A escuta na clínica psicanalítica

Freud observou que talvez exista um tipo de fala que seja precisamente valiosa, porque até o momento foi simplesmente proibida – isso significa, dita nas entrelinhas

Lacan (1974-1975, 8 de abril, 1975)

A escuta é parte primordial da clínica psicanalítica, porém é necessário compreender que trata-se de uma escuta que vai além do simples ouvir palavras proferidas pelos pacientes que procuram a análise. Sempre que pensamos em um campo analítico, nos vem a imagem de um bom ouvinte nos esperando para que possamos através da fala, elaborar questões que nos incomodam, ou que mesmo nem sabemos que nos incomodam, um mundo psicoterapêutico de descobertas.

Fink (2017), coloca que surpreendentemente ainda são encontrados poucos bons ouvintes na clínica psicanalítica, isso se deve principalmente à nossa tendência em ouvir tudo que se relaciona com nós mesmos. Geralmente quando nos é contada uma história, imediatamente nos reportamos a algo similar que vivemos ou que acessamos, por meio das nossas vivências, onde passamos a relacionar com a experiência de que está falando e dizemos coisas como “sei o que você quer dizer” ou “sinto sua dor”.

Dessa maneira a escuta habitual é altamente narcisista e egocêntrica, já que demonstramos uma forte inclinação em relacionar o conteúdo trazido pelo outro, com nós mesmos. Lacan (1901-1981), coloca que essa situação acessa a dimensão imaginária do analista, ou seja, quando o ouvinte se compara ou mensura o discurso do outro, no tipo de imagem que se reflete por meio desse discurso, nesse caso o analista fica preso a sua autoimagem e ouve apenas o que reflete nela.

Escutar dessa forma não permite ao analista que ele consiga ouvir o que o paciente transmite na sua fala, por meio dos atos falhos, algo que inicialmente não faz sentido, pois não reflete algo sobre ele mesmo, e portanto, ao ignorar não se aprofunda em algo que se manifesta de forma representativa e pode ser simbolizado na análise. O trabalho do analista no modo imaginário reduz ou mesmo anula a compreensão do conteúdo trazido pelo paciente (FINK, 2017).

O que portanto, o analista deve escutar? Freud (1912) recomenda que na primeira vez que vai se abordar um caso, o analista não se preocupe em presumir nada, mantendo então, sua atenção flutuante, pois somente assim será capaz de ouvir as associações livres do paciente, aquilo que se apresenta de novo, diferente do que é simplesmente dito, sendo algo considerado contrário ao que queremos ou esperamos ouvir.

Fonte: encurtador.com.br/zGRTZ

 

A escuta na clínica psicanalítica se inicia quando o analista não se preocupa em compreender rapidamente o que mostra o discurso do paciente, por que a aliança não vai se dá nessa tentativa, que pode ser falha, mas sim quando ouve o que não está sendo dito em palavras, aquilo que não foi entendido, mas que por meio delas se expressa. Segundo Lacan (1993) o discurso inter-humano é a demonstração do mal entendido e para tanto, deve se levar em conta para relação, o interesse apresentado pelo analista em escutar com atenção seu paciente, deixando que ele fale longamente, interrompendo apenas para trazer para a análise a lacuna entre o que foi transmitido e o que não foi, em palavras (FINK, 2017).

Freud ao introduzir a ideia da associação livre coloca que tudo que é apontado no discurso do paciente se torna igualmente importante e a escuta é da ordem do inconsciente, por isso trata-se de uma escuta criativa, na qual está implícita um tipo de atividade silenciosa de interpretação do que se expressa por meio de várias linguagens, sendo a atenção flutuante uma forma de associação livre do analista, tendo como ponto de partida as associações do seu paciente e não o que traz no seu inconsciente (ROUSSILLON, 2012).

Figueiredo (2014) ressalta que o psiquismo inconsciente encontra formas de expressar o sofrimento, que vão além das palavras e diz que ele trabalha como um poeta a procura de imagens, analogias, metáforas, que possam expressar a realidade de um conteúdo, que foi experimentado pelo sujeito, antes mesmo que houvesse a aquisição da linguagem, por isso a escuta analítica deve privilegiar a realidade psíquica e suas diversas formas de expressão.

A história contada pelo paciente se apresenta repleta de fragmentação, lacunas e buracos, que inicialmente pode não fazer sentido, pois ainda que exista a tentativa de expressar as vozes internas, o sofrimento se apresentará por meio de sintomas, inibições, angústias e atuações. O analista confia que o sujeito se engendra na análise por que deseja simbolizar e sua escuta deve se ocupar dos estratos psíquicos silenciados por condições traumáticas que o constituíram, bem como com o significante que faz surgir o sujeito da significação, para que o material apresentado inicialmente sem sentido, passe a ter pouco sentido, até se chegar a um sentido diferente (FINK, 2017). 

Escutar a mensagem invertida transmitida na análise, por meio da articulação dos significantes trazidos pelo paciente faz surgir o analista, sua ética, sua disposição peculiar, que orienta sua prática, abrindo espaço para a manifestação do inconsciente vivo, que produz efeitos no cotidiano do sujeito e se apresenta enquanto experiência emocional inscrita no psiquismo, mas que pode produzir em análise um valor simbólico.

Referências:

FIGUEIREDO, L.C. Escutas em análise: escutas poéticas. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 48, n.1, p. 123-137, 2014.

Fink, B. Fundamentos da técnica psicanalítica: uma abordagem lacaniana para praticantes; tradução de Carolina Luchetta, Beatriz Aratangy Berger. São Paulo: Blucher, Karnac, 2017

LACAN, J. Escritos. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

MINERBO, Marion. Diálogos sobre a clínica psicanalítica. São Paulo: Blucher, 2016.

ROUSSILLON, R. As condições da exploração psicanalítica das problemáticas narcísico-identitárias. ALTER- Revista de Estudos Psicanalíticos, Brasília-DF, v. 30, n.1, p. 7-32, 2012.

Assistente Social (UFPI), bacharel em Direito (UNIRG) e Acadêmica de Psicologia pelo Ceulp/Ulbra. Pós-graduação em Saúde Pública (FAINTER), em Saúde Mental (AVM) e em Prevenção e tratamento do uso e abuso de substâncias psicoativas (FASEM). Trabalha como Assistente Social na Polícia Militar do Tocantins.