Pluribus e a política da resistência confortável

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Pluribus é uma série especulativa criada por Vince Gilligan para a plataforma Apple TV+, que funciona como um espelho perturbador das dinâmicas de poder, resistência e privilégio na contemporaneidade. A narrativa acompanha Carol, uma mulher de classe média que se recusa a participar de um consenso social compulsório em uma sociedade aparentemente harmoniosa, enquanto os custos reais de sua intransigência são absorvidos por personagens periféricos como Manussos, um imigrante paraguaio.
A série transcende a dicotomia simplista entre conformismo e individualidade ao revelar como a resistência exercida a partir de posições privilegiadas frequentemente se converte em violência sistêmica contra os mais vulneráveis. Através da caracterização de personagens como Diabaté (representante da manipulação política pós-democrática), a obra questiona se a eliminação do conflito social constitui libertação ou forma de controle mais sofisticada que qualquer ditadura tradicional.

A ficção especulativa contemporânea raramente consegue escapar de seus próprios clichês sobre resistência e conformismo. A série de Vince Gilligan não é apenas mais uma fábula sobre conformismo versus individualidade; é um espelho partido onde cada fragmento reflete uma face diferente do poder, e onde a própria resistência se revela como uma forma de violência disfarçada de virtude.

Carol surge como uma protagonista que seduz nossa simpatia através do mais antigo dos artifícios narrativos: a rebeldia contra o sistema. Mas Gilligan, com a precisão que já demonstrara em Breaking Bad, constrói uma armadilha narrativa onde nossa identificação inicial se transforma em desconforto crescente. Carol não é Katniss Everdeen nem Winston Smith, ela é algo muito mais perturbador: uma rebelde de sofá, cuja resistência só é possível porque outros pagam o preço de sua intransigência.

A genialidade da série reside precisamente nessa subversão. Enquanto assistimos Carol recusar-se a participar do consenso coletivo, protegida pelas paredes de sua casa de classe média, Manussos, o paraguaio, sangra literalmente pelas consequências de sua própria resistência. É uma dinâmica que reproduz nossa realidade geopolítica: o Norte Global pode se dar ao luxo da dissidência filosófica enquanto o Sul Global arca com os custos materiais dessa mesma dissidência.

Pluribus não comete o erro simplista de romantizar nem o individualismo nem o coletivismo. A felicidade compulsória da sociedade retratada funciona como aquilo que Zygmunt Bauman chamaria de uma das características da modernidade líquida: a dissolução dos vínculos sólidos em favor de conexões fluidas e temporárias. O consenso não elimina apenas a dor, elimina a possibilidade de vínculos duradouros, substituindo-os por uma harmonia artificial que flui sem resistência, mas também sem substância. É uma versão sofisticada do soma de Huxley, onde o acordo não é imposto pela força, mas seduzido pela promessa de uma fluidez perpétua que dispensa o trabalho árduo da construção coletiva.

Diabaté, o personagem francês, representa a face mais sinistra dessa sedução: aquele que manipula o consenso em benefício próprio. Ele é o político perfeito da era pós-democrática, onde a eliminação do conflito se torna uma forma de controle mais eficaz que qualquer ditadura tradicional. Sua presença na narrativa funciona como um lembrete de que mesmo os sistemas mais benevolentes podem ser corrompidos por aqueles que compreendem suas mecânicas íntimas.

Entre esses polos, Manussos emerge como a única figura verdadeiramente humana, não porque seja moralmente superior, mas porque sua humanidade é testada no fogo da consequência real. Ele não pode se dar ao luxo da resistência abstrata nem da submissão confortável; cada escolha sua tem peso, textura, sangue. Há algo profundamente poético na forma como Gilligan constrói esse personagem. Manussos carrega em seu corpo a história que Eduardo Galeano narrou em As Veias Abertas da América Latina, não por acaso, a série evoca essa imagem de um continente que sangra pelas decisões tomadas em outros lugares. Ele é o Sul Global personificado, aquele que sempre paga o preço das escolhas feitas por outros, com outras possibilidades, em outras geografias. Sua resistência não é filosófica; é visceral, marcada no corpo, inscrita na carne como testemunho de uma história que se repete. 

Carol funciona como uma alegoria eficaz dos Estados Unidos no cenário mundial: uma potência que insiste em resolver tudo à sua maneira, que se ressente quando não é o centro da narrativa global, e que raramente considera os custos humanos de sua própria intransigência. Sua casa torna-se uma metáfora da fortaleza americana, protegida, isolada, capaz de resistir precisamente porque outros absorvem o impacto de sua resistência.

Essa leitura geopolítica da série não é forçada; ela emerge naturalmente da própria estrutura narrativa. Pluribus compreende que toda resistência individual, quando exercida a partir de uma posição de privilégio, inevitavelmente se torna uma forma de violência sistêmica contra aqueles que não possuem o mesmo luxo de escolha.

O que torna Pluribus de fato excepcional é sua recusa em oferecer soluções. A série compreende intuitivamente aquilo que Carl Schmitt formulou sobre a natureza da decisão política: ela sempre implica uma escolha entre alternativas inconciliáveis, e toda decisão carrega consigo a violência da exclusão. Em uma era saturada de narrativas que prometem redenção através da escolha correta, seja ela individual ou coletiva, a série abraça a impossibilidade como condição existencial. Não há saída limpa porque toda saída política é, por definição, uma forma de violência contra as alternativas não escolhidas. Não há posição moral pura porque toda posição se define em oposição a outra. 

Essa é, talvez, a lição mais amarga e necessária da série: reconhecer que toda escolha tem um custo, e que esse custo raramente é pago por quem faz a escolha. É uma ética da responsabilidade que vai além da ética da convicção, uma compreensão de que nossas ações reverberam através de redes de poder e privilégio que frequentemente ignoramos.

Pluribus pertence àquela categoria rara de ficção especulativa que funciona como horror existencial disfarçado de sátira social. O verdadeiro horror não está na sociedade distópica retratada, mas no reconhecimento de que nossa própria realidade já contém todos os elementos dessa distopia. A série não nos oferece o conforto da distância temporal ou espacial; ela nos força a reconhecer que já vivemos em Pluribus, que já somos Carol, que já pagamos o preço da resistência de outros.

A genialidade de Gilligan reside em sua capacidade de transformar essa lucidez devastadora em arte. Pluribus não é apenas uma crítica social; é uma obra de arte que usa a crítica social como matéria-prima para uma exploração mais profunda sobre a natureza do poder, da responsabilidade e da impossibilidade de inocência em um mundo interconectado. A série é uma celebração da complexidade humana, não a complexidade como confusão, mas como reconhecimento de que toda verdade contém sua própria contradição. A série nos convida a abandonar o conforto das posições morais absolutas e a abraçar a responsabilidade mais difícil de viver com as consequências de nossas escolhas.

É uma obra que exige de nós a mesma coragem que exige de seus personagens: a coragem de olhar para o espelho partido de nossa própria humanidade e reconhecer que cada fragmento reflete uma verdade diferente, igualmente válida e igualmente perturbadora. Em um mundo que nos pressiona constantemente a escolher lados, Pluribus nos lembra que a sabedoria pode estar na recusa de escolher, ou, mais precisamente, no reconhecimento de que toda escolha é, simultaneamente, uma forma de violência e uma forma de amor.

A série não nos oferece redenção, mas algo talvez mais valioso: a possibilidade de uma consciência política, uma forma de ver que não nos absolve de responsabilidade, mas que nos permite carregar essa responsabilidade com maior consciência de seu peso e de suas consequências. É, no final das contas, uma obra sobre a arte impossível de ser humano em um mundo onde toda humanidade é, inevitavelmente, política.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução Sergio Faraco. São Paulo: L&PM, 1970.

GILLIGAN, Vince (Criador). Pluribus. Apple TV+, 2024-2025. Série de televisão.

SCHMITT, Carl. The Concept of the Political. Chicago: University of Chicago Press, 1996.

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Edinei dos Reis Pereira, conhecido artisticamente como Ed Reis, é sacerdote da Arquidiocese de Palmas (TO), ordenado em 06/12/2008. Atualmente, atua como Vigário Diocesano Incardinado Residente na Paróquia Santo Antônio de Lisboa (Aureny III), em Palmas–TO. Natural de Campinas (SP), é bacharel em Filosofia pelo Instituto Canção Nova e em Teologia pelo Centro de Estudos Superiores Mater Dei; cursa Psicologia (9º período) na Ulbra Palmas. No campo artístico, desenvolve um ministério musical de evangelização. Lançou o álbum “Comigo Estás” (2021) — com faixas como “A Tua Graça Me Basta” e “Acalma‑Me” — e o single “Nada Muda o Teu Agir” (2022), disponíveis nas principais plataformas digitais. Como compositor, teve canções gravadas por Diego Fernando e pela Comunidade Canção Nova. É também escritor, com participação na “Antologia Literária de Palmas – Onde Mora o Girassol”. Possui formação em teatro, com experiência em atuação, direção e autoria de peças. Integra serviço pastoral, produção artística por meio da arte e da espiritualidade e do desenvolvimento humano

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