Há histórias e personagens que parecem morar na nossa memória, principalmente aquelas figuras que atravessam a infância e permanecem em algum canto da imaginação. Dona Benta, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Emília, Narizinho, Pedrinho, Tio Barnabé… O Sítio do Picapau Amarelo foi, para muitas gerações brasileiras, uma dessas casas imaginárias onde a infância podia entrar sem bater. E agora, a casa reabriu as portas.
Com a disponibilização da série no Globoplay, o Sítio voltou a circular nas telas e, com ele, também voltou uma coisa que a nostalgia nem sempre consegue esconder, o passado, quando revisto, nem sempre permanece confortável. No X (Twitter), no TikTok e em outras redes sociais digitais, cenas da série começaram a ser revisitadas, comentadas e criticadas. Entre as discussões, Dona Benta aparece sendo chamada de “velha latifundiária”, uma provocação que move a personagem do papel da avó afetuosa onde a memória costuma colocá-la e a insere na história da propriedade, da terra e das desigualdades brasileiras.
A palavra latifundiária nos leva para além da varanda do Sítio, para a terra extensa, para a concentração da propriedade, para uma sociedade construída sobre relações profundamente desiguais, fazendo com que a Dona Benta seja observada também a partir do lugar social que ocupa dentro daquela narrativa.
À luz da história social brasileira, a Tia Nastácia e Tio Barnabé ganham novos significados, pois a posição de ambos no Sítio expõe hierarquias, representações e relações de trabalho que regiam o contexto em que a obra foi produzida. E talvez seja isso que aconteça quando uma obra envelhece, ela continua sendo a mesma, mas nós já não somos.
E Monteiro Lobato também precisa entrar nessa conversa! O escritor é uma pessoa notável e importante na literatura brasileira, sobretudo na literatura infantil, mas sua trajetória não pode ser separada das posições racistas registradas em suas obras e em sua correspondências. Reconhecer esse aspecto retira da obra aquela espécie de inocência que, por muito tempo, costumamos conceder aos clássicos, porque afinal, clássicos também têm contexto.
Uma obra não nasce fora do mundo, pois abarca palavras de seu tempo, seus costumes, suas hierarquias, seus silêncios (e, às vezes, aquilo que não é dito fala mais do que aquilo que aparece escrito). A literatura infantil também participa desse processo na medida em que as crianças encontram modos de organizar o mundo, relações que parecem naturais, lugares que parecem destinados a determinadas pessoas.
É por isso que a discussão sobre a Dona Benta talvez seja maior do que a Dona Benta. Quando uma personagem é chamada de “velha latifundiária”, há algo de irônico nessa expressão. Afinal, estamos falando de uma personagem que, durante décadas, foi lembrada sobretudo como a avó sábia, acolhedora, sentada na varanda contando histórias. A brincadeira das redes sociais desmonta essa imagem por alguns instantes e pergunta: quem é essa mulher quando retiramos a infância da frente dos nossos olhos?
E o que fazer, então, com uma obra atravessada por problemas históricos? Diante disso, o caminho não precisa ser o do extremo de transformar o texto em algo intocável ou simplesmente apagar a sua existência, a cultura pode abrir espaço para a leitura crítica, esse lugar em que nos permitimos olhar para a criação com profundidade, acolhendo suas qualidades sem esconder suas contradições. É nesse espaço que o Sítio pode continuar existindo.
Podemos assistir à série e conversar sobre racismo. Podemos falar de Dona Benta e discutir a concentração de terras. Podemos olhar para Tia Nastácia e Tio Barnabé e questionar os lugares que ocupam na narrativa. Podemos reconhecer a importância cultural do Sítio sem transformar sua importância em autorização para que ele permaneça intocado.
Recordar é voltar ao passado sabendo que ele passou por nós e olhar para aquilo que fomos capazes de produzir e perguntar o que ainda permanece. Por isso, talvez Dona Benta não precise simplesmente ser cancelada, ela poderia talvez ser interrogada.
(E talvez esse seja um dos destinos mais interessantes de uma personagem que atravessou tantas infâncias: deixar de ser apenas a “avó” da nossa memória e tornar-se também uma pergunta sobre o país que aprendemos a imaginar através dela). Porque o racismo está nas histórias que aprendemos a contar como se fossem naturais. E se a casa imaginária da nossa infância reabriu as portas, que saibamos visitá-la com uma postura que transcenda a de hóspedes saudosistas, agregando a posição de leitores dispostos a encarar a estrutura que a mantém em pé.
