O filme A Baleia (The Whale, 2022), de Darren Aronofsky, provoca desconforto visceral não apenas pela estética do excesso, mas por expor a crueza do sofrimento psíquico inscrito na carne. Ao narrar os últimos dias de Charlie, um professor de inglês com obesidade mórbida, a obra afasta-se das discussões puramente biomédicas sobre o peso para mergulhar na etiologia traumática da compulsão. À luz da psicologia, Charlie não sofre apenas de um transtorno alimentar; ele vivencia o que a psicanalista Joyce McDougall (1996) denominaria de “teatros do corpo”, onde o soma atua as dores que a psique não consegue simbolizar.
O arco dramático do protagonista é desencadeado pela morte de seu companheiro, Alan. A incapacidade de realizar o trabalho de luto transforma a perda em melancolia. Enquanto no luto normal o mundo fica pobre e vazio, na melancolia, segundo Freud, é o próprio eu que se torna pobre e vazio. Para preencher esse vazio insuportável e silenciar a culpa pela morte do amado, Charlie recorre à comida. A compulsão alimentar (Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica – TCAP, segundo o DSM-5) surge aqui como uma tentativa desesperada de autorregulação emocional. O ato de comer até a dor física opera como um anestésico, um “acting out” somático que substitui a elaboração verbal do sofrimento.
O confinamento de Charlie em seu apartamento escuro funciona como uma metáfora espacial de seu estado mental: uma prisão de culpa e vergonha. A recusa em ligar a câmera durante suas aulas online ilustra a dissociação entre seu intelecto (brilhante e sensível) e sua autoimagem corporal (percebida como monstruosa). Essa fragmentação é típica de quadros traumáticos onde o corpo deixa de ser morada para se tornar um inimigo ou um fardo.
Entretanto, o filme caminha para além da patologia, focando na busca por autenticidade. A obsessão de Charlie pela redação sobre o livro Moby Dick, que ele considera a coisa mais honesta que já leu , revela seu desejo final: ser visto em sua verdade, para além das camadas de gordura e trauma. A relação conturbada com a filha, Ellie, representa a última tentativa de conexão com o mundo dos vivos. Ao insistir que “as pessoas são incríveis”, Charlie tenta desesperadamente provar que sua própria vida, marcada por “erros”, ainda possui valor.
Conclui-se que A Baleia é um estudo sobre a interdição do luto. A morte física de Charlie no final pode ser lida, paradoxalmente, como uma libertação: o momento em que o peso do corpo e o peso da culpa finalmente se dissolvem na luz (a aceitação da verdade). Para a psicologia clínica, a obra reforça a necessidade de escutar o sintoma alimentar não como falta de disciplina, mas como um grito de socorro de um sujeito afogado em dores não ditas.
Referências Bibliográficas:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). In: Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
WORDEN, J. William. Aconselhamento do luto e terapia do luto. 4. ed. São Paulo: Roca, 2013.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.
