Inveja, comparação e identidade: a crise do eu em Invejosa

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A série Invejosa, criada por Carolina Aguirre, apresenta uma narrativa que, sob o tom de comédia dramática, revela um conflito profundamente contemporâneo: a dificuldade de sustentar a própria identidade diante da constante comparação com o outro. A trama acompanha Vicky, uma mulher próxima dos 40 anos que, após um término amoroso, entra em uma crise existencial marcada pela inveja das conquistas afetivas e sociais de suas amigas. A série, ao mesmo tempo leve e incômoda, se constrói como um estudo psicológico sobre frustração, desejo e reconhecimento.

A história se desenvolve a partir de um ponto de ruptura: ao perceber que suas amigas estão em relacionamentos estáveis, Vicky confronta a sensação de estar “atrasada” em relação a um ideal de vida. Esse sentimento evidencia como os sujeitos constroem a própria identidade a partir do olhar do outro, processo que pode gerar intensos sentimentos de inadequação quando há discrepância entre a experiência vivida e os padrões socialmente valorizados. Essa dinâmica pode ser compreendida a partir das reflexões de Zygmunt Bauman (2001), ao discutir a fragilidade dos vínculos e a instabilidade das referências identitárias na modernidade, contexto no qual o indivíduo passa a se perceber constantemente em comparação com os demais. 

Do ponto de vista psicanalítico, a inveja que estrutura a personagem pode ser compreendida como um indicador de conflito interno. Para Melanie Klein (1957), a inveja está ligada à dificuldade de lidar com a falta e com aquilo que o outro possui, sendo um sentimento que pode gerar tanto desejo quanto destrutividade. No caso de Vicky, esse afeto não se limita a querer o que as amigas têm, mas se manifesta como sofrimento por não corresponder a um ideal internalizado de sucesso afetivo.

Além disso, o comportamento da personagem revela mecanismos de defesa descritos por Sigmund Freud (1923), como negação e projeção. Em diversos momentos, Vicky atribui aos outros a responsabilidade por suas frustrações ou evita reconhecer seus próprios padrões de escolha, o que contribui para a repetição de relações insatisfatórias. Esse movimento evidencia a dificuldade de entrar em contato com conteúdos psíquicos mais dolorosos.

Ao longo da narrativa, no entanto, observa-se o início de um processo de maior autorreflexão, aproximando-se da perspectiva humanista de Carl Rogers (1961), que enfatiza a importância da autenticidade e do autoconhecimento para o desenvolvimento pessoal. A possibilidade de reconhecer suas próprias contradições abre espaço para a construção de uma identidade menos dependente da validação externa.

Em uma dimensão mais ampla, Invejosa dialoga com uma experiência contemporânea recorrente: a sensação de insuficiência diante de padrões sociais de sucesso. A série evidencia como normas culturais e expectativas coletivas podem intensificar sentimentos de inadequação, transformando a inveja em um fenômeno não apenas individual, mas também social.

Por fim, a narrativa nos provoca a refletir: até que ponto nossos desejos são realmente nossos? A trajetória de Vicky sugere que o sofrimento não está apenas na ausência de determinadas conquistas, mas na dificuldade de sustentar uma existência que não corresponde às expectativas socialmente construídas.

Assim, Invejosa se apresenta não apenas como uma comédia sobre relacionamentos, mas como um retrato psicológico da busca por reconhecimento e pertencimento, e das tensões que emergem quando o valor de si passa a depender do olhar do outro.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Original publicado em 1923).

INVEJOSA. Criação: Carolina Aguirre. Direção: Gabriel Medina. Argentina: Kapow; Netflix, 2024–. 1 série de televisão (12 episódios).

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991. (Original publicado em 1957).

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997. (Original publicado em 1961).

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