Publicado em 1857, Madame Bovary, a obra-prima incontestável de Gustave Flaubert, escandalizou a sociedade francesa de tal forma que rendeu ao seu autor um severo processo judicial. Contudo, lido sob as lentes da psicologia contemporânea, o romance revela-se muito mais do que a crônica de um adultério no século XIX. É, na verdade, um estudo sobre a incapacidade humana de tolerar a frustração e a mediocridade do cotidiano, abordando o silenciamento do desejo feminino e a dependência do casamento como destino incontestável.
A protagonista, Emma, é tão complexa que inspirou o filósofo Jules de Gaultier a cunhar o termo “Bovarismo”. O conceito descreve uma alteração do sentido da realidade na qual o indivíduo concebe a si mesmo e a sua vida de forma altamente idealizada, recusando-se a aceitar as suas limitações reais. Emma é a eterna insatisfeita, uma consumidora voraz de romances folhetinescos que a convenceram de que a existência deveria ser uma sucessão ininterrupta de êxtases, paixões arrebatadoras e luxo.
Estruturalmente, o romance é dividido em três partes que acompanham a escalada de sua ruína. A primeira foca em Charles, apresentando a sua trajetória e personalidade pacata, o encontro com Emma e o casamento. Essa fase culmina na dura constatação da protagonista de que o matrimônio jamais lhe traria a felicidade projetada pelos livros.
“(…)persuadiu-se sem dificuldade de que sua paixão de Charles não tinha nada de exorbitante. Suas expansões tinham se tornado regulares; ele a beijava em certas horas. Era um hábito entre outros, e como uma sobremesa prevista, depois da monotonia do jantar (…) – Por que, meu Deus, eu fui me casar? ( p.125)
É na segunda parte, após a quebra brutal dessa ilusão, que o tédio se torna insuportável e ela cede à traição, inicialmente de forma mais sentimental, mas que logo se concretiza fisicamente com o seu primeiro amante, Rodolphe. Percebemos Emma ainda iludida e imatura que não consegue perceber a máscara do seu amante que a abandona de forma fria e calculista, após perceber que a paixão de Emma estava tomando proporções maiores, momento em que ela cai novamente em uma depressão.
“Sou sua serva e sua concubina! você é meu rei, meu ídolo! você é bom! É belo! É inteligente! É forte!
Ele tinha escutado tantas vezes essas coisas, que já não tinham para ele nada de original. Emma era parecida com todas as amantes ( p.296)
Na terceira parte, uma Emma já mais madura em suas quedas e desprovida de ilusões entrega-se ao seu segundo amante, o jovem Léon, por quem antes nutriu apenas um desejo platônico. Aqui, a traição perde o verniz do romantismo rural e ganha contornos de vício e degradação moral. A famosa cena da carruagem em Rouen (onde o sexo não é descrito, mas fica implícito no movimento frenético e descontrolado do veículo pela cidade) marca a rendição total de Emma aos impulsos. A mentira torna-se, então, institucionalizada, acobertada por suas falsas “aulas de piano”.
“Ele não discutia as ideias dela; aceitava todos os seus gostos; ele se tornava a amante dela mais do que ela a dele. Ela tinha palavras ternas com beijos que lhe roubavam a alma. Onde é que ela aprendera essa corrupção, quase imaterial à força de ser profunda e dissimulada?” ( p.396)
É neste cenário de vulnerabilidade que o comerciante Lheureux atua como o verdadeiro algoz, ao perceber a culpa e o desespero de Emma, usando-os para prendê-la numa teia de dívidas impagáveis. A ruína moral caminha de mãos dadas com a sua ruína financeira. Quando ela pede ajuda a Rodolphe e é friamente rejeitada, a dura realidade do dinheiro quebra o encanto de vez. O amor fantasiado, percebe ela tarde demais, não resiste à chegada da fatura.
Flaubert não concede a Emma a redenção poética das heroínas românticas. O seu suicídio por ingestão de arsênico é descrito com requintes de crueldade médica, agonizante e desprovido de qualquer glamour (o autor pesquisou profundamente os efeitos do veneno na biologia do corpo humano para descrevê-lo em sua personagem). No entanto, a verdadeira tragédia do livro não reside na morte de Emma, mas no destino dos sobreviventes.
O autor mostra-nos que as vítimas reais da idealização não são apenas os que sonham, mas os inocentes que orbitam ao redor deles. Charles morre de tristeza e desilusão, abraçado às cartas de traição da esposa. O jovem aprendiz Justin chora sozinho e culpado por ter lhe deixado pegar o arsênico no laboratório. E a pequena Berthe, filha de Emma e Charles, a vítima mais negligenciada de toda a história, termina órfã, destituída de tudo e enviada para trabalhar numa fiação de algodão.
A última e mais cínica mensagem do livro fica por conta do Sr. Homais. O farmacêutico hipócrita, vaidoso e calculista não apenas sobrevive, como prospera, recebendo a mais alta honraria do país.
Para além da jornada trágica e fascinante de Emma, convido a todos que leiam a obra e descubram a imensa riqueza psicológica que Flaubert teceu magistralmente nas entrelinhas. Cada personagem secundário carrega em si um universo de complexidades: da passividade de Charles à hipocrisia inabalável do Sr. Homais, passando pelos silêncios, pelas pequenas covardias cotidianas e pelos desejos inconfessáveis que moldam a aldeia de Yonville. Madame Bovary deixa-nos, assim, uma reflexão instigante e atemporal: num mundo onde a busca incessante e egoísta pelo ideal destrói a vida real, quem acaba por vencer é a mais pura, calculista e fria superficialidade.
