Tudo bem não ser normal: It’s Okay Not Be Okay

“Quando você está cheio de emoções e você está perdendo o foco e você se sente exausto demais para respirar. Não se perca no momento ou desista quando estiver o mais perto. Tudo que você precisa é de alguém para dizer – “Tudo bem não estar bem” (Marshmellow feat Demi Lovato).

“Não se esqueça de nada. Lembre-se de tudo e supere. Se não superar, sempre será uma criança cuja alma nunca floresce.” (Ko Moon Young).

Essas duas frases nos levam a refletir que as pessoas nem sempre estão bem, elas em muitos momentos da vida irão se sentir péssimas por algum motivo. E tudo bem não se sentir bem, tudo bem não ser normal. O que precisamos é saber que não somos determinados por tudo que acontece conosco, somos sim influenciados por aspectos biopsicossociais e espirituais, mas até isso pode haver ou não relação com o que pode está acontecendo conosco. Não podemos mudar nosso passado, mas podemos aprender com ele, podemos utilizar as experiências complexas e difíceis para seguir em frente, para aprendermos a viver de outras formas, para que possamos vislumbrar dias melhores.

A canção do Marshmellow foi lançada em um período que as pessoas podem estar se questionando de como tem vivido a vida. Da mesma forma temos um Dorama que foi lançado nesse ano, mostrando pessoas diferentes, passando por momentos difíceis, sentindo-se desesperadas em suas vidas e não conseguindo até certo momento viver de outra forma. A música enfatiza bastante isso “Se sentindo perdido na ilusão, e ultimamente você está isolado pensando que você nunca terá sua chance, sentindo que você não tem solução, é só porque você é humano sem controle, está fora de suas mãos. Mesmo em situações angustiantes e que causem tamanho sofrimento, é possível pensar “Tudo bem não estar bem, tudo bem não estar bem, quando você está pra baixo e se sente envergonhado, tudo bem não estar bem”.

Para muitos a pandemia do Covid – 19 tem sido um divisor de água, muitos sobreviveram e outros mais irão sobreviver. Mas é possível mensurar todas as questões que atravessaram esse período de pandemia? Para Cepedes (2020) e Ornell, et al. (2020), em contextos de epidemia, muitas pessoas são afetadas psicologicamente e esse número costuma ser maior do que os atingidos pela enfermidade, podendo ainda haver mais da metade da população com consequências psicológicas.

Fonte: encurtador.com.br/EIT25

Revisão de estudos sobre situações de quarentena apontou alta prevalência de efeitos psicológicos negativos, especialmente humor rebaixado e irritabilidade, ao lado de raiva, medo e insônia, muitas vezes de longa duração (BROOKS et al., 2000). Contudo, dado o caráter inédito do distanciamento e isolamento sociais simultâneos de milhões de pessoas, o impacto da atual pandemia pode ser ainda maior, levando à hipótese de “pandemia de medo e estresse” (ORNELL et al., 2020). O que sabemos que as pessoas já viviam como podia, em contextos de crise, algumas conseguem acessar reservas emocionais que transpõem certas questões. Porém outras infelizmente são transbordadas de tal forma que podem piorar quadros clínicos já existentes ou manifestar outros jamais concebidos.

Uma forma positiva de ver situações complicadas com outra perspectiva é entrando em contato com outras realidades, mesmo aquelas às vezes fictícias. No drama “Tudo bem não ser normal” é contada a história de uma escritora de livros infantis com problemas de socialização e um enfermeiro que trabalha em hospitais psiquiátricos. Ko Mun Yeong é a típica narcisista, que faz tudo o que quer e sempre que quer algo vai atrás sem medir esforços. Já Moon Gang-Tae é um rapaz que vive para cuidar do irmão mais velho que apresenta diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), por terem que se mudar regularmente Gang-Tae não tem muitos amigos e se isola de quase tudo, trabalha com doentes mentais e prioriza seu irmão, ao invés si mesmo.

Os dois se cruzam depois de muitos anos, ambos vivem realidades muito diferentes, mas por conta do acaso passam a conviver novamente na pequena cidade onde moravam quando crianças. Época essa que marcou de forma terrível a vida dos protagonistas, os irmãos Moon tiveram que ir embora às presas, pois a mãe foi vítima de assassinato e a mãe de Mun Yeong desapareceu de forma misteriosa. Depois de muitos anos os três irão descobrir os fatos que culminaram na mudança dramática de vida deles.

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Mas antes disso, é perceptível que os personagens principais estavam estagnados, quase que respiravam para sobreviver e não para viver. Mun Yeong tinha tudo para ter uma vida digamos agradável, era uma escritora bem sucedida, reconhecida pelo talento herdado pela mãe (também era escritora, porém de suspense), contudo sentia que as coisas estavam sem sentido. Quando reencontra Gang-Tae começa a reconhecer as emoções de modo real e quanto mais tempo convive, não apenas com ele, também com seu irmão, seu maior fã. Sente que pode pela primeira vez voltar viver de novo, ou seja, começa a ir em busca da superação de seus medos e traumas do passado, como ela mesmo diz na trama “Um trauma deve ser encarado de frente, e não mitigado por trás”. A mesma tinha pais muito rígidos e não permitia que se vinculasse com ninguém. Por fim, a mãe lhe causava muito medo e angustia por querer lhe controlar (não é pouco controle, ela afastava todos do caminho da filha).

Já Gang-Tae sente que nunca viveu de fato, sempre teve que cuidar de seu irmão, mesmo quando a mãe estava viva tinha que fazer de tudo para que nada de ruim acontecesse com ele. Quando um infortúnio aconteceu, seu irmão quase se afogou e ele por um instante hesita em salvá-lo (por achar que todos seus problemas seriam resolvidos), passa a se culpa cada vez mais e depois que sua mãe morre, cuida do irmão e o coloca sempre em primeiro lugar. Nunca criando raízes, nunca fazendo o que gosta, pois assim acha que o irmão será de fato preservado. Quando vê novamente Mun Yeong começa a despertar para novas possibilidades, embora hesite em se aproximar da moça, por achar que ela vai atrapalhar ainda mais suas vidas. No fim, os dois tentam encontrar formas de equilibrar suas histórias, mas tudo que envolve o drama de suas vidas é ainda mais complicado do que parece, de alguma forma a morte e o desaparecimento de suas mães estão interligados.

Por fim temos o fofo e brilhante Moon Sang-tae, um homem muito inteligente, que adora dinossauros e pinta extremamente bem. Um dos problemas evidenciados no personagem é sua dificuldade em socialização e em aceitar que novas pessoas se vinculem a ele a seu irmão. Outro ponto é o seu trauma de borboletas, problema este que começou quando era mais jovem, por conta disso sempre que chega a primavera e as borboletas começam a aparecer em maior frequência, ele e o irmão precisam se mudar. No começo da trama quando Mun Yeong está determinada a se aproximar de seu irmão e o usa como desculpa para esse fato, ele não se incomoda de início, mas no decorrer da história isso traz complicações para os irmãos e muitas questões dolorosas vem à tona.

Fonte: encurtador.com.br/ALOT2

Tudo bem não ser normal, demonstra uma delicadeza e muita leveza os problemas advindos da vida complicada e marcada por traumas. Tudo isso mostrado através do poder das artes e as fortes ilustrações nos livros infantis. Por meio de histórias fortes, resilientes e muito dolorosas, que eram contadas em forma de metáfora em cada episódio. Marcando ainda mais quando a última publicação da autora é exposta, revelando a força existe das relações e os vínculos com as pessoas queridas. Pois, a forma que Mun Yeong encontrava para extravasar e demostrar suas emoções era por meio da escrita e muitas vezes na tentativa de evitar se transformar naquilo que mais temia, a mãe dura e medonha.

Outro ponto bastante relevante na trama são as histórias por trás dos pacientes psiquiátricos do Hospital OK, lugar este que visava ressignificar e tratar de forma humana os traumas, os transtornos e os problemas advindos da vida deles. Todos os personagens principais percebiam o peso que era carregar um estigma na sociedade, sendo muitas vezes evidenciado no discurso por exemplo nos familiares dos pacientes, em amigos etc. Eles conseguiram também mesmo com dificuldades se inserir na vida destas pessoas, que de certa forma também auxiliam na tomada de consciência, de que a vida muitas vezes é complicada por muitos fatores. Todavia, quando se há perspectivas futuras, uma rede de apoio para abarcar tais questões, tratamento e intervenções pautadas nessas necessidades, é possível haver diferença significativas, que irão transformar a vida dessas pessoas.

It´s Ok Not Be Okay mostra que é possível ressignificar traumas, conflitos e pensamentos de impossibilidade. O ser humano é dotado de inteligência, habilidades e capacidades inimagináveis, é preciso falar sobre as dificuldades, dar uma chance para resolver os problemas da vida. Tudo bem não ser normal, pois não somos feitos de fatos ou de momentos, somos feitos de tudo. É importante lembrar que todo mundo pode passar por um momento difícil da na vida, que tal contexto não nos define e de perto ninguém é normal.

“O que a bruxa sombria tinha roubado deles não eram seus rostos de verdade, mas sua coragem de encontrar a felicidade.” (Ko Moon Young).

#psycho but it's okay from only kim hanbin
Fonte: encurtador.com.br/kmqPR

REFERÊNCIAS

BROOKS, S. K., et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The Lancet, v. 395, n. 10227, p. 912-920, March 2020.

CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EMERGÊNCIAS E DESASTRES EM SAÚDE; FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Saúde mental e Atenção Psicossocial na Pandemia COVID-19: Recomendações gerais. Brasília, 2020 a.

ORNELL, F. et al. “Pandemic fear” and COVID-19: mental health burden and strategies. Braz. J. Psychiatry, São Paulo, 2020. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462020005008201&lng=en&nrm=iso>.