Influência psicossocial pode causar cardiopatias, aponta especialista

Os problemas pessoais, emocionais podem fazer com que em determinados momentos o indivíduo piore ou desenvolva algum tipo de doença cardiológica em função dos problemas psicossociais dele”, diz profissional

A Psicossomática se trata do estudo da influência psicológica nas patologias somáticas e a relação mente-corpo. Em uma transcrição da linguagem psicológica dos sintomas corporais, os principais métodos investigativos desse fenômeno estão no campo da Psicanálise, em função do inconsciente na atividade terapêutica. Freud foi um dos grandes expoentes dessa teoria (FREUD, 1913). As doenças psicossomáticas podem se instalar por meio de um transtorno neurótico e uma lesão orgânica, mas também existem considerações com base em sintomas de origem psicogênica, estudados por meio de um grupo de neuroses dentro da classificação de transtornos mentais ou de comportamentos. Esses acometimentos são denominados transtornos somatoformes.

As principais características dos transtornos somatoformes consistem na apresentação contínua de sintomas físicos com solicitações persistentes de investigações médicas, porém, com achados negativos e reasseguramentos pelos médicos de que os sintomas possuem base biológica. Esses transtornos podem ser acompanhados de acometimentos em qualquer parte ou sistema do corpo, sendo comuns sensações gastrintestinais, cutâneas anormais, queixas sexuais e menstruais bem como depressão e ansiedade.

Existe também uma variável, chamada Disfunção Autônoma Somatoforme, na qual os sintomas são apresentados pelo paciente como se fossem decorrentes de um transtorno físico de um sistema ou órgão que está sob inervação de controle autônomo do sistema nervoso, como no sistema cardiovascular, gastrointestinal e sistema respiratório. O curso do transtorno pode ser crônico e flutuante, podendo estar associado ao rompimento do envolvimento social, interpessoal e familiar.

Para elucidar as principais dúvidas sobre o assunto, foi entrevistado o médico Cardiologista Genildo Ferreira Nunes. Genildo graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte no ano de 1998. Especializou-se em cardiologia e ritmologia cardíaca, em cardiologia e eletrofisiologia clínica e invasiva. Possui habilitação em Estimulação Cardíaca Artificial (Marcapasso). Atualmente atua como coordenador do serviço de eletrofisiologia do Hospital Geral de Palmas e professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Tocantins. Atua nas áreas de cardiologia, eletrofisiologia clínica/invasiva e implante de marcapassos.

(En)Cena –  Dentro de uma visão ampla, como poderia descrever a relação existente entre Transtorno Psicossomático e Sistema Cardiovascular?

Genildo Ferreira – Obviamente como em todos os sistemas, no cardiovascular existe uma possibilidade, uma incidência grande de problemas psicossomáticos. Os problemas pessoais, emocionais externos podem fazer com que em determinados momentos o indivíduo piore ou desenvolva algum tipo de doença cardiológica em função dos problemas psicossociais dele. Posso dar exemplo também aqui no caso de pacientes psicossomáticos que desenvolvem um transtorno de pânico e tem queixas freqüentes, por exemplo, de muitas palpitações. Na cardiologia, palpitações está relacionada à arritmia cardíaca mas nem sempre isto acontece, então a gente vai buscar ou vai tentar gravar este evento e observa através de exames como Holter e Looper. Em alguns casos aquelas palpitações que o paciente está referindo não está se traduzindo em arritmias, ou seja, ele tem o sintoma emocional e de fato não é arritmia, este é o exemplo do paciente psicossomático.

(En)Cena –  Algumas pesquisas apontam a raiva como um fator desencadeante à doença Psicossomática com impacto no sistema cardiovascular. Concorda com esta afirmação?

Genildo Ferreira – Não necessariamente apenas a raiva, mas um quadro de estresse que gera uma angústia que pode predispor o indivíduo a este quadro psicossomático. No meu ponto de vista o indivíduo que desenvolve a psicossomática é o perfil de um indivíduo que tem problema psicológico. Uma pessoa que não apresenta nenhum tipo de problema emocional, psicológico, que esteja estável emocionalmente (não sei como vocês psicólogos traduziriam este princípio, esta condição), mas o que quero dizer que dentro de condições que não desviam de uma normalidade a pessoa não apresenta problemas psicossomáticos, porque estes são característicos de pessoas ansiosas.

(En)Cena –  Poderia contribuir com alguma característica sobre o diagnóstico e o prognóstico do paciente? Quem ou qual o grupo de pessoas que estaria mais vulnerável a ter doenças psicossomáticas?

Genildo Ferreira – Quem está mais predisposto são as pessoas que tem problema de ansiedade e depressão, que tem um transtorno ou um distúrbio. Sobre a forma de diagnosticar vai depender da queixa do paciente; por exemplo, a pessoa pode ter uma queixa psicossomática de dispneia, que é a sensação de falta de ar, essa dispneia pode ser apenas de origem psicogênica, mas pode ser de origem cardiológica. Então eu tenho que investigar lançando mão de métodos que investigam dispneia de origem cardiológica, por exemplo o eletrocardiograma. Vou analisar a função estrutural do coração como que está, para afirmar ou descartar a hipótese de doença psicossomática. Posso pedir um teste de esforço também para ver se o indivíduo durante a atividade física e esforço realmente apresentará a dispneia. Também lanço mão de exames complementares específicos para aquela determinada queixa que o profissional possa estar suspeitando que seja algum sintoma psicossomático. Então a dispneia, palpitações e dores torácicas podem ser exemplos de sintomas psicossomáticos.

(En)Cena – Sobre tratamento, o que poderia dizer que tem maior resultado atualmente?

Genildo Ferreira – Não se trata a doença e sim a ansiedade, por exemplo. Mesmo porque não existe a doença, é o psíquico, mimetizando o somático; o paciente não está mentindo, ele está sentido palpitações ou, por exemplo, aquela dor torácica não é originada por problemas cardiovasculares ou físicos é apenas psíquico. Ao descartar as possibilidades de disfunções cardiológicas a orientação é que o paciente busque tratar o psicológico dele, o psíquico.

(En)Cena – No dia-a-dia da sua atuação, tem se deparado com muitos pacientes com doenças psicossomáticas? Conhece dados que mensuram o aumento dos números de casos nos últimos anos? E qual a faixa etária predominante e o gênero?

Genildo Ferreira – Tem bastante. Acredito que 30% das queixas podem ser de origem psicossomática. Hoje em dia o hábito de vida, o modo de vida das pessoas tem uma tendência muito grande a gerar problemas psicossomáticos relacionados a ansiedade, depressão e acredito que todo este contexto que gera a psicossomática está relacionado com indivíduos que têm problemas com a ansiedade. O paciente acredita que tem um problema e acaba sentindo este problema sem ter. Não aprofundei neste assunto, não observo dados em literaturas sobre a faixa etária e gênero. Considero não ser inerente a sexo ou idade, todos apresentam o quadro de psicossomática.

(En)Cena – Como o paciente reage quando percebe que é uma doença psicossomática? E sobre a aceitação deste diagnóstico?

Genildo Ferreira – É o primeiro passo do tratamento. Tentar convencer ele que aquele problema que ele tem, aquela arritmia, aquela dispneia ou a dor torácica não é um problema orgânico, mas algo mais específico, está mais relacionada a um quadro psicológico de ansiedade, de estresse, isto está fazendo com que ele perceba este sintoma sem necessariamente ele ser uma alteração orgânica. A indicação para este paciente é em algumas situações tratamento farmacológico para ansiedade e acompanhamento psicológico. Sobre a aceitação de fazer um tratamento psicológico depende do perfil da pessoa, não necessariamente o paciente tem esta aceitação. Depende muito também da relação ética estabelecida com o paciente, da confiança que o paciente vai ter em relação ao profissional e do próprio perfil do profissional. Tem pessoas que são difíceis de entender, tem pessoas que tem maior facilidade de aceitação, quando descobrem que o problema é psicossomático eles conseguem aceitar e a maioria deles melhora. Melhora porque a pessoa faz vários exames e quando ela descobre que não existe alteração física, um quadro físico determinante dos seus sintomas, esta descoberta leva a um relaxamento por parte do paciente, a notícia para ele é boa, e acredita que acabou a doença e que nunca mais vai sentir aquela dor… ele não fez uso de nenhum medicamento, apenas teve conhecimento dos resultados dos exames constatando que não tinha nada detectado em seu organismo. Isto ocorre de forma muito acentuada.

(En)Cena – Gostaria de comentar sobre algum caso em especial, que foi mais difícil, mais angustiante ou mais intenso de cuidar? Por quê?

Genildo Ferreira – Os casos mais clássicos que tenho são relacionados à minha especialidade, as arritmias, pessoas com queixas de muitas palpitações, pessoas com anotações de 10 a 15 vezes nos diários de Holter que teve palpitações e quando a gente analisa os horários e as queixas o exame não detectou palpitações, não foi registrada nenhuma arritmia durante 24 horas. E a abordagem para com este paciente sobre suas palpitações é que não houve registro, é um quadro psicológico! Também pode ocorrer o que chamamos de hipertensão de avental branco. Diante do médico ou indivíduo que vai aferir, a pressão aumenta a ansiedade do paciente, aumenta a frequência cardíaca e a pressão sobe ali momentaneamente. E ao sair do hospital e da clínica a pessoa volta ao normal, este é um componente do psicossomático muito grande, um exemplo muito clássico da psicossomática. A pressão sobe apenas naquele momento que está ali sob o exame clínico. Isto ocorre muito no exame de Monitorização Ambulatorial de Pressão Arterial (MAPA), onde a pessoa vem na clínica, coloca o aparelho e a pressão sobe, sai da clínica a pressão normaliza, volta no dia seguinte para tirar o aparelho e a pressão sobe novamente, é o exemplo de hipertensão do avental branco.
Sobre um exemplo que considero complacente a este assunto e especificamente em um atendimento sobre quadro de dor pós-cirúrgica. Na ocasião a equipe revisou toda a cirurgia, fizemos todos os procedimentos de analgesia potencialmente eficaz e a dor não passava. Mas percebíamos que ela tinha um quadro de ansiedade muito forte. Descrevia que a dor vinha e ela ficava agitada, “correndo dentro de casa” com as mãos na cabeça desesperada e nos relatou após os vários procedimentos de analgesia que começou a tomar uma água ionizada e a dor melhorou… Não tenho conhecimento de propriedades antiinflamatórias cientificamente comprovadas de nenhum tipo de água. Pode ter sido um sintoma psicossomático muito grande ou, ao contrário, a parte emocional da paciente pode até ter tratado a queixa orgânica dela. Isto também pode acontecer, por questões de Fé, onde a Fé cura por desencadear mecanismos neuro-hormonais. Tenho consciência que a gente não conhece tudo, mas a fé pode até modificar a fisiologia do corpo. A força cerebral da paciente, de acreditar no consumo daquela água em beneficiar a sua dor, pode ter sido tão grande que desencadeou antiinflamatórios endógenos, ter feito a liberação destes antiinflamatórios com respostas neuro-hormonais, em todo processo antiinflamatório, isto pode acontecer.
Outra observação sobre a psicossomática num contexto geral, trago para a discussão o caso de mulheres que tem uma vontade imensa de engravidar e cresce a barriga, desenvolve uma mama lactante, ou seja, desencadeou no seu organismo mecanismos fisiológicos que teoricamente só seriam desencadeados durante o ciclo gravídico dela, gerando a gravidez psicológica.

(En)Cena – Poderia nos descrever alguma ocorrência de psicossomática sobre o impacto emocional da cirurgia cardíaca?

Genildo Ferreira – Especificamente trazer a psicossomática neste quadro não seria um diagnóstico exclusivo, no entanto é sabido que se trata de uma situação delicada. Imagina você que o indivíduo vai passar por um procedimento, que vai abrir o peito, que vai cortar o coração, o coração dele vai parar de bater, vai colocar uma válvula, uma ponte safena, ele vai ficar morto durante aquele período, o coração dele vai ficar sendo uma bomba externa que vai ficar circulando. O pulmão vai ficar artificial e o coração dele também vai ficar artificial. Os órgãos pulmão e coração dele vão ficar lá funcionando literalmente como máquinas. Entendo que a pessoa vai ter um medo muito grande de morrer durante o procedimento. Então geralmente resulta em pânico, transtorno e medo, sintomas muito acentuados nos pacientes. Cada paciente absorve isto de uma forma diferente, a gente sente que a pessoa passa a ficar muito pensativa, passa por um abalo emocional muito grande.

REFERÊNCIAS:

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