Adoráveis Mulheres e a construção da identidade feminina

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Poucos filmes recentes colocam a questão da identidade feminina de forma tão explícita quanto Adoráveis Mulheres (2019), de Greta Gerwig, baseado no romance homônimo de Louisa May Alcott, publicado originalmente em 1868. Ao acompanhar as quatro irmãs March (Jo, Meg, Beth e Amy) diante das mesmas circunstâncias históricas e familiares, o filme mostra que identidade feminina não é um dado único, mas um processo: a partir de um mesmo repertório de possibilidades, cada irmã constrói uma versão diferente de si mesma como mulher. Duas falas ajudam a situar essa construção. A primeira, dita por Jo à mãe: “mulheres têm mentes e têm almas, além de corações […] estou tão cansada de as pessoas dizerem que o amor é a única coisa que serve às mulheres. […] Mas… eu me sinto tão sozinha”. A segunda, dita por Amy a Laurie: “não me diga que casamento não é um acordo econômico, porque é”. Juntas, as duas falas desenham o campo em que a identidade feminina, no filme, se constrói: entre o desejo de ser mais do que se espera de uma mulher e a consciência das condições materiais que delimitam o que, de fato, parece possível.

A Psicologia Social e os estudos de gênero discutem há décadas a identidade como uma construção que acontece nas relações sociais e culturais. Trata-se de um processo contínuo, no qual se articulam aquilo que o sujeito deseja ser e as possibilidades oferecidas pelo contexto em que está inserido. Joan Scott (1990) compreende o gênero como uma categoria relacional e socialmente construída, que organiza de maneira desigual as relações de poder, o trabalho e as possibilidades de homens e mulheres em diferentes momentos históricos. Esse contexto ajuda a compreender por qual razão Jo, Meg, Beth e Amy, embora tenham sido criadas na mesma casa e pelos mesmos pais, constroem identidades tão diferentes. Cada uma responde à sua maneira às expectativas sobre o que significa ser mulher, aceitando algumas, recusando outras e negociando com muitas delas.

Jo constrói sua identidade pela recusa. Ela rejeita o casamento que não deseja e não aceita reduzir sua identidade ao papel de esposa, encontrando na escrita e na autonomia formas de afirmar quem deseja ser. Meg, por sua vez, constrói-se pela escolha do vínculo, aceitando algumas privações materiais em troca de uma vida ao lado de quem ama. Beth constrói-se a partir dos afetos e do cuidado, encontrando sentido na proximidade com a família e nas relações que estabelece, ainda que sua trajetória siga um caminho diferente daquele marcado pela independência e pela realização profissional. Amy, por fim, constrói sua identidade a partir de uma compreensão mais pragmática das condições que cercam as mulheres de seu tempo, reconhecendo o casamento também como uma questão de segurança e estabilidade.

Simone de Beauvoir (2009) oferece uma chave importante para pensar essas diferentes construções. A autora argumenta que a liberdade humana nunca se exerce no vazio, mas sempre parte de uma situação, formada por condições materiais, sociais e históricas que delimitam o que parece possível, desejável ou sequer imaginável para um sujeito. Aplicada às irmãs March, essa ideia permite evitar duas armadilhas comuns ao discutir a identidade feminina. A primeira é tratar as escolhas de cada uma como plenamente livres, como se dependessem apenas da força de vontade individual. A segunda é considerá-las inteiramente determinadas, como se essas mulheres não tivessem agência sobre a própria construção de si. Meg escolhe o amor sabendo o que isso custa, enquanto Amy escolhe, por um tempo, a possibilidade de um casamento vantajoso, também consciente do que isso implica. Ambas fazem escolhas, mas dentro de um repertório de identidades possíveis que já é delimitado pelas normas de gênero de sua época. É justamente essa relação entre agência e condicionamento que torna a construção da identidade feminina no filme mais complexa do que uma simples oposição entre mulheres livres e mulheres oprimidas.

A construção de Jo é a que mais evidencia esse duplo movimento. Sua identidade se organiza em torno da recusa e da ambição, mas o próprio filme não apresenta essa construção como uma afirmação totalmente triunfante. À fala sobre estar cansada de reduzir as mulheres ao amor, segue-se a confissão de sua solidão. Bell Hooks (2021) argumenta que o amor não deveria ser compreendido como um destino passivo, algo que simplesmente acontece a alguém, mas como uma prática e uma escolha contínua. Essa perspectiva ajuda a compreender que a solidão de Jo não invalida sua busca por autonomia, assim como sua autonomia não elimina seu desejo de estabelecer vínculos. Esses dois aspectos fazem parte de uma mesma identidade em construção e não precisam ser colocados em oposição.

Cada construção tem um custo e o filme não o esconde. Meg vê de perto o conforto material ao qual precisará renunciar, enquanto Amy é questionada por reconhecer de forma direta as condições econômicas envolvidas no casamento. Beth tem sua trajetória interrompida antes de qualquer grande escolha pública e Jo, ao publicar seu livro, precisa negociar com um editor que exige que sua heroína se case para agradar ao leitor. Esse detalhe expõe, com ironia, como até uma narrativa sobre uma mulher que buscava autonomia precisava lidar com as convenções que cercavam a representação feminina naquele contexto.

As trajetórias das quatro irmãs, portanto, mostram que a construção da identidade feminina não acontece de forma isolada das expectativas sociais. Cada uma estabelece diferentes relações com o casamento, o trabalho, a família, o cuidado e a autonomia, revelando que não existe uma única maneira de ocupar o lugar de mulher. Ao apresentar essas diferenças sem reduzi-las a uma oposição simples entre liberdade e submissão, o filme permite compreender a identidade feminina como um processo atravessado tanto pelas escolhas individuais quanto pelas condições sociais e históricas que definem quais possibilidades estão disponíveis para cada sujeito.

Mais de cento e cinquenta anos depois da publicação do romance de Alcott, a construção da identidade feminina continua sendo um processo atravessado pelo encontro entre desejo e possibilidade, autonomia e vínculo, escolhas pessoais e condições sociais. O filme de Gerwig não resolve essas tensões, mas talvez seja justamente isso que o torne relevante. Ao acompanhar trajetórias tão diferentes entre si, a obra mostra que a identidade não é algo pronto que simplesmente se descobre, mas algo que se constrói ao longo da vida, a partir das escolhas de cada sujeito e das circunstâncias sociais e históricas que também participam desse processo.

Referências

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução Sérgio Milliet. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

GERWIG, Greta (dir.). Adoráveis Mulheres [Little Women]. Estados Unidos: Columbia Pictures, 2019. 135 min.

HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução: Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 5-22, jul./dez. 1990.

 

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