A literatura, muitas vezes, permite que certas experiências humanas sejam narradas de forma mais sensível do que aquelas encontradas nos discursos científicos tradicionais. Há vivências que nem sempre aparecem em livros teóricos, mas que surgem com força nas histórias, nos personagens e nas imagens que a literatura constrói. Em ‘Flor de Gume’, de Monique Malcher, encontramos não apenas contos, mas experiências de vida narradas a partir do corpo, da memória, da família, do trabalho e da travessia.
Monique Malcher é escritora, artista plástica e jornalista paraense, e sua escrita costuma abordar temas como memória, infância, corpo, trabalho e experiências femininas vividas em contextos marcados por desigualdades sociais. ‘Flor de Gume, seu livro de estreia publicado em 2020, recebeu o Prêmio Jabuti em 2021, um dos mais importantes prêmios da literatura brasileira, e reúne contos que narram experiências de mulheres atravessadas pelo trabalho, pela família, pela pobreza, pelas responsabilidades assumidas desde cedo e pelos deslocamentos constantes entre cidades e comunidades ribeirinhas. Ao escrever essas histórias, Malcher dá visibilidade a experiências que muitas vezes não aparecem na literatura tradicional e registra trajetórias de mulheres marcadas pela travessia, pelo trabalho e pela resistência, convidando o leitor a conhecer realidades e histórias que, por muito tempo, permaneceram pouco narradas.
Além disso, é importante considerar que as histórias narradas por Monique estão situadas em um território específico, a região Norte do Brasil, com abundante presença de rios, embarcações, cidades pequenas e deslocamentos constantes. Esse espaço não aparece apenas como cenário, mas como parte das próprias condições de vida das personagens. As águas, a travessia, a distância e o trabalho fazem parte do cotidiano feminino e participam da forma como elas aprendem, desde cedo, a viver, a trabalhar, a cuidar e a se relacionar com o mundo. Em ‘Flor de Gume’ o território, nesse sentido, não é apenas geográfico, mas também social e corporal, pois é nesse conjunto de condições que a vida de muitas mulheres que ali vivem se constrói.
Aqui abordaremos apenas dois contos do livro: ‘Boca de Lobo’ e ‘O barco e as cartografias da esperança’. A escolha não é aleatória. Em ambos, a experiência feminina é narrada a partir da infância, das relações familiares e do contato direto com o território, fazendo da vivência sensível o ponto de partida da narrativa. Esses elementos permitem compreender a experiência feminina como espaço de memória e de aprendizagem e favorecem uma reflexão sobre a construção da subjetividade a partir das relações sociais e das histórias vividas pelas personagens.
Pensar o corpo como território é reconhecer que a história de vida se inscreve na própria experiência de existir. Aprende-se a sentir, reagir, se proteger, se cansar e resistir a partir das condições concretas em que se vive. Não se trata apenas de uma dimensão biológica, mas de um modo de estar no mundo que se constrói em determinados lugares, sob regras sociais específicas e em contextos marcados por limites e possibilidades. Por isso, a experiência vivida também é memória e história, uma vez que carrega as marcas do que foi aprendido ao longo da vida.
No conto ‘Boca de Lobo’, Malcher apresenta essa ideia a partir das experiências da infância da narradora. O medo de cair no rio, de não saber nadar e das pontes improvisadas revela uma aprendizagem construída no contato direto com o risco. Aprende-se o perigo, o cuidado e a atenção. Mas aprende-se também o pertencimento. Quando a narradora afirma que viajar de barco era “[…] voltar para o que sou” (Malcher, 2022, p. 15), fica evidente que lugares, sons e movimentos são reconhecidos como parte da própria identidade, como se a história vivida permanecesse ali, incorporada.
Ao mesmo tempo, essa experiência ensina limites. Aprende-se que há espaços onde não se deve estar e que certos lugares não são permitidos. Quando a mãe indica quais partes do barco pertencem aos homens, não se trata apenas de uma orientação prática, mas da transmissão de uma regra social. Aos poucos, a experiência feminina vai sendo moldada por aprendizados que envolvem cuidado, medo, silêncio e vigilância.
Um dos principais nomes da Psicologia comportamental, B. F. Skinner (2006), dedicou sua obra a compreender como o ambiente participa da construção do comportamento humano. Para o autor, não somos movidos apenas por decisões conscientes, mas também pelas consequências que nossas ações produzem ao longo da vida. Ao receber cuidado, punição, afeto, rejeição, reconhecimento ou violência, o indivíduo aprende formas de agir, de sentir e de se relacionar com o mundo. Essas experiências constroem uma história de vida, e é a partir dessa história que o comportamento passa a fazer sentido.
Emmanuel Zagury Tourinho (2009) amplia essa discussão ao propor que aquilo que chamamos de subjetividade também deve ser compreendido como parte dessas relações. Sentimentos, emoções e pensamentos não são algo separado do mundo, mas formas de relação que se constroem na história de vida de cada pessoa, nas relações sociais, na linguagem e nas práticas culturais. Assim, a subjetividade não é algo que nasce pronta dentro do indivíduo, mas algo que se constrói nas relações que ele estabelece ao longo de sua vida.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que, em ‘Flor de Gume’, o corpo aparece como um lugar tão central. É no corpo que essas relações se inscrevem. As experiências vividas ao longo da infância, nas relações familiares, no trabalho e nas condições sociais não permanecem apenas como lembranças, mas como formas de sentir, de agir e de perceber o mundo.
Em ‘O barco e as cartografias da esperança’, a vida aparece como um percurso marcado por deslocamentos e enfrentamentos. Atravessa-se o rio, a pobreza, as perdas e as dificuldades cotidianas. Esse movimento não se limita ao espaço físico, mas expressa a própria forma de existir dessas mulheres. Quando a narradora afirma que “[…] navegávamos pelas lágrimas das mulheres que não conseguiram atravessar” (Malcher, 2022, p. 28), a narrativa sugere que nenhuma história é vivida de forma isolada. Cada experiência carrega marcas das que vieram antes, sejam elas mães, avós, mulheres que enfrentaram condições semelhantes. A figura materna ocupa lugar central justamente por representar essa continuidade. É ela quem insiste, trabalha, segue adiante e aposta na educação como possibilidade de outro futuro. Assim, o deslocamento deixa de ser apenas físico e passa a simbolizar a própria experiência de vida dessas mulheres.
Quando pensamos nessas histórias a partir da Psicologia, podemos compreender que a forma como uma pessoa aprende a viver, a sentir e a se perceber no mundo está relacionada às relações que ela viveu, às condições em que cresceu e às experiências que marcaram sua trajetória. A infância, a família, o trabalho, a pobreza, o cuidado, a violência e o afeto participam da construção da forma como essa pessoa existe no mundo. O corpo, nesse sentido, não é separado dessa história; o corpo é parte dela.
Ao longo de ‘Flor de Gume’, a experiência feminina aparece como espaço de memória, dor, pertencimento e amadurecimento. Ser mulher, nos contos de Malcher, parece estar profundamente ligado a aprender a seguir adiante, apesar das perdas e das dificuldades. Esses percursos, quando observados a partir da Psicologia, podem ser compreendidos como processos de aprendizagem construídos nas relações sociais e nas condições de vida, que vão moldando formas de sentir, agir e existir no mundo.
Talvez seja por isso que possamos dizer que os contos de Monique Malcher funcionam como cartografias femininas. Eles se tornam mapas de experiências de ser mulher em determinados contextos sociais e culturais e mostram como a subjetividade feminina não é algo natural ou individual, mas algo que se constrói nas relações, nas condições sociais e nas experiências vividas ao longo do tempo.
Ao contar essas histórias, Monique Malcher não fala apenas de personagens inventadas, mas de vivências que fazem parte do cotidiano de muitas mulheres. Quando olhamos para esses relatos com a lente da Psicologia, fica mais fácil perceber que sentimentos como o medo, a ansiedade, o cansaço ou a responsabilidade assumida muito cedo não surgem do nada, nem dizem respeito apenas ao indivíduo. Eles estão ligados às condições de vida, às relações que se estabelecem no dia a dia e a experiências que se repetem ao longo da história de tantas outras mulheres.
Referências Bibliográficas
MALCHER, Monique. Flor de Gume. 1. ed. São Paulo: Editora Jandaíra, 2022.
SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
TOURINHO, Emmanuel Zagury. Subjetividade e relações comportamentais. São Paulo: Paradigma, 2009.
