais segura para explorá-lo. Outrossim, se a criança recebe uma base rígida, instável ou ausente, isso também fará parte do seu acervo comportamental que afetará o modo de se relacionar. 

No caso das irmãs Lisbon, podemos identificar um tipo de apego mais marcante para com os pais: o Apego Desorganizado. Esse tipo de apego surge quando a figura que deveria oferecer proteção (os pais) torna-se fonte do medo ou do confinamento. A Sra. Lisbon, em sua rigidez e controle absoluto, e o Sr. Lisbon, em sua passividade omissa, criam um ambiente ambivalente onde o “porto seguro” é, simultaneamente, a cela que criaram para suas filhas. 

O mundo externo é pintado como perigoso, mas o mundo interno consegue ser emocionalmente estéril e invasivo.  Quando o cuidador é quem causa o trauma, a criança entra em colapso biológico e procura por estratégias para fugir da fonte do medo, mas a fote do medo é a única que ela tem para sobreviver. Esse paradoxo emocional leva as garotas a uma ruptura emocional e um desespero que as impede de visualizar um futuro funcional fora daquela estrutura imponente.

À medida que os pais as isolam do convívio social, ocorre outro fenômeno curioso: as irmãs parecem desenvolver uma interdependência absoluta.Sem amigos, sem escola e sem vozes externas, as irmãs tornam-se o único espelho uma das outras. Nesse isolamento, a dor de uma não acha alívio na outra irmã, criando um misto de amplificação sentimental. Aos poucos, elas deixam de ser indivíduos para se tornarem um organismo único. A esse tipo de influência é dado o nome de “folie à plusieurs”, ou seja, contágio emocional em nível extremo. Elas compartilham o mesmo desamparo aprendido baseado na certeza de que, não importa mais o que façam, pois a porta nunca mais será aberta novamente.

O trágico ato final é uma decisão quase que simbiótica. Elas se levam ao fim porque, em suas mentes, já não existem separadamente e, a perda da irmã mais nova não trouxe mudanças importantes no sistema familiar, logo, quem ficaria para trás na expectativa de que agora seria diferente? O “apego” que deveria ligá-las à vida através dos pais acabou por ligá-las umas às outras em direção ao vazio. Elas morrem juntas porque foram impedidas de crescerem separadas.  Ainda assim, para além de um drama sobre morte, a obra é na verdade uma revelação muito sensível sobre a perda da inocência, o controle repressivo e a busca desesperada por conexão em um mundo que é capaz de observá-las, mas não compreendê-las.

 

Ficha técnica e referências:

Título Original: The Virgin Suicides

Direção: Sofia Coppola

Roteiro: Sofia Coppola (Baseado no romance de Jeffrey Eugenides)

Ano de Lançamento: 1999 (Brasil: 2000)

Gênero: Drama / Romance

Duração: 97 minutos

 

Referência

BOWLBY, John. Formação e Rompimento dos Laços Afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Compartilhe este conteúdo:
Estudante de psicologia. Escritora criativa e transcritora de pensamentos nas horas vagas.

Deixe um comentário