A rotina universitária costuma ser marcada por prazos apertados, avaliações constantes e um ambiente de comparação que parece nunca desligar. Nesse cenário, o perfeccionismo ganha terreno e se apresenta como virtude… até que deixa de ser. Quando a exigência interna ultrapassa o limite do saudável, ela se mistura com diferentes formas de ansiedade, criando um ciclo silencioso que compromete a saúde emocional de muitos estudantes.
A ansiedade, em si, é uma resposta natural diante de desafios. Ela prepara o organismo para agir, aumenta o foco e mobiliza energia. O problema surge quando essa reação deixa de ser pontual e passa a ocupar espaço demais na vida cotidiana. A psicologia diferencia dois modos de vivenciar ansiedade, que ajudam a entender por que alguns estudantes sofrem mais em momentos de pressão:
Ansiedade-Estado
É a ansiedade do momento, aquela que aparece diante de uma situação específica: a prova, o seminário, a entrega do TCC. Ela sobe e desce conforme o contexto. Ela é reativa, passageira e quanto a situação estressora termina, a ansiedade tende a diminuir.
Ansiedade-Traço
É um padrão mais estável. Representa a tendência da pessoa a perceber o mundo como mais ameaçador do que realmente é. Nesse caso, a ansiedade não depende apenas de provas ou avaliações: ela já faz parte da forma como o estudante interpreta a própria vida, apresentando um nível elevado de vigilância, preocupação e estresse. Perfeccionistas, especialmente os autocentrados na autocrítica, têm maior risco de desenvolver altos níveis de ansiedade-traço.
Esses dois tipos se combinam com o perfeccionismo como engrenagens de uma mesma máquina. Quando alguém se cobra demais, sente que nunca faz o suficiente e acredita que um erro define todo seu valor, tanto a ansiedade-estado quanto a ansiedade-traço se intensificam. A primeira cresce nos momentos de pressão, a segunda se mantém no pano de fundo, alimentando o ciclo de preocupação constante.
Esse processo cria um sistema de retroalimentação: o estudante se cobra mais, teme falhar, aumenta a ansiedade e, por isso mesmo, se cobra ainda mais. Em pouco tempo surgem sinais de sobrecarga: insônia, tensão muscular, irritabilidade, bloqueios cognitivos e uma sensação crescente de exaustão mental.
A comparação social amplifica essa espiral. O perfeccionista ignora seus próprios progressos e foca apenas nos erros. Mesmo quando recebe elogios, sente que não merece. Quando algo não sai como o planejado, confirma a ideia interna de que nunca é suficiente.
Esse padrão compromete não só a saúde emocional, mas o processo de aprendizagem. O medo constante atrapalha a concentração, diminui a criatividade, gera procrastinação e transforma tarefas simples em maratonas mentais. Muitas vezes, o estudante evita situações que envolvem exposição, como apresentar seminários, participar de projetos ou assumir responsabilidades novas.
Ambientes acadêmicos que não acolhem o erro tendem a agravar esse quadro. Quando a instituição reforça apenas resultados e não processos, reforça a ilusão de que falhar é inaceitável.
Romper esse ciclo não significa abandonar a busca pela qualidade, mas substituir a rigidez por flexibilidade. Estabelecer metas realistas, dividir tarefas em etapas menores, normalizar o erro como parte da aprendizagem e reconhecer limites são passos essenciais.
Referência: Curran, T., & Hill, A. (2019). “Perfectionism Is Increasing Over Time.” Psychological Bulletin.
