Suguru Geto: uma análise da depressão inscrita no processo simbólico de somatização e adoecimento ao “engolir maldições”

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Há personagens que não impressionam apenas pelo que fazem, mas pelo modo como se desfazem diante dos nossos olhos. Suguru Geto, de Jujutsu Kaisen, é um desses casos. Mesmo em um universo povoado por lutas grandiosas e figuras quase míticas, há algo nele que chama atenção de um jeito mais inquietante: sua queda nasce de um desgaste lento, quase íntimo, daqueles que vão se acumulando em silêncio até que já não sobre quase nada de pé. E talvez seja justamente por isso que ele permaneça tão fascinante. Geto não é um personagem que “muda de lado”; ele toca em um aspecto mais profundo, pois se mostra como o retrato de um idealismo que apodrece por dentro.

Para quem nunca viu o anime, Jujutsu Kaisen parte de uma ideia poderosa: emoções humanas negativas dão origem a maldições, entidades violentas que ameaçam o mundo, e cabe aos feiticeiros jujutsu enfrentá-las. É nesse cenário que Suguru Geto aparece, ainda jovem, como alguém brilhante, disciplinado e, acima de tudo, profundamente comprometido com a ideia de proteger os outros. Ao lado de Satoru Gojo e Shoko Ieiri, ele forma o trio de estudantes mais promissor de sua geração. Em vez de um rebelde impulsivo ou de um anti-herói temperamental, o anime nos apresenta, de início, alguém sério, contido, inteligente e moralmente orientado. Geto parece o tipo de pessoa que realmente acredita na importância de suportar o peso do mundo se isso significar poupar alguém de sofrer.

Mas há um detalhe decisivo em sua construção: o feitiço de Geto exige que ele absorva maldições e, depois, as engula para incorporá-las ao próprio arsenal. Essas maldições não são monstros quaisquer. Elas nascem justamente do acúmulo das emoções mais terríveis dos seres humanos: medo, ódio, ressentimento, angústia, repulsa, violência. E o anime faz questão de não tratar isso com neutralidade. Engolir maldições é descrito como uma experiência fisicamente horrível, repulsiva, nauseante. Não é apenas um gesto de combate; é uma forma de internalizar aquilo que há de mais podre no mundo. Antes mesmo de sua ruptura ideológica, o corpo de Geto já era convocado a fazer algo simbolicamente devastador: ele precisava sobreviver incorporando, repetidas vezes, o horror produzido pelos outros.

É aqui que a história se torna especialmente rica do ponto de vista psicológico. Porque Geto não apenas luta contra maldições. Ele engole aquilo que há de mais repugnante no mundo. Transformando em função aquilo que, em qualquer outro contexto, seria insuportável. Seu dom não é belo, limpo ou heróico no sentido mais luminoso da palavra. Seu dom é áspero. Sujo. Invasivo. Ele se torna útil justamente por conseguir suportar o que há de mais indigesto. E isso muda completamente o modo como olhamos para ele.

Narrativamente, o anime nos conduz por esse processo sem pressa, deixando que a ferida se forme aos poucos. A missão de proteger Riko Amanai não confronta Geto apenas com a morte, mas com algo ainda mais corrosivo: a percepção de que existem vidas entregues de antemão a uma engrenagem que se sustenta no sacrifício e chama isso de necessidade. A morte de Riko rompe uma crença. Ali, Geto perde a ilusão de que havia alguma dignidade preservada no centro daquele sistema. E é a partir desse abalo que sua queda ganha contornos mais nítidos. O que se instala nele ultrapassa o escopo de explosão da revolta, é um tipo mais sombrio de colapso: abatimento, saturação, apodrecimento interno. O luto, o horror de ver a si mesmo e aos amigos reduzidos à função de armas, o peso incessante de engolir maldições e o contato contínuo com o que há de mais degradante no humano vão produzindo desesperança.

Esse ponto importa muito. Há personagens que se tornam extremistas por ambição, prazer em dominar ou fascínio pelo poder. Geto parece seguir outro caminho. Seu extremismo nasce de uma crise de sentido. Ele havia organizado a própria identidade em torno de uma função altruísta: proteger os mais fracos, salvar vidas, fazer o que precisava ser feito. Isso não se limitava a uma simples tarefa; era a espinha dorsal do seu valor pessoal. Só que a realidade que se impõe diante dele começa a corroer justamente esse fundamento. Os chamados “fracos”, que ele acreditava precisar proteger, são também aqueles de cujas emoções nascem as maldições que matam, ferem e destroem. São também aqueles que se beneficiam do sacrifício dos feiticeiros sem sequer compreenderem o preço disso. Pouco a pouco, aquilo que sustentava sua missão passa a miná-la.

Em termos psicológicos, isso é especialmente violento. Quando alguém constrói o próprio senso de si a partir do cuidado, da proteção e da responsabilidade pelo outro, descobrir que esse mesmo outro é também fonte constante de destruição pode produzir um colapso profundo. O mundo deixa de ser um lugar duro, porém compreensível, e passa a parecer moralmente insustentável. O sujeito já não sabe mais onde depositar o próprio esforço, nem por que continuar oferecendo tanto de si a uma engrenagem que só devolve perda, nojo e exaustão.

No caso de Geto isso se torna ainda mais simbólico pois essa crise não se limita ao plano das ideias. Ela é corporal, e esse talvez seja um dos aspectos mais brutais de sua construção. Seu sofrimento não nasce apenas da consciência da injustiça ou da perda de alguém importante; ele se instala também porque seu corpo participa diretamente do trauma. Seu trabalho exige a repetição de um ato invasivo e repulsivo. Engolir maldições, uma e outra vez, torna-se uma espécie de metáfora brutal para aquilo que ele faz consigo mesmo emocionalmente: engole o horror, engole a indignação, engole o luto, engole o cansaço, engole o medo. Não há tempo psíquico para elaboração, só incorporação. E quando a dor não encontra linguagem, acolhimento ou pausa, ela não desaparece: ela desce para o corpo, se aloja, se acumula, pesa.

É aí que o anime se entrelaça em uma verdade profundamente humana: Geto é obrigado a incorporar o horror repetidamente. Ele o carrega no corpo, o acumula em silêncio, o somatiza. E esse acúmulo tem consequências psíquicas profundas. O que se vê em sua trajetória é, sim, um processo depressivo  (grave, progressivo e devastador), algo inscrito em seu semblante, na perda de sentido, no enfraquecimento do vínculo com o mundo e na corrosão da crença de que seu sacrifício ainda serve a alguma justiça possível. Geto aparece consumido por um cansaço que já ultrapassou a exaustão comum e atingiu a própria esperança. E talvez seja essa a dimensão mais trágica de sua queda: muito antes de sua ruptura ideológica se tornar visível, ele já estava adoecendo por dentro.

A amizade com Gojo e Shoko existe, e isso é importante. O anime deixa claro que há afeto verdadeiro ali. Mas afeto, por si só, nem sempre basta para salvar alguém de si mesmo. Sobretudo quando o sofrimento se torna intransmissível. Geto ama seus amigos, confia neles, caminha com eles. Ainda assim, aquilo que ele está vivendo parece cada vez mais solitário. Não porque estivesse literalmente sozinho o tempo todo, mas porque sua dor vai se tornando intraduzível. Existe algo de muito triste nisso: estar cercado por pessoas que importam e, mesmo assim, afundar porque o que corrói você por dentro já não consegue mais ser dividido em palavras.

Sua relação com Gojo intensifica ainda mais essa camada. Os dois se gostam, se reconhecem, se provocam, se equilibram. Mas a ascensão de Gojo, sua força quase inalcançável e o lugar excepcional que ele passa a ocupar, também aprofundam a distância entre eles. Não porque Gojo deixe de se importar, mas porque o sofrimento de Geto vai adquirindo uma textura diferente, silenciosa.

Há um ponto em que o sofrimento de Geto já não se apresenta apenas como dor, mas como ódio dirigido. O nojo, acumulado no corpo e na mente, deixa de ser sensação e se torna visão de mundo. Tudo aquilo que ele foi forçado a engolir passa a se ligar aos não-feiticeiros: são deles que nascem as maldições, é por causa deles que feiticeiros vivem exaustos, morrem cedo e são reduzidos a armas. O trauma repetido, o luto e a desesperança vão estreitando seu horizonte até que a realidade só parece suportável se dividida entre “nós” e “eles”. E é dessa cisão que nasce sua radicalização: não apenas a repulsa pelos não-feiticeiros, mas o desejo de eliminá-los, como se apagar a origem do horror fosse a única maneira de fazer cessar aquilo que o consumia por dentro.

Por isso sua história é tão mais triste do que uma simples virada de lado. O anime toma uma narrativa muito mais rica ao não mostrar um homem se tornando extremo, mas alguém tentando sobreviver ao próprio colapso psíquico e encontrando, nesta tentativa, uma forma cruel de continuar existindo. Esse processo exige uma leitura mais séria do que a oposição confortável entre herói e vilão. Geto adoece no caminho. E quando o sofrimento deixa de encontrar cuidado, quando o altruísmo vira condenação, quando o corpo se torna depósito do horror coletivo e o luto se mistura à exaustão, temos um cenário cruel. Talvez seja isso que torna Geto tão devastador: a sensação de que, antes de se perder dos outros, ele já vinha se perdendo de si mesmo.

Talvez por isso ele permaneça tão marcante. Porque sua história fala, de maneira fantasiada e extrema, sobre algo profundamente reconhecível: há pessoas que passam tanto tempo suportando o insuportável que, quando finalmente quebram, já não quebram de maneira visível. Quebram reorganizando a própria alma ao redor daquilo que as feriu. Geto é doloroso porque nos mostra que nem toda corrupção começa com desejo de destruir; às vezes ela começa com alguém tentando continuar, apesar de tudo, sem perceber que já está sendo consumido pelo que precisou carregar.

No fim, talvez o que mais assuste em Suguru Geto não seja sua violência, mas a delicadeza soterrada que ainda conseguimos enxergar sob os escombros. Como se, em algum lugar muito fundo, permanecesse o vestígio daquele jovem que quis proteger o mundo antes de aprender a sentir repulsa por ele. E talvez seja isso que torna sua trajetória tão triste: o colapso progessivo. Ser lentamente atravessado pelo indizível, até restar apenas a esperança quase impossível de que, ao final, alguém ainda seja capaz de deixar nele uma última marca, ou maldição.

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