Existem famílias em que falar sobre o que se sente parece sempre perigoso. Não porque alguém proíba diretamente, mas porque certas emoções aprendem, muito cedo, a ocupar pouco espaço dentro da casa. Em ‘O ninho’, de Bethânia Pires Amaro, o desconforto nasce justamente dessas relações em que afeto, culpa, silêncio e sufocamento convivem o tempo inteiro.
Os contos reunidos na obra não se organizam em torno de grandes acontecimentos ou revelações. O que move a narrativa são situações aparentemente comuns, como uma mãe que cria uma filha sozinha, uma mulher atravessando os primeiros meses da maternidade, pessoas que permanecem ligadas umas às outras mesmo quando o afeto já não encontra formas simples de se expressar. Aos poucos, porém, aquilo que parecia cotidiano revela rachaduras profundas.
Vencedora do Prêmio Sesc de Literatura e posteriormente reconhecida com o Prêmio Jabuti, Bethânia Pires Amaro constrói uma escrita atenta aos pequenos deslocamentos da vida emocional. Em seus contos, o sofrimento raramente chega de maneira espetacular. Ele se instala devagar, misturado aos hábitos, aos cuidados diários, às palavras que deixam de ser ditas e aos papéis que cada pessoa aprende a ocupar dentro da família (Sesc, 2024).
Talvez por isso a leitura provoque uma sensação tão particular. Ao terminar alguns dos contos, não é exatamente a história que permanece na memória, mas certas imagens: uma mulher exausta tentando cuidar da filha recém-nascida, uma adolescente observando a deterioração da mãe, pessoas que continuam amando enquanto já não sabem como viver umas com as outras.
Entre os textos da coletânea, “Leite de cacto” e “O fruto da árvore” chamam atenção pela maneira como retratam mulheres cuja vida emocional parece constantemente atravessada pelas necessidades de outras pessoas. Embora situados em momentos distintos da vida, a maternidade em um caso e a adolescência no outro, ambos acompanham personagens que aprendem a organizar suas existências em torno do cuidado, da vigilância e da responsabilidade pelos que amam. É a partir dessas narrativas que as reflexões de Teresa Maria de Azevedo Pires Sério (2005) ajudam a iluminar alguns aspectos da obra.
O que fica guardado nos armários
Em “O fruto da árvore”, a narradora cresce observando a mãe. Antes mesmo de compreender o que era dependência emocional ou alcoolismo, ela já reconhecia os sinais espalhados pela casa: as garrafas escondidas, os desaparecimentos, as mudanças de humor que alteravam a rotina de todos ao redor.
Quando Roni entra na vida da mãe, a menina acompanha a esperança de que algo finalmente se organize. Mas a estabilidade prometida nunca chega. Em vez disso, ela assiste à repetição de relações marcadas por ausências, frustrações e tentativas sucessivas de recomeço.
O conto não transforma a mãe em personagem condenável. Bethânia a apresenta como alguém atravessada por fragilidades, desejos e perdas. É justamente essa complexidade que torna a narrativa tão dolorosa. A filha não observa apenas os erros da mãe; observa também seu sofrimento.
Sem perceber, ela passa a ocupar uma posição que não deveria ser sua. Aprende a antecipar crises, a monitorar sinais e a interpretar estados emocionais que nem sempre são explicitados. Enquanto a mãe tenta sobreviver às próprias dores, a filha cresce desenvolvendo uma atenção constante ao mundo emocional dos outros.
Mulheres que cuidam até desaparecer
Se em “O fruto da árvore” acompanhamos uma filha observando a mãe, em “Leite de cacto” somos colocados diante de uma mulher que parece já não conseguir encontrar a si mesma.
A narradora atravessa os primeiros meses após o nascimento da filha carregando exaustão, medo e culpa. A maternidade, frequentemente apresentada como experiência naturalmente gratificante, surge aqui em sua dimensão mais ambígua. O amor pela criança não elimina o cansaço, nem dissolve a sensação de perda que acompanha a personagem.
Depois de um acidente envolvendo a bebê, a culpa passa a ocupar todos os espaços. O choro da filha, as noites mal dormidas e os cuidados incessantes parecem se fundir numa única experiência de esgotamento.
Em determinado momento, a narradora reconhece sentir-se “confinada àquela imagem de mãe e filha, dominante o suficiente para apagar quaisquer indícios da mulher que fui” (Amaro, 2023, p. 19). A força da passagem está justamente na recusa de romantizar essa experiência. Não se trata de falta de amor. Trata-se da dificuldade de continuar existindo quando uma única identidade passa a ocupar todo o espaço disponível.
Bethânia escreve essa tensão com delicadeza. Não há julgamentos nem respostas prontas. Há uma mulher tentando nomear uma experiência para a qual muitas vezes a cultura oferece apenas idealizações.
Aprender a olhar para si
Ao discutir a construção do autoconhecimento, Sério (2005) questiona a ideia de que as pessoas descobrem sozinhas quem são. Aprendemos a reconhecer nossos sentimentos, desejos e experiências nas relações que estabelecemos ao longo da vida.
Essa reflexão ajuda a lançar luz sobre os personagens de ‘O ninho’. Não porque os contos tratem diretamente de autoconhecimento, mas porque mostram pessoas cuja vida emocional é construída em contextos onde nem sempre existe espaço para reconhecer o próprio sofrimento.
A filha de “O fruto da árvore” aprende a observar a mãe antes de aprender a observar a si mesma. Já a narradora de “Leite de cacto” tenta compreender uma experiência que parece escapar às palavras disponíveis para descrevê-la. Em ambos os casos, existe uma dificuldade semelhante: encontrar lugar para a própria experiência quando a atenção está constantemente voltada para as necessidades dos outros.
Talvez seja essa uma das questões que atravessam o livro. Algumas personagens parecem carregar sentimentos que nunca encontraram escuta suficiente para serem compreendidos plenamente. Não porque lhes faltem emoções, mas porque lhes faltam condições para reconhecê-las como parte legítima de suas próprias histórias.
O que aprendemos dentro de casa
Bethânia não escreve sobre famílias perfeitas nem sobre famílias destruídas. Seus contos se interessam pelos espaços intermediários, onde convivem afeto e ressentimento, cuidado e sobrecarga, proximidade e solidão.
Ao longo da leitura, torna-se difícil não pensar em tudo aquilo que aprendemos dentro de casa sem que ninguém precise ensinar diretamente. Aprendemos maneiras de amar, de cuidar, de esconder dores e de responder às expectativas dos outros. Aprendemos quais sentimentos podem ser expressos e quais devem permanecer guardados.
Em ‘O ninho’, essas aprendizagens aparecem inscritas nos gestos cotidianos das personagens. Elas perpassam as vidas de mães e filhas, moldam relações e permanecem agindo mesmo quando já não são percebidas.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais os contos de Bethânia permanecem na memória. Eles nos lembram que a vida familiar não é feita apenas de lembranças compartilhadas e laços afetivos. Ela também é composta pelas histórias que carregamos sem perceber, pelas ausências que aprendemos a contornar e pelas palavras que nunca encontramos coragem, ou oportunidade, de dizer.
Referências
AMARO, Bethânia Pires. O ninho. Rio de Janeiro: Record, 2023.
SÉRIO, Teresa Maria de Azevedo Pires. A concepção de homem e a busca de autoconhecimento: onde está o problema? In: BANACO, Roberto Alves (Org.). Sobre comportamento e cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e teoria cognitivista. 2 d. Santo André- SP: ARBytes, v.1,1999. p. 209-216.
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO (SESC). O ninho: revelado pelo Sesc, consagrado pelo Jabuti. Rio de Janeiro, 21 nov. 2024. Disponível em: https://www.sesc.com.br/noticias/cultura/o-ninho-revelado-pelo-sesc-consagrado-pelo-jabuti/. Acesso em: 29 maio 2026.
