A passividade perante os transtornos alimentares

Patologias que são caracterizadas essencialmente pelo medo sombrio de engordar, são os chamados transtornos alimentares. Existem fatores culturais, sociais e individuais que alimentam e mantém essas doenças. Há uma busca por um suposto padrão de beleza globalizado, que cultua a magreza e transpassa os meios midiáticos, socioeconômicos, raciais e de gênero, tendo forte impacto no aumento de número de casos.

O conceito do belo sofre inúmeras variações ao longo da história, o estético corporal padronizado é normalizado desde os princípios dos regimes patriarcais. Logo, não é de hoje que há uma glamourização desses transtornos, como a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, principalmente na indústria de entretenimento (desde o mundo da moda até o meio musical, teatral, chegando inclusive dentro dos nossos vínculos mais íntimos, familiares).

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Ocorre uma preocupação exagerada com o peso e a forma corporal, através da redução do consumo nutricional ou da ingestão nutricional exagerada seguida de medicamentos que induzam a eliminação dos alimentos. Baseado no sociocultural as práticas e hábitos alimentares se constituem, envolvendo também a economia. Uma vez que o corpo valorizado é contrário aos alimentos ofertados. Dessa forma, em contextos nos quais os alimentos são escassos, a imagem feminina robusta é indício de poder, enquanto em épocas de abundância de alimentos, a magreza vigora como símbolo de sucesso (Hercovici & Bay, 1997).

Encontra-se registros históricos dessas doenças datados de séculos atrás, contudo, diferentemente de antes em que essas eram explicadas com deduções sobrenaturais, hoje há todo um estudo científico que baseia as concepções que conhecemos. Essa padronização das formas e belezas, ainda é muito pouco questionada, indo além do bombardeamento de imagens com corpos perfeitos de silhuetas esbeltas, chegando aos significados simbólicos que essas imagens trazem de felicidade, sucesso e conquista. Na visão Junguiana, os símbolos orientam conteúdos que ainda não são conhecidos, sendo um indicativo para algo inconsciente, expressando-se por analogias que transcendem a consciência e dão sentido à vida.

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No cenário do mundo da moda, deve-se lembrar da etimologia da palavra ‘modelo’- do latim vulgar, modellum: onde ‘mŏdus’ é a medida em geral, e ‘donde’ é a medida que não se deve ultrapassar. Com isso, busca-se um molde padrão, que diversas vezes é uma beleza inatingível, que desrespeita todo um processo de miscigenação, apagando a identidade de um povo. E desde muito cedo, crianças são alimentadas com essa cultura, com essa mídia, que passa por nossos olhos de forma tão natural.

Corpos esculturais em capas de revistas, filmes com atores impecáveis (cujo nas próprias histórias o objetivo de vida do personagem é estar bonito para atrair alguém fisicamente), clipes de músicas em que tudo é milimetricamente planejado para todos saírem belos, fotos em redes sociais nas quais não se encontra uma imperfeição se quer; nisso pergunta-se: qual o conceito de imperfeição? Cicatrizes? Estrias? Celulites? Marcas de nascença?

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Ademais, foi constituída uma desconfiguração da linha divisória tênue, que por diversas vezes camufla os transtornos, entre o cuidado pela saúde do corpo e a sutil instalação dessas doenças. Com o avanço das mídias sociais, a indústria da magreza foi impulsionada, o consumo diário desses conteúdos pressiona as pessoas a se encaixarem no ideal corporal da cultura inserida. O corpo passa a ser visto como um objeto facilmente modelado, ou seja, é vendido o poder de transformar o corpo.

Bem como, ensina-se técnicas milagrosas para o emagrecimento com a fachada de ‘’saúde’’, sendo incentivado também o estado constante de insatisfação com a própria imagem, visto a perene mudança do padrão ideal (nocivo) de beleza. Do mesmo modo, origina-se uma má relação com a comida, essa passa a ser vista como vilã e obstáculo para o tão almejado objetivo do corpo dos sonhos; o adoecimento vai acontecendo de maneira tão gradual que passa despercebida pela sociedade que pareou a magreza à saúde.  Diante disso, apaga-se toda a subjetividade que há nos corpos, toda a história de vida que eles carregam, toda a variedade deles, em prol de um único molde.

Referência:

Hercovici, C. & Bay, L. (1997). Anorexia nervosa e bulimia nervosa: Ameaças à autonomia.

Larissa Nogueira
Acadêmica de Psicologia do Centro Universitário Luterano de Palmas CEULP/ULBRA. Voluntária no Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento.