A busca por saúde mental tem ocupado cada vez mais espaço nas discussões contemporâneas. Em meio às múltiplas demandas da vida cotidiana, muitas mulheres enfrentam desafios relacionados à autocobrança, sobrecarga, relacionamentos e construção da própria identidade. Nesse contexto, a psicoterapia surge como um espaço de escuta, acolhimento e fortalecimento emocional.
Nesta entrevista, conversaremos com a psicóloga Rayla Soares, que atua com psicoterapia online voltada para mulheres. A partir de sua trajetória profissional, refletiremos sobre os desafios da saúde emocional feminina, o papel da psicoterapia no desenvolvimento do autoconhecimento e a importância do cuidado psicológico como forma de prevenção e promoção de saúde.
Fernanda: Antes de falarmos sobre sua atuação profissional, gostaria que você compartilhasse um pouco da sua trajetória. Quais experiências contribuíram para a construção da psicóloga que você é hoje?
Rayla Soares: Minha trajetória profissional foi significativamente moldada pela minha experiência prévia na área de Recursos Humanos. Essa vivência me proporcionou uma perspectiva única sobre o comportamento humano no ambiente corporativo, as dinâmicas interpessoais e os desafios relacionados ao bem-estar e desenvolvimento dos indivíduos. Ao observar de perto as complexidades das relações de trabalho e as necessidades emocionais que surgiam nesse contexto, percebi a profundidade e a amplitude do impacto da psicologia na vida das pessoas.
Fernanda: Em sua prática clínica, você acompanha mulheres em diferentes momentos da vida. O que essas vivências têm lhe ensinado sobre as necessidades emocionais das mulheres na atualidade?
Rayla Soares: Acompanhando mulheres em diversas fases da vida, percebo que uma das necessidades emocionais mais prementes na atualidade reside nas questões relacionadas a relacionamentos amorosos e, intrinsecamente ligada a isso, a dificuldade em reconhecer e valorizar as próprias qualidades. Há uma tendência a externalizar a validação e a construir a identidade feminina a partir do olhar do outro, o que pode gerar insegurança, baixa autoestima e dependência emocional. O processo terapêutico, nesse sentido, torna-se um espaço fundamental para que essas mulheres resgatem sua autonomia, fortaleçam sua autoimagem e desenvolvam um senso de valor intrínseco, independentemente do status de seus relacionamentos.
Fernanda: Muitas mulheres encontram dificuldade em se priorizar diante das demandas do cotidiano. O que essa dificuldade revela sobre a forma como aprendemos a cuidar de nós mesmas?
Rayla Soares: A dificuldade que muitas mulheres enfrentam em se priorizar reflete um padrão cultural e social enraizado, onde o papel feminino é historicamente associado ao cuidado do outro. Desde a infância, somos socializadas a nutrir, a atender às necessidades alheias e a colocar o bem-estar da família e da comunidade acima do nosso próprio. Essa aprendizagem, embora valiosa em muitos aspectos, dificulta o desenvolvimento da capacidade de se empoderar, de expressar vontades e opiniões de forma assertiva e de estabelecer limites saudáveis. Com o tempo, essa dinâmica pode levar a um sentimento de culpa ou egoísmo quando a mulher tenta priorizar suas próprias necessidades, revelando uma desconexão com o autocuidado e a autoaceitação como pilares essenciais para uma vida plena.
Fernanda: A psicoterapia costuma ser associada à busca por soluções imediatas. Como você compreende o processo de autoconhecimento construído ao longo da terapia?
Rayla Soares: Compreendo o processo de autoconhecimento na psicoterapia como uma jornada gradual, que se distancia da busca por soluções imediatas. Diferente de uma receita pronta, o autoconhecimento é uma construção contínua, onde o indivíduo é convidado a explorar suas emoções, pensamentos, padrões de comportamento e histórias de vida. Esse processo não é apenas resolver problemas pontuais, mas sim promover uma compreensão mais profunda de si mesmo, capacitando a pessoa a lidar com os desafios da vida de forma mais consciente, autêntica e resiliente. É um investimento no bem estar a longo prazo, que se reflete em todas as áreas da vida do indivíduo.
Fernanda: Você realiza atendimentos online. Como tem percebido o impacto dessa modalidade no acesso ao cuidado psicológico e na construção do vínculo terapêutico?
Rayla Soares: Os atendimentos online têm me demonstrado um impacto positivo no acesso ao cuidado psicológico. A modalidade remota elimina obstáculos geográficos, oferece maior flexibilidade de horários, facilitando a conciliação com as demandas do cotidiano. Quanto à construção do vínculo terapêutico, percebo que, embora a dinâmica seja diferente da presencial, a essência da conexão permanece. O que realmente importa é a autenticidade, a escuta ativa e a empatia do profissional, que podem ser plenamente estabelecidas e desenvolvidas no ambiente virtual. Muitos pacientes relatam mais à vontade e seguros em seu próprio espaço, o que pode até mesmo aprofundar a abertura e a vulnerabilidade necessárias para o processo terapêutico.
Fernanda: Em suas publicações, você aborda temas relacionados ao autismo e ao TDAH, destacando a importância de uma avaliação cuidadosa. O que você acredita que as pessoas ainda compreendem de forma equivocada sobre esses diagnósticos?
Rayla Soares: Uma das maiores compreensões equivocadas sobre o autismo e o TDAH é a tendência à generalização e à busca por estereótipos, ignorando a vasta heterogeneidade dentro de cada diagnóstico. As pessoas frequentemente associam o autismo a características muito específicas, como a sensibilidade auditiva, e assumem que todos os autistas devem apresentar esse traço. No entanto, a realidade é que o espectro autista é incrivelmente diverso, enquanto alguns indivíduos podem ter hipersensibilidade a sons, outros podem até buscar estímulos auditivos intensos para se regular. Da mesma forma, no TDAH, há uma simplificação que reduz o diagnóstico à hiperatividade ou à falta de atenção, desconsiderando as nuances e as diferentes manifestações em cada pessoa. É crucial entender que cada pessoa é única e que um diagnóstico serve como um guia para a compreensão e o suporte, mas nunca define a totalidade do indivíduo. A avaliação cuidadosa é fundamental para desmistificar essas percepções e oferecer um plano de intervenção verdadeiramente individualizado.
Fernanda: Com o aumento das informações sobre Autismo e TDAH nas redes sociais, quais cuidados você considera importantes para que as pessoas busquem conhecimento sem cair em simplificações ou auto diagnósticos precipitados?
Rayla Soares: É fundamental adotar uma postura crítica e cautelosa para evitar simplificações e auto diagnósticos precipitados. O primeiro e mais importante cuidado é procurar um bom profissional para uma avaliação adequada. No entanto, reconhecendo que nem sempre isso é imediatamente acessível, é vital que as pessoas busquem conhecimento em fontes confiáveis e atualizadas. Isso significa priorizar a leitura de novos estudos e pesquisas científicas, sempre verificando a credibilidade da fonte. Instituições de saúde renomadas, universidades e publicações científicas são excelentes pontos de partida. É preciso desconfiar de conteúdos que prometem soluções milagrosas, que generalizam sintomas ou que incentivam o autodiagnóstico sem a devida profundidade. A complexidade desses diagnósticos exige uma análise multifacetada e individualizada, que apenas profissionais qualificados podem oferecer.
Fernanda: A descoberta de um diagnóstico pode provocar diferentes sentimentos em uma pessoa ou em sua família. Na sua experiência, como a compreensão sobre o próprio funcionamento pode transformar a forma como alguém se relaciona consigo mesmo e com os outros?
Rayla Soares: A descoberta de um diagnóstico, seja ele qual for, é um momento que pode evocar uma gama complexa de sentimentos, desde alívio e validação até luto e confusão. No entanto, na minha experiência, a compreensão sobre o próprio funcionamento, o autoconhecimento que vem do diagnóstico é uma ferramenta poderosa para a transformação. Quando uma pessoa entende as razões por trás de suas dificuldades, suas particularidades e seus pontos fortes, ela adquire uma nova lente para se enxergar. Isso permite que ela ressignifique experiências passadas, que antes poderiam ser vistas como falhas pessoais. Essa clareza promove uma autoaceitação mais profunda, reduzindo a autocrítica e a culpa. Consequentemente, a forma como se relaciona consigo mesma se torna mais compassiva e estratégica, buscando desenvolver habilidades e estratégias de enfrentamento mais eficazes. O diagnóstico, quando acompanhado de autoconhecimento, não é um rótulo, mas sim uma chave para a libertação.
Fernanda: Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para as mulheres que reconhecem a necessidade de ajuda, mas ainda encontram dificuldades para iniciar a psicoterapia?
Rayla Soares: Minha mensagem é de encorajamento. Entendo que dar o primeiro passo pode ser desafiador, ter seus estigmas ou a sensação de que não há tempo para si. No entanto, quero que saibam que priorizar a saúde mental não é um luxo, mas uma necessidade fundamental. A psicoterapia é um espaço seguro e confidencial, onde vocês podem se permitir ser vulneráveis, explorar suas emoções sem julgamento e encontrar ferramentas para lidar com os desafios da vida. Não é um sinal de fraqueza, mas sim de coragem e autoconsciência. Começar a terapia é um ato de amor próprio, um investimento em seu bem estar. Todos merecem esse espaço para florescer. O primeiro passo, por menor que pareça, é o mais importante.
ENCERRAMENTO
Agradecemos à psicóloga Rayla Soares pela disponibilidade em compartilhar suas experiências e reflexões. Conversas como esta ajudam a ampliar o debate sobre saúde mental, autocuidado e a importância de buscar apoio psicológico como parte do cuidado integral com a vida.
CRÉDITOS
Entrevistadora: Fernanda Bazana Martinez
Curso: Psicologia
Data: 18/06/2026
