Adolescence: entre o ser e o tornar-se

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A adolescência é, simultaneamente, passagem biográfica e construção histórica. Todo jovem atravessa mudanças corporais, emocionais e sociais, mas o modo como essa travessia é vivida depende das linguagens, das instituições e dos dispositivos de cada tempo. Em Adolescence, série limitada da Netflix criada por Stephen Graham e Jack Thorne e dirigida por Philip Barantini, esse período emerge não como simples etapa evolutiva, mas como zona de fratura, na qual o sujeito tenta responder à pergunta “quem sou eu?” em meio a estímulos contraditórios, expectativas violentas e relações cada vez mais mediadas por telas. A obra, ao situar a crise individual dentro de uma crise social mais ampla, desloca a adolescência do campo do “problema de comportamento” para o terreno das estruturas de pertencimento, linguagem e reconhecimento.

Um dos méritos centrais da série está em sua forma. Cada episódio é construído em plano-sequência, recurso que não funciona como exibicionismo técnico, mas como ética da atenção. Ao recusar cortes frequentes, a narrativa elimina zonas de conforto e impede o espectador de escapar emocionalmente do que vê. Não há alívio, não há salto temporal que amorteça o impacto: há duração. Esse regime de continuidade intensifica a sensação de sufocamento e traduz, em linguagem audiovisual, a experiência de quem vive um trauma que não pode ser editado. O que se observa, portanto, não é apenas a história de um crime, mas a exposição crua de seus efeitos na interioridade de cada personagem e na atmosfera de todos os ambientes que o circundam.

Sob a ótica da psicologia arquetípica, a figura do adolescente em crise pode ser lida menos como um “caso” e mais como uma imagem condensadora de conflitos coletivos. Hillman (2021) propõe uma psicologia atenta às imagens, às forças míticas e às formas simbólicas que atravessam a vida psíquica; nesse sentido, Jamie não aparece apenas como indivíduo isolado, mas como encarnação de uma juventude ferida, desorientada e capturada por narrativas que prometem potência onde há, na verdade, desamparo. A força da série reside justamente em mostrar que o colapso subjetivo não brota do nada: ele se forma lentamente, no encontro entre feridas íntimas e imaginários culturais disponíveis.

Essa leitura se aprofunda quando aproximada do processo de individuação em Jung (1981). A adolescência, nesse horizonte, não é mero amadurecimento biológico, mas confronto com conteúdos sombrios, ambiguidades morais e tensões entre persona social e vida interior. O ato violento que organiza a narrativa pode ser interpretado, simbolicamente, como irrompimento de uma psique incapaz de integrar seus próprios conflitos. Em vez de elaborar frustração, vergonha, medo e inadequação, o sujeito os desloca para fora de si, convertendo sofrimento em agressão. A série é particularmente contundente porque não romantiza essa queda nem a reduz a determinismo psicológico: ela apresenta a violência como resultado trágico de uma subjetividade desorganizada, mas também de um mundo que falhou em oferecer mediações simbólicas suficientemente humanas.

A questão do pertencimento é outro eixo decisivo. Em Bowlby (1983), os vínculos primários constituem a base da segurança emocional e da capacidade de regulação afetiva. Quando esses vínculos são inconsistentes, frágeis ou incapazes de nomear a dor, o adolescente tende a buscar amparo em formas substitutivas de comunidade. Adolescence sugere que a radicalização digital não nasce apenas de convicções ideológicas, mas de uma fome de reconhecimento. O jovem que não encontra escuta em casa, reciprocidade na escola ou pertença em laços concretos torna-se mais vulnerável a ecossistemas virtuais que oferecem identidade pronta, linguagem de ressentimento e sensação imediata de integração. A chamada “machosfera”, nesse cenário, opera como tribo degradada: acolhe para deformar, nomeia para aprisionar e legitima o ódio como compensação narcísica para a experiência de insuficiência.

A série é inteligente ao evitar explicações simplistas. Ela não absolve o protagonista, mas tampouco se satisfaz com a resposta penal ou com a psicologização superficial do crime. Em vez disso, distribui a responsabilidade entre várias instâncias: família, escola, cultura digital, modelos de masculinidade, falência do diálogo e incapacidade institucional de perceber sinais antes da catástrofe. É justamente aí que a obra ganha densidade sociológica e filosófica. Jamie não é mostrado como monstruosidade excepcional; ao contrário, a narrativa insiste em sua assustadora banalidade. E talvez seja esse o ponto mais desconcertante: o horror não vem de um “outro” absolutamente estranho, mas de alguém que poderia estar em qualquer casa, em qualquer escola, em qualquer tela.

No plano fenomenológico, o uso do tempo contínuo aproxima a série de uma compreensão existencial da experiência. Em Heidegger (2008), o ser humano não existe em instantes isolados, mas em uma temporalidade espessa, em que passado, presente e futuro se interpenetram. Em Adolescence, isso se traduz formalmente na percepção de que nenhum gesto é puramente momentâneo: toda fala carrega histórias anteriores, e todo silêncio projeta futuros possíveis ou interrompidos. A câmera não registra apenas ações; ela acompanha a duração de uma existência em crise. Assim, o adolescente não aparece como produto instantâneo da internet, mas como ser lançado em uma rede de heranças familiares, determinações sociais e antecipações de si mesmo. O presente do crime torna-se, então, um ponto de condensação temporal, e não um evento solto.

O universo digital, por sua vez, não entra na série como pano de fundo decorativo, mas como ambiente constitutivo da subjetividade contemporânea. As redes sociais, os fóruns, os discursos algorítmicos e os modos de circulação da humilhação reconfiguram a experiência do eu e do outro. Baudrillard (1994) ajuda a compreender esse processo ao descrever uma cultura em que signos, imagens e simulações passam a mediar e até substituir o real. Para o adolescente, isso significa viver sob pressão constante de performance, comparação e visibilidade. O outro deixa de ser presença concreta e torna-se superfície de projeção, adversário abstrato, perfil a ser odiado, curtido ou descartado. A dessensibilização não decorre apenas do excesso de imagens violentas, mas da lógica de repetição e distanciamento que transforma sofrimento em conteúdo consumível. A série evidencia, com enorme precisão, como a mediação digital pode corroer a empatia e embaralhar a fronteira entre impulso, fantasia e ato.

No interior desse quadro, a família aparece como microcosmo das tensões intergeracionais. Os pais não são retratados como vilões absolutos, mas como adultos exaustos, culpados, afetivamente truncados e incapazes de traduzir em linguagem aquilo que sentem. Essa escolha dramática é importante porque rompe com explicações moralistas do tipo “faltou amor” ou “faltou disciplina”. O que a série mostra é algo mais complexo: muitas vezes há afeto, mas não há repertório emocional; há presença física, mas não há escuta; há intenção de cuidado, mas não há mediação simbólica suficiente para conter a dor do outro. O drama, então, não está apenas no que faltou, mas no que não pôde ser dito.

Ao mesmo tempo, Adolescence recusa a tentação de encerrar a vítima na condição de mero dispositivo narrativo. Mesmo ausente fisicamente em boa parte da trama, ela permanece como centro ético do acontecimento. Sua ausência organiza a culpa, a investigação e o peso moral que recai sobre todos. Esse tratamento é relevante porque impede que a análise da subjetividade do agressor apague a violência sofrida pela vítima. A obra lembra, assim, que compreender não é desculpar; interpretar as condições de produção da violência não significa dissolver sua gravidade. Pelo contrário: significa levá-la a sério o bastante para perguntar por que ela se torna possível.

Também merece destaque a forma como a série problematiza a masculinidade. A pergunta levantada por Stephen Graham sobre o que está acontecendo com os meninos e com as pressões vindas da internet, dos pares e das redes sociais não é apenas temática; ela estrutura toda a obra. O menino contemporâneo é frequentemente convocado a performar força antes de aprender a nomear fragilidade. Nesse cenário, vergonha, rejeição e inadequação podem ser metabolizadas como raiva, misoginia ou desejo de domínio. Adolescence denuncia essa pedagogia tácita da dureza, mostrando que a violência masculina não nasce simplesmente de um excesso de poder, mas muitas vezes de uma subjetividade empobrecida, que aprendeu a converter dor em ataque porque nunca encontrou linguagem legítima para a própria vulnerabilidade.

Por isso, a série ultrapassa o registro do thriller criminal e se aproxima de uma antropologia filosófica do humano em formação. O sujeito aparece como ser relacional, constituído por vínculos, discursos e imagens que tanto o fazem existir quanto o deformam. A adolescência, nesse sentido, não é só etapa da vida, mas figura-limite de nossa própria condição: todos, em alguma medida, seguimos buscando reconhecimento, linguagem e pertencimento em meio a forças que podem nos humanizar ou nos brutalizar. A potência da obra está em nos lembrar que ninguém se forma sozinho e que toda sociedade revela sua verdade no modo como ampara, ou abandona seus jovens.

Se há uma tese central a extrair de Adolescence, é a de que a transformação continua sendo possível, mas ela depende de mediações concretas de cuidado: famílias capazes de escuta, escolas atentas aos afetos, comunidades menos orientadas pelo desempenho e ambientes digitais menos organizados pela exploração da raiva. A série não oferece consolo fácil, tampouco soluções imediatas. O que oferece é algo mais valioso: a coragem de olhar para a sombra sem fetichizá-la. Ao fazê-lo, reafirma que crescer não é apenas avançar cronologicamente, mas aprender a sustentar conflitos sem convertê-los em destruição. Em um tempo que acelera tudo e elabora pouco, Adolescence se impõe como obra necessária porque devolve densidade ética, política e existencial à pergunta mais antiga de todas: o que estamos fazendo uns com os outros?

Referências

ADOLESCENCE. Direção: Philip Barantini. Criação: Stephen Graham; Jack Thorne. [S. l.]: Netflix, 2025. 1 série (4 episódios), son., color. Disponível em: https://www.netflix.com

BAUDRILLARD, Jean. Simulacra and simulation. Tradução de Sheila Faria Glaser. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1994. Disponível em: https://press.umich.edu/Books/S/Simulacra-and-Simulation. Acesso em: 21 abr. 2026.

BOWLBY, John. Attachment and loss. Volume 1: attachment. [S. l.]: Basic Books, 1983. Disponível em: https://www.basicbooks.com/titles/john-bowlby/attachment/9780465005437/. Acesso em: 21 abr. 2026.

HEIDEGGER, Martin. Being and time. Tradução de John Macquarrie e Edward Robinson. [S. l.]: Harper Perennial Modern Thought, 2008. Disponível em: https://www.harpercollins.com/products/being-and-time-martin-heidegger. Acesso em: 21 abr. 2026.

HILLMAN, James. Archetypal psychology. [S. l.]: Spring Publications, 2021. Disponível em: https://springpublications.com/ue.html. Acesso em: 21 abr. 2026.

JUNG, C. G. The archetypes and the collective unconscious. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1981. Disponível em: https://press.princeton.edu/books/paperback/9780691018331/the-collected-works-of-c-g-jung-volume-9-part-1. Acesso em: 21 abr. 2026.

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Edinei dos Reis Pereira, conhecido artisticamente como Ed Reis, é sacerdote da Arquidiocese de Palmas (TO), ordenado em 06/12/2008. Atualmente, atua como Vigário Diocesano Incardinado Residente na Paróquia Santo Antônio de Lisboa (Aureny III), em Palmas–TO. Natural de Campinas (SP), é bacharel em Filosofia pelo Instituto Canção Nova e em Teologia pelo Centro de Estudos Superiores Mater Dei; cursa Psicologia (9º período) na Ulbra Palmas. No campo artístico, desenvolve um ministério musical de evangelização. Lançou o álbum “Comigo Estás” (2021) — com faixas como “A Tua Graça Me Basta” e “Acalma‑Me” — e o single “Nada Muda o Teu Agir” (2022), disponíveis nas principais plataformas digitais. Como compositor, teve canções gravadas por Diego Fernando e pela Comunidade Canção Nova. É também escritor, com participação na “Antologia Literária de Palmas – Onde Mora o Girassol”. Possui formação em teatro, com experiência em atuação, direção e autoria de peças. Integra serviço pastoral, produção artística por meio da arte e da espiritualidade e do desenvolvimento humano

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