Imagine-se sentado em uma sala de chá do século XIX, observando pela janela entornada por cortinas bordadas, um jardim podado e florido. Longe, no limite do cenário, é possível vislumbrar a natureza selvagem. Razão e Sensibilidade (1811) além de uma história de amor é também o estudo de caso sobre como a humanidade tenta encontrar equilíbrio em um mundo que “exige perfeição”
Quando conhecemos as irmãs Dashwood não é necessário muitas páginas para identificarmos as suas naturezas e, consequentemente, seus diferentes sistemas de defesa. Elinor, a irmã mais velha, é descrita como possuidora de uma compreensão muito profunda e uma frieza de julgamento que a tornavam, com apenas 19 anos, a conselheira de sua mãe. Devemos enfatizar que no livro a força de Elinor não reside na falta de sentimentos ou em um estoicismo de para-choque, mas na habilidade de governar suas afeições, sendo prudente e observadora das regras sociais.
Já Marianne, a irmã do meio, é em tudo, o oposto da moderação. O Livro deixa claro as diversas vezes em que expressa suas objeções e sentimentos sem receio, sendo apontada pela irmã como uma pessoa de opiniões muito românticas e que chegam a ser inconvenientes de modo que nem todos os encantos do entusiasmo e da ignorância poderiam compensar. Em vários momentos vemos a garota com toda a leveza da juventude, incluindo a vulnerabilidade emocional comum. Para ela, qualquer tentativa de controlar ou agir com cautela é uma forma de hipocrisia ou falta de profundidade. Marienne é a natureza selvagem em contraste com o jardim bem planejado de Elinor.
James Gross, psicólogo e professor da Stanford University, propõe que a emoção não seja um evento único e instantâneo, mas um processo que acontece em algumas etapas. segundo Gross, nós podemos interferir em qualquer uma dessas etapas, seja escolhendo situações ou mudando o foco da nossa atenção, ou enquanto ela está sendo processada pela mente mudando a forma como interpretamos o que aconteceu ou, ainda, depois que ela já surgiu, tentando controlar como o nosso corpo reage. Basicamente, Groos nos mostra que não somos escravos passivos de nossos sentimentos mas, para isso, precisamos usar nossas “ferramentas mentais” para reinterpretar a experiência emocional.
Elinor Dashwood, a representante da Razão, utiliza da reavaliação no momento em que interpreta os fatos. Quando Elinor descobre o compromisso secreto de Edward Ferrars, ela não desmorona por falta de sentimentos naquele momento, mas porque acredita conhecer Edward e, com base no que sabe sobre ele, permite-se contextualizar a situação para além do que escuta. A capacidade de mudar o significado do sofrimento a mantém funcional, é claro, mas o esforço consciente para esconder a expressão de seus sentimentos, a preço de manter as aparências sociais, é muito alto. Elinor gasta uma energia mental imensa, porém com custo é invisível, principalmente quando comparamos ao de sua irmã.
Por outro lado, para Marianne a vida só é real se for sentida na pele. De maneira quase profética, quando o seu coração não consegue processar o abandono de Willoughby, a dor psicológica, sem nenhum tipo de “filtro” ou reavaliação, transborda para o corpo em um processo de somatização. Enquanto Elinor se blinda através de uma engrenagem forçada excessivamente, Marienne se deixa inundar, mostrando que a sensibilidade, quando vira um culto ao próprio sofrimento, pode se tornar destrutiva.
No fim, acredito que Razão e Sensibilidade consegue trazer os alertas da dificuldade persistente em viver em sociedade e o perigo do discurso caricato comum que busca sempre sobrepor “cérebro e coração” No desfecho da história, podemos concluir que saúde mental não está em escolher o estoicismo de Elinor ou o sentimentalismo de Marianne, mas em equilíbrio. A irmã mais velha aprende que baixar a guarda e permitir que sua vulnerabilidade apareça, enquanto a irmã do meio descobre que a prudência e o desenvolvimento de ferramentas de regulação semelhantes às que Gross propõe não seriam inimigas das suas paixões, mas sim o que permite que a paixão sobreviva ao mundo real sem nos destruir.
Referencias:
Austen, J. (1811). Razão e Sensibilidade
Gross, J. J., & John, O. P. (2003). Diferenças individuais em dois processos de regulação emocional: Implicações para o afeto, relacionamentos e bem-estar. Journal of Personality and Social Psychology.
