A minissérie Bebê Rena (Baby Reindeer, 2024), criada e protagonizada por Richard Gadd, rompe com a estrutura clássica das narrativas de stalking (perseguição) ao recusar a dicotomia simplista entre o monstro e a vítima inocente. Ao narrar a obsessão de Martha por Donny, a obra se torna um estudo de caso visceral sobre patologias complementares e as cicatrizes indeléveis do trauma sexual não elaborado. Para o campo da saúde mental, a série é um convite urgente para discutir o que Freud denominou de Wiederholungszwang, ou compulsão à repetição.
Inicialmente, a personagem Martha apresenta traços inequívocos do que a psiquiatria clássica, a partir de Gaëtan Gatian de Clérambault, classificou como Erotomania (ou Síndrome de Clérambault). Presente no DSM-5-TR como um subtipo do Transtorno Delirante, a erotomania é caracterizada pela convicção inabalável de que outra pessoa — geralmente de status superior ou inacessível — está apaixonada pelo indivíduo (APA, 2023). Martha não apenas persegue; ela reescreve a realidade para sustentar a fantasia de que Donny a deseja, interpretando rejeições como obstáculos temporários ou até como provas de afeto reprimido.
Contudo, o aspecto mais perturbador e clinicamente rico da obra reside na psique de Donny. Por que ele não denuncia imediatamente? Por que ele oferece o chá, aceita os elogios e, em momentos de crise, ouve as mensagens de voz de sua perseguidora como uma canção de ninar? A resposta pode ser encontrada na teoria do trauma de Judith Herman (1997). Sobreviventes de abusos graves (como o estupro sofrido por Donny nas mãos de um mentor, Darrien) frequentemente experimentam uma fragmentação do self. Sentindo-se indigno e invisível, Donny encontra no olhar obsessivo de Martha uma validação distorcida. A atenção dela, embora tóxica, preenche o vazio deixado pela anulação de sua subjetividade no trauma anterior.
Freud (2020), em Além do Princípio do Prazer, postula que o sujeito traumatizado tende a se colocar repetidamente em situações dolorosas numa tentativa inconsciente de dominar a experiência passiva original, transformando-a em algo ativo. Donny flerta com o perigo de Martha porque, inconscientemente, busca reencenar a dinâmica de abuso na esperança de, desta vez, ter um desfecho diferente ou exercer algum controle. É uma dança mórbida de co-dependência onde a carência afetiva do protagonista se alimenta da doença de sua algoz.
Em suma, Bebê Rena expõe as engrenagens ocultas do abuso. A série demonstra que a saída de um ciclo de violência exige mais do que medidas protetivas legais; exige a elaboração do trauma original. Para o espectador e para os profissionais de saúde mental, fica a lição de que a vítima “imperfeita” — aquela que volta, que hesita e que se ambivaliza — é frequentemente a que mais necessita de um olhar clínico isento de julgamentos morais.
Referências Bibliográficas:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
BERENSTEIN, Isidoro. Do ser ao fazer: o vínculo e a psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
HERMAN, Judith L. Trauma e recuperação: as consequências da violência doméstica ao terror político. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
