O invisível que adoece: memória, trauma e o silêncio do Césio-137

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Em 1987, a cidade de Goiânia foi palco de um dos maiores acidentes radiológicos do mundo, conhecido como Acidente com o Césio-137 em Goiânia. A abertura de uma cápsula contendo material radioativo desencadeou não apenas contaminação física, mas também uma marca profunda e duradoura na saúde mental dos indivíduos diretamente e indiretamente afetados. Mais do que um evento isolado, o episódio revela como o invisível, nesse caso, a radiação, pode produzir efeitos psicológicos tão intensos quanto os danos biológicos.

Diferentemente de ameaças concretas e visíveis, a radiação carrega um caráter abstrato, silencioso e imperceptível aos sentidos. Essa característica potencializa estados de medo e ansiedade, uma vez que o perigo não pode ser facilmente identificado ou evitado. De acordo com Freud (1926/2014), a ansiedade está frequentemente ligada a situações em que o sujeito não consegue simbolizar completamente a ameaça, permanecendo em estado constante de alerta. No caso do Césio-137, a impossibilidade de perceber o risco de forma direta contribuiu para a intensificação do sofrimento psíquico.

Além disso, o evento pode ser compreendido à luz da teoria do trauma. Para autores como Judith Herman (2025), experiências traumáticas rompem a sensação de segurança e previsibilidade do mundo, afetando profundamente a organização psíquica do indivíduo. No contexto de Goiânia, não apenas os contaminados, mas também familiares e moradores da região vivenciaram sentimentos de medo, estigmatização e exclusão social. O trauma, nesse sentido, ultrapassa o evento em si e se prolonga nas suas consequências sociais e simbólicas.

A estigmatização foi um dos elementos mais marcantes após o acidente. Indivíduos associados à contaminação passaram a ser evitados, discriminados e, em alguns casos, isolados socialmente. Goffman (1988) define o estigma como um atributo que desqualifica socialmente o indivíduo, reduzindo-o a uma condição marcada pela diferença e rejeição. No caso do Césio-137, o “contaminado” deixou de ser visto como sujeito para ser percebido como risco, o que intensificou quadros de sofrimento psíquico, como depressão, ansiedade e sentimentos de não pertencimento.

Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, esse contexto pode ser interpretado como um ambiente altamente aversivo, no qual respostas de esquiva, isolamento e hipervigilância são reforçadas negativamente. Skinner (2003) aponta que comportamentos de fuga e esquiva tendem a se fortalecer quando associados à redução de estímulos aversivos, no caso, o medo da contaminação ou da rejeição social. Assim, o sofrimento psicológico não se limita ao evento inicial, mas é mantido por contingências ambientais posteriores.

Outro aspecto relevante diz respeito à memória coletiva. O acidente com o Césio-137 permanece vivo no imaginário social, sendo constantemente relembrado como um marco de dor e alerta. Halbwachs (2006) argumenta que a memória coletiva é construída socialmente e influencia a forma como os indivíduos significam suas experiências. Nesse sentido, o trauma não é apenas individual, mas compartilhado, atravessando gerações e moldando identidades.

Refletir sobre os impactos do Césio-137 na saúde mental é reconhecer que nem todos os danos são visíveis ou mensuráveis. O sofrimento psíquico, muitas vezes silencioso, revela que o cuidado em saúde precisa ir além do biológico, considerando também dimensões subjetivas, sociais e históricas.

Diante disso, permanece a provocação: como acolher aqueles que foram afetados por algo que não se vê, mas que continua sendo sentido? E, mais amplamente, como a sociedade pode elaborar coletivamente traumas que insistem em permanecer vivos na memória?

Referências

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Porto Alegre: L&PM, 2014.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

HERMAN, Judith Lewis. Trauma e recuperação: as consequências da violência: do abuso doméstico ao terrorismo político. Tradução de Afonso Celso da Cunha Serra. São Paulo: nVersos, 2025. Disponível em: https://play.google.com/store/books. Acesso em: 27 abr. 2026.

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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